'Ao mesmo tempo' traz ensaios inéditos de Susan Sontag
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sábado, 12 de julho de 2008
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Ela morreu sem realizar projetos como o de escalar o monte Cervino, aprender a tocar cravo e estudar chinês, mas deixou um legado insuportavelmente incômodo para os americanos, que tinham por ela um sentimento ambivalente de admiração e desconfiança. E não só os americanos. Muito antes de escrever um de seus mais polêmicos textos, logo após o ataque às Torres Gêmeas, em setembro de 2001, culpando a política externa americana pelo atentado terrorista, Susan Sontag (1933-2004) comprou uma briga com os marxistas ao declarar, em 1982, que o comunismo era um ''fascismo com face humana''.
Este último ensaio não figura em ''Ao Mesmo Tempo'' (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 246 páginas), mas o das Torres Gêmeas vem acompanhado de outros dois artigos sobre o mesmo assunto na segunda parte do livro, que chega às livrarias quarta-feira.
Na primeira parte, os ensaios reunidos por Paolo Dilonardo e Anne Jump não chegam a causar incômodo, a não ser aos que têm pudor de usar a palavra belo para se referir a uma obra de arte. Nessa coletânea de ensaios, discursos e notas da escritora, tomadas nos últimos quatro anos de vida, o primeiro dos textos, ''Uma Discussão sobre a Beleza'', critica justamente a mania contemporânea de usar adjetivos errados para definir criações artísticas, evitando a palavra ''belo''.
Fiel às antigas paixões literárias, ela celebrava a literatura russa e revisava um ensaio sobre o Nobel de Literatura de 1955, o islandês Halldór Laxness (incluído no livro), quando morreu. Era justamente sobre o desconcertante ''Embaixo da Geleira'', história de um jovem recrutado por um bispo para investigar o que se passa numa aldeia em que a igreja está fechada há 20 anos, encarregando-o de avaliar a incúria espiritual do pastor.
Sontag, como se sabe, era materialista. Laxness, um católico (por pouco tempo) convertido ao marxismo. Não deixa de ser revelador o interesse de uma doente terminal por um romance que fala da jornada de iniciação de um jovem às voltas com heresias e desejo erótico, cuja viagem termina com o mesmo descobrindo estar falando com fantasmas.
Era esse o medo de Susan Sontag, o de que já estivesse no outro mundo. Seu filho, o editor e também escritor David Rieff, diz que ela trabalhava para a posteridade justamente ''em razão de seu medo imoderado da extinção''. Ela não queria partir, garante Rieff, que promete para os próximos anos o lançamento do diário, das cartas e ensaios não coligidos da mãe, isso se conseguir localizar todos os escritos na bagunça que era o apartamento nova-iorquino de Susan Sontag, ''à beira da explosão de objetos, impressos, fotos e, é claro, livros, livros intermináveis''.


