Aos homens da minha geração
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de novembro de 2005
Célia Musilli 
De uma coisa não abro mão: ainda prefiro os homens da minha geração. Está certo que não têm mais a juventude que ofuscava nossos sentidos quando tínhamos 17, 18 anos e nos atraiam nas noites de sábado enquanto destilavam do copo de rum ou cerveja versos livres de Jim Morrison ou Neruda.
Eles amadureceram, registrando na passagem do tempo coisa de 20, 30 anos, desde que demos a largada como personagens ''sem destino'', sabendo muito bem aonde queríamos chegar... A idade lhes deu um ar de inexorável superioridade que defendo ao contrapor minhas opiniões com as de outras mulheres que se derretem por garotões acreditando que, eles sim, são capazes de nos levar de volta à fonte da irresponsável e doce juventude. Bobagem... ainda prefiro beber no corpo dos homens da minha geração.
Com eles ouvi os Beatles, Chico e Caetano ensandecendo a alma nas manhãs de protesto em que engolíamos a seco o fato de vivermos anos de chumbo num país que queríamos amável, consciente, politizado. Com eles construí planos de subverter a ordem, enquanto decantávamos Gramsci, Sartre, Pound ou Drummond.
O mundo nunca mais foi o mesmo, desde que trocamos livros e sonhos, passando de mão em mão os conceitos de uma sociedade libertária em que as diferenças foram somadas em vez de dividir as águas.
Hoje, quando ainda os encontro de jeans e camiseta, lembro dos discursos que cabiam em frases bem colocadas no peito dando-lhes um ar de irreverência que nos incitava a deixar de ser moças bem-comportadas. Com eles viajamos de carona à praia mais próxima descobrindo um luau muito longe do Hawai. Ao violão, entoamos Bossa Nova, sambas de Cartola e canções de protesto, abertos a abordagens que nos tornaram herdeiros da cultura pop, da beat generation, dos heróis que nunca perderam a ternura.
Alguns acenderam incensos a nossa volta nos transformando em deusas modernas, outros nos passaram a boina das guerrilhas e os conceitos que transformaram o mundo num momento único: uma idéia na cabeça, muitas câmeras na mão...Glauber e Truffaut, Leila Diniz e Simone de Beauvoir, saídas à francesa do quarto revirado em que nos desnudávamos da opressão.
Com eles, nos deliciamos com a consciência de Mafalda e a porra louquice da Rê Bordosa, tornando mais leves as manhãs em que acordávamos com um parceiro que nunca tínhamos visto antes, sem exercer a penitência. Eles mesmos nos ensinaram a não levar a vida a ferro e fogo, nem o sexo tão a sério a ponto de impedir um sopro de aventura. Eles também nos ensinaram que, nesta hora, vale mesmo é o bom humor para não cair na armadilha do pudor que, afinal, só nos sufocaria até a próximo porre de tequila.
Por tudo isso, nunca vou deixar de reverenciar os homens da minha geração. Com eles aprendi que a medida exata das coisas é optar pelo risco de viver e que todas as tentativas de felicidade são válidas. Desentalamos juntos o grito anárquico das gargantas e partimos para sempre rumo à consciência de que ser homem ou mulher não é bom nem ruim, é apenas natural como o punhado de tâmaras que mastigamos sonhando com a liberdade que nos aguardava em Londres, Ipanema ou Marrakesh.


