Estamos em tempos de pisar em ovos antes de dizer o que se pensa. No mais das vezes, isso é motivo de dar graças a Deus, embora também não seja rara a autocensura nociva. Seja como for, há uma curiosa exceção: ninguém parece ter fobia de (ser pego cometendo) gerontofobia. Frases que começam com “aquele velho” são perfeitamente passíveis de ser ouvidas saindo das bocas mais progressistas, ou que assim se dizem.

"Não navego pra chegar", novo álbum de Francis Hime pela Biscoito Fino, chegou às plataformas digitais no mês passado e deve ser lançado em CD neste maio. Que admirável demonstração de altivez para tanta gente cuja maior concessão aos velhos é chamá-los de idosos.

Quantas vezes você já ouviu variações da frase “não fazem mais músicas como antigamente”, numa comparação com os anos em que a chamada MPB tinha forte apelo comercial? Essa ladainha é preguiçosa e problemática por alguns motivos. Primeiramente, devemos perdoar a ignorância em relação aos jovens (e outros não mais tão jovens) valores da canção popular sem grande exposição midiática. Existem, sim, novas figuras com alto poder de elaboração musical e poética, mas hoje se requer certo esforço para encontrá-las.

Imaginemos então um mundo onde fosse verdadeiro afirmar que depois do Plano Cruzado nunca mais apareceu um compositor que preste. Ainda assim restaria a obviedade de que muitos compositores surgidos na década de 1960 permanecem na ativa. Como então não fazem mais canções como antigamente, seja lá o que isso queira dizer? A produção só conta quando feita por adultos jovens? A partir do momento em que se tem gratuidade no metrô, a pessoa vira café com leite?

Ainda bem que Francis Hime não concorda com isso, e segue oferecendo canções novas (além de trilhas, peças instrumentais e música de concerto) desde 1964. Não dando bola para questões mesquinhas, guarda sua indignação para causas políticas, jamais a gastando para lamentar o estreitamento de visibilidade para sua arte — ou reclamar por ser injustamente mais lembrado como parceiro de Chico Buarque do que como dono de uma obra autônoma e monumental.

Quantidade e qualidade

Sem lhe fazer favor nenhum, pode-se dizer que Francis compõe tão bem hoje, aos 85 anos, quanto nas décadas de 1960, 1970 e 1980 — em quantidade e qualidade, isso se não estiver compondo melhor. Nessa constância, não encontra par mesmo entre os colegas de sua geração tão (merecidamente) aclamada. Não acreditem em mim, só ouçam "Não navego pra chegar". Façam esse favor a vocês mesmos, estar vivo em 2025 até que traz duas ou três vantagens.

Na produção do álbum, Francis se reuniu com um notável time de parceiros na composição das canções (Geraldo Carneiro, Maurício Carrilho, Bráulio Pedroso, Moraes Moreira e Ziraldo, estes três últimos em parcerias póstumas), na interpretação das faixas (Simone, Mônica Salmaso, Dori Caymmi, Quarteto Maogani, Leila Pinheiro e Lenine) ou em ambas as funções (Ivan Lins, Olivia Hime, Zélia Duncan e Zé Renato), formando um todo que merece o clichê “elenco estelar”.

O brilho maior do disco vem mesmo, no entanto, do protagonista, em sua sofisticação e versatilidade de compositor, arranjador, cantor, instrumentista, regente... Ele nos entrega samba à Cartola (“Chuva”), samba-enredo (“Samba pra Martinho”), choro-canção com brisas de fado (“Não navego pra chegar”), canção de câmara (“Um rio”), modinha (“Tempo breve”), soneto musicado de forma trovadoresca (“Shakespeareana”), salsa (“Tomara que caia”), xaxado (“Chula chula”) e samba-canção (“Imensidão”, “Infinita”).

Ponto alto

Mesmo estando entre esse conjunto de canções de excelência, não há como deixar de destacar “Imaginada”, a faixa de abertura, parceria musical entre Ivan Lins e Francis com letra de Olivia Hime, cantada no álbum pelos dois primeiros. Estamos aqui diante de um feito da canção brasileira. Fossem outros os tempos, haveria intérpretes se estapeando para registrar o mais rapidamente possível suas próprias versões para “Imaginada”, umas dez gravações diferentes logo no primeiro ano depois do registro original, feito “A noite do meu bem”.

Francis classifica a canção como um blues, usando definição muito peculiar: não pense em algo em que B. B. King pudesse sair solando. Verdade, há algo do gênero americano no acento rítmico, em algumas das chamadas blue notes. Mas pelo compasso ternário em andamento dançante não seria errado chamá-la de valsa, talvez de modinha pela melodia sentimental vertiginosa. Tudo isso com uma condução harmônica de herança jobiniana, compondo rica miscigenação de estilos.

O quê americano também se nota na estrutura AABA, o modelo mais usual dos standards dos Estados Unidos. Ivan compôs a primeira parte em pequenas e espaçadas frases musicais; evidente, Francis só poderia escrever a segunda parte com o devido contraste, valendo-se de extensão da tessitura e frases longas de notas curtas, com pouco espaço para respiração. A mágica é que as duas partes tão distintas se integram de maneira a soar inevitável e indivisível.

A letra de Olivia repisa o tema da musa onírica, mas com estilo próprio, como só conseguem os craques do ofício. A “imaginada” pode ser uma pessoa real, por quem o eu da canção se apaixonou: nessa hipótese, houve uma idealização que foi se desmanchando com o inevitável passar do tempo. Agora se sente falta da criatura idealizada, mas é inútil, pois não se colam os cacos do cristal quebrado.

Não se pode descartar, no entanto, a possibilidade de ser a amada da letra uma completa fabulação, que num transe místico-artístico se fez real. Finda a alucinação, sente-se a dureza do mundo concreto e se quer voltar ao delírio, mas esse tipo de arrebatamento não se repete de maneira voluntária.

Para emoldurar essa pérola, suntuosa orquestração, com sopros, cordas e tudo a que se tem direito. Com Francis como arranjador, não cola esse negócio de menos é mais. Mais é mais. E mesmo depois desse "Não navego pra chegar", mesmo depois de seis décadas de carreira, nós também só podemos ser egoístas e pedir mais Francis, ainda mais Francis.

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