ilustração de Douglas MayerA loura se chamava Cindy e veio em minha direção com uma faca. Aquele tempo, em New Jersey, quase todas as louras se chamavam Cindy e, mais de uma vinha na direção da gente com uma faca. A salvação foi Mike, junto da escada, agarrar-lhe por trás o braço erguido com a faca na mão, impedindo que ela praticasse, contra mim, o ato extremo. Até hoje me pergunto se ela conseguiria, como desejava, cravar-me a faca no coração.
Conheci Cindy ao tempo em que moramos em Memphis. Já então ela era uma lourinha estúpida que vivia atrás de meu irmão, o Larren, aquele imbecil. O Larren está trabalhando agora numa empresa de computação gráfica e ao menos uma vez por ano vem nos visitar em New Jersey. Só porque mora na 42 com a Quinta, num apartamentozinho espremido, que ele comprou pelo plano de habitação, vive dizendo que agora sim, que agora é um homem bem sucedido. Coitado do Larren. Tenho pena dele, às vezes, mas logo deixo de ter quando lembro o que o Larren fez com o Phill, por causa de grana, lá em Memphis.
Fui logo colocando a Cindy aqui como se ela fosse uma assassina, mas isto é a raiva que estou dela, agora que ela jurou que não aparecerá mais, enquanto eu não deixar ‘‘o esporte’’. Mas para ser bem honesto, a Cindy é incapaz de matar uma mosca. Pelo contrário, gasta ao menos duas horas, todos os dias, alimentando os esquilos, nos parques. Um tempão que a Cindy perde não só alimentando os esquilos, como também os pombos, e os gatos e os cachorros da rua, conduzindo-os, na van do Morris, à sociedade protetora dos animais.
Mas aquela tarde, em New Jersey, a Cindy estava para o crime - a faca na mão, levantou bem alto o braço, quase como numa cena de cinema, e dizia, ‘‘Andrew, eu te acerto. Hoje eu te acerto, seu canalha.’
Apesar dos meus dezesseis anos, todos os dias eu acho que vou morrer e quem vai me matar é a Cindy. Bobagem. Nos acessos dela, mais de uma vez ela já pegou em faca, porrete, cabo de vassoura e até revólver a Cindy já lançou mão, mas há sempre, como nos filmes, alguém que chega de repente e tira dela a arma com que deseja me ver morto. O Larren diz que quem está querendo matar a Cindy sou eu. ‘‘Como eu?’ ‘‘Você mesmo, Andy, com esta mania de bancar o durão’’. ‘‘Durão, eu?’ - repergunto, não sem uma ponta de orgulho. Se o Larren está me achando durão é porque sou durão mesmo, não seria o invejoso do Larren que ia dizer isso se isso não fosse verdade. ‘‘É, durão, como se mulher, só porque está apaixonada, tivesse de aguentar todas.’ O Larren sempre foi assim - feminista de carteirinha. Acho meio babaca um homem ser feminista, mas como é o Larren, dou o desconto. Afinal, ele é o meu irmão, meu único irmão e eu não iria logo contra um irmão meu, sendo ele só um e único. Ah, o Larren.
Faz duas semanas que a Cindy foi direto ao assunto: ou ela ou a hang glider. Coitada da Cindy, vê se pode - achar que eu possa trocá-la pela minha asa-delta. Ainda que a hang tenha um nome, Gerth, a Cindy deveria entender que a gente batiza as asas, só de farra, só de curtição. A minha tanto poderia se chamar Gerth como Shirley, Helen, Mary, Eleonor.
O besta do Larren, quando decide se meter nos meus assuntos particulares, é o primeiro a tomar o partido da Cindy. Já disse que ele é um bobo de um feminista, mas esqueci de dizer que vive sendo passado para trás, pelas garotas, justamente porque é um bobo de um feminista. Pois o Larren é quem explica e, acho, deixa a Cindy ainda mais insana - ‘‘Andy, não é a hang glider propriamente dita. É o tempo que ela te toma’’. Desta vez, encrespei, não com o Larren, mas com a explicação dele sobre a Cindy. ‘‘Quer dizer que aquela vaca, não se importa nem um pouquinho com os riscos do esporte?’ ‘‘Os riscos também, Andy. Mas o principal é a tua ausência. Você nem parece namorado dela.’ Esta última frase soou como uma bomba. Não disse nada, não esbocei a menor resposta, só franzi as sobrancelhas, e joguei a mochila no sofá, com ódio - do Larren, da Cindy, da porcaria que é o meu pai, da outra porcaria, Deus que me perdoe, que é a minha mãe, e as suas tortas de morango e as suas unhas pintadas e a sua pequena mão descrevendo no ar um enorme ponto de interrogação para ilustrar como é que será o meu futuro, meu e o desta vida de hanger glide. ‘‘Andy, olha. Tá vendo? Tá vendo mesmo, Andy? Este é o teu futuro.’ E a pequena mão se move no ar num movimento até gracioso não fosse a raiva nos olhos dela, nos pequeninos olhos azuis de Mom - faiscantes.
Daqui a pouco, já adivinho, vai entrar a Cindy no quarto e meio chorosa se postar ao meu lado: ‘‘Pô, Andy, quantas vezes te pedi para abandonar o esporte?’ Ela só se refere à hang glider como ‘‘esporte’’, tem horror (ciúme) de chamá-la pelo nome verdadeiro. Ou terá, enfim, - a esperança é a última que morre -, aquela reação com a qual sempre sonhei: ‘‘Andy, só quebrou as duas pernas? Só, Andy? Mas que coragem, hein, honey?!’ E eu contaria a ela todos os detalhes, como fiquei na floresta e do modo como a noite caiu, e como me abriguei contra o vento, escudado na Gerth. E ela acrescentaria: ’ Quero ver quando você estiver pronto para o desafio da Grande Parede, em Nevada...’
Nada, gente, nada. Quem entra é a enfermeira negra que, muito suave, espera que eu termine estas anotações aqui, e já vai me tirar o caderno da mão, e apagar a luz da cabeceira da cama. Amanhã, bem cedo, numa arriscada cirurgia, vão encher-me de pinos, as duas pernas, e ninguém sabe, ninguém ousa, em todo o hospital, garantir que eu venha andar de novo, antes de um ano ou um ano e meio.

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