AOS DOMINGOS PELLEGRINI
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sexta-feira, 02 de junho de 2017

No calorão de ensopar colarinho, entro no bar e peço água mineral sem gelo, sabendo que, se tomar gelada, suarei ainda mais. Mas só tem gelada, então peço um copo da torneira mesmo, e tomo enquanto ao lado alguém de gravata me ignora, mas outro de macacão me sorri companheiro.
Na calçada, vendedor de melancia enfileira fatias no tabuleiro, e uma voz antiga fala no ouvido: há quanto tempo você não come melancia em pé na rua? Peço uma fatia e me lambuzo, lembrando de quando menino, na mesma esquina, comia quebra-queixo antes de ir para a vesperal do Cine Ouro Verde. E a voz fala: que menino feliz você foi na Capital do Café! Lembra? Ali da Ferragens Fuganti saíam caminhões carregados de foices e enxadas para as fazendas, enquanto camelôs formavam rodas de gente em cada esquina, dinheiro correndo feito água, como diziam, e...
Uma senhora tão idosa quanto pobre, a julgar pelas rugas e roupas, chega-se com menino pela mão e pergunta o preço da melancia. O menino nem pisca olhando já sua fatia mas, quando o vendedor fala o preço, pensando ser para melancia inteira, ela arregala os olhos engolindo seco. Tudo isso? O homem entende e corrige o preço, o menino olhando ansioso para ela.
Ela cata moedas, paga, pega faca no tabuleiro e retalha a fatia bem rente à parte branca; "pra render", explica. Lembro do caso antigo: o visitante almoça na rica fazenda, com melancia de sobremesa, e uma menina "de criação" recebe as cascas para roer. O visitante quer dar a ela nova fatia, os da casa dizem não, ela gosta "das partes brancas"...
O menino rói sua fatia até a parte branca, daí fala obrigado, vó. Ela pega a fatia roída e dá mais umas mordidinhas, então falo, mentindo com muito jeito, que o menino lembra um neto meu distante e... ela se importará se, por isso, eu oferecer outra fatia a seu neto? Ele agora olha para ela sem nem piscar - porém ela fala não, ele já comeu, mas o vendedor me dá piscadela, olha o relógio, dizendo que precisa ir embora logo, então fará duas fatias pelo preço de uma, ela que aproveite.
Pago e me afasto, para de longe ver a avó e o menino se lambuzando. Depois se vão, ele saltitante como eu menino quando ganhava presente. E de repente troco olhar com o vendedor de melancia, e, mesmo desconhecidos, sorrimos na cumplicidade de adoçar o dia.

Lírios-do-vale trouxemos de viagem, raízes que plantamos aqui e ali na chácara e esquecemos mas eles não nos esqueceram. Mal percebemos quando germinaram mas cresceram formando touceiras e, um dia, eis que o perfume passeava no ar da tardezinha.
Colhemos os caules floridos, colocamos em jarros ao lado da cama e, se criados-mudos falassem, diriam que nunca nos viram dormir tão bem. A velha música diz que a água lava tudo, mas descobrimos que o perfume dos lírios-do-vale lava muito mais. Lava e leva aquela sensação de impotência diante de tantos atentados, a desilusão com tantas notícias de corrupção, a incerteza com a crise, a reprise de velhas novelas de politicagem, o amargor de saber que tantos trabalharam tanto para receber bem pouco e poucos que mal trabalharam recebem muito mais.
O perfume dos lírios diz não, não se iludam com o mal nem desejem o mal aos maldosos, prossigam no bem que lhes traz paz, o bem mais precioso que vocês tem. Boa noite, amanhã é um novo dia e, se o sol e a chuva não esquecerem de nós, continuaremos a florir para vocês!
Então tudo bem; valei-nos, lírios-do-vale!



