Fazendo fogueira se aprende a importância dos pequeninos, pois o fogo começa com os gravetos; com álcool ou querosene seria fácil e não teria graça. E pronto, eis a fogueira, nossa fonte ancestral.

Imagem ilustrativa da imagem Ao pé do fogo
| Foto: Shutterstock



Olhos para o céu
pés para o fogo
o momento é meu

Eu fazia fogueira toda semana, até mais vezes se era lua cheia. Depois, passei a fogueirar também na lua crescente e na minguante, aprendendo a apreciar seu crescimento e minguamento. Depois ainda, passei a gostar também das noites de lua nova, o céu sem luar ressaltando as estrelas.

Tá tudo aí
é só ter olhos pra ver
ouvidos para

Para ouvir, está implícito aí, a ausência do verbo significando a acuidade de mais ouvir quanto menos vemos. E na escuridão da lua nova o concerto dos sapos parece mais solene, os grilos mais estridentes, a coruja mais conselheira. Mas também ouço o fogo, que fala sem palavras com suas muitas línguas.

A lua levanta
a fogueira fala
o vale canta

Mas quanto mais forte o fogo, mais fugaz. As línguas das chamas cansam logo, deitam virando brasas. Passa um ventinho, as brasas parecem sorrir.

Braseiro
único e derradeiro
sorriso da madeira

Agora as brasas vão formando figuras, um peixe, uma cabeça de cachorro, um balão ou maçã, até que todas essas figuras se juntam numa careta que te olha, parece querer te perguntar algo que enfim você decifra:

Careta do braseiro
pergunta onde vamos
hem companheiro?

Respondo entre dentes: vamos para o desgaste infinito ou para o eterno renascimento, já que impossível será deixar de existir de alguma forma. Mas me sinto tão racional com essa resposta na ponta da língua... Dá saudade de, quando menino, ficar ao pé do fogo com tantas perguntas para as estrelas e entretanto tão vivo.

Esquentar por dentro
ao pé do fogo
no centro do mundo

Quando as cinzas cobrem as brasas, chega o sono, vou para a cama com o cheirinho de fumaça de madeira nos cabelos, muito melhor do que quando ia a bares noturnos e deitava com o cheiro de fumaça de cigarros. Dia seguinte, vento bate no quintal e a fogueira, que parecia tão efêmera, mostra que ainda está viva:

A fogueira ainda
vive no vento
voando em cinzas

Recolho as cinzas que restam, misturo na compostagem, vão ser enterradas ao pé de planta e, assim, ainda vão florir

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