Ao lado da senhora POESIA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de dezembro de 2002
Luiz Taques<br> Especial para a Folha 
Você conhece aquele ditado popular que diz que, por trás de um grande homem, sempre existe uma grande mulher? Pois bem, no caso do poeta Manoel de Barros, essa grande mulher atende pelo nome de Stella de Barros. Ela, em si só, já é uma senhora poesia. Stella é a leitora número um e a principal crítica literária do poeta, que hoje completa 86 anos. Só ela é capaz de fazê-lo modificar um poema por completo.
No último dia 13, Stella e Manoel de Barros comemoraram 56 anos de casados. E é para Stella, esta bela e charmosa mulher de 80 anos, tão feminina, tão apaixonada pelo seu marido, que, com humildade e respeito, dedico o presente conto-reportagem.
Um artista na ponta do lápis
Minha poesia sai da ponta do lápis, não da alma.
Torta como eu, minha alma não iria a lugar algum, não fosse o lápis.
O lápis me ajuda a aprumar o meu corpo.
Aprumado, aí sim eu aprumo a alma na ponta do lápis.
Desconfio que, sabendo disso, meus amigos me presenteiam com lápis.
Este aqui, ó, acho que foi comprado no Rio de Janeiro.
Maria-pelego-preto, se não me engano, criei com ele.
''Maria-pelego-preto, moça de 18 anos, era abundante de pelos no pente.
A gente pagava pra ver o fenômeno. A moça cobria o rosto com um lençol branco e deixava pra fora só o pelego preto que se espalhava quase até pra cima do umbigo.
Era uma romaria chimite!
Na porta o pai entrevado recebendo as entradas...
Nos fundos a mãe rezando Glória a Deus nas Alturas...
Um senhor respeitável disse que aquilo era uma indignidade e um desrespeito às instituições da família e da pátria!
Mas parece que era fome.''
Da ponta deste outro lápis, que veio de Ladário, surgiu um filósofo - um filósofo de beco, a bem da verdade.
''Bola-Sete é filósofo de beco.
Marimbondo faz casa no seu grenho - ele nem zine.
Eu queria fazer a biografia do orvalho - me disse.
E dos becos também.
É preciso refazer os becos, Senhor!
O beco é uma instituição que une o escuro do homem
com a indigência do lugar.
O beco é um lugar que eleva o homem até o seu melhor
aniquilamento.
Um anspeçada, amigo meu, de aspecto moscal, só
encontrou a salvação dos becos.
Antoninha-me-leva era Eminência nos becos de
Corumbá.
Senhor, quem encherá os bolsos de guimbas, de tampinhas de cerveja, de vidrinhos de guardar moscas - senão os tontos de beco?
E quem levará para casa todos os dias de tarde a mesma
solidão - senão os doidos de beco?
(Algum doido de beco me descende?).''
Foi com este lápis, vindo de Belo Horizonte, que imaginei Mário-pega-sapo. O poema é mais ou menos assim:
''A gente não sabia se aquela draga tinha nascido ali, no porto, como um pé de árvore ou uma duna.
- E que fosse uma casa de peixes?
Meia dúzia de loucos e bêbados moravam dentro dela, enraízados em suas ferragens.
Dos viventes da draga era um o meu amigo Mário-pega-sapo.
Ele de noite se arrastava pela beira das casas como um caranguejo trôpego à procura de velórios.
Gostava de velórios.
Os bolsos de seu casaco andavam estufados de jias.
Ele esfregava no rosto as suas barriguinhas frias.
Geléia de sapos!
Só as crianças e as putas do jardim entendiam a sua fala de furnas brenhentas.
Quando Mário morreu, um literato oficial, em necrológio caprichado, chamou-o de Mário-Captura-Sapo!
Ai que dor!
Ao literato cujo fazia-lhe nojo a forma coloquial.
Queria captura em vez de pega para não macular (sic) a língua nacional lá dele...
O literato cujo, se não engano, é hoje senador pelo Estado.
Se não é, merecia.
A vida tem suas descompensações.
Da velha draga, abrigo de vagabundos e de bêbados, restaram as expressões: estar na draga, viver na draga por estar sem dinheiro, viver na miséria.
Que ora ofereço ao filólogo Aurélio Buarque de Hollanda.
Para que as registre em seus léxicos
Pois que o povo já as registrou.''.
O meu personagem mais conhecido, o Bernardo (o guardador de águas), foi escrito com este lápis, que ganhei de um amigo de São Paulo.
''Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com árvore.
As plantas querem o corpo dele para crescer por sobre.
Passarinho já faz poleiro na sua cabeça.''
Lápis na mão, tenho a mania de rabiscar livros que ganho.
Olhe esta página:
''O olho vê
A memória revê
E a imaginação transvê.''
O lápis, pois, me faz respirar. Preste atenção, como é simples respirar:
Pego uma folha de papel, dobro em quatro partes, recorto e faço um pequeno caderno, ao qual dou o nome de caderno de rascunho.
As capas eu faço com os cartões que também recebo pelos Correios.
Tem capa com Picasso, Van Gogh, Fernando Pessoa...
Pelo menos, as capas são chiques, você não acha?
Devo ter uma porção desses cadernos de rascunho. Ficam todos guardadinhos neste escritório de ser inútil. Nos cadernos, estão todos os meus livros escritos a lápis. Máquina de escrever só uso para datilografar os originais e enviá-los à editora. Faço isso, por causa da minha letra miudinha, que a gente de lá não ia compreender direito.
Engraçado, mostrando agora para você, estou vendo que os cadernos não têm data.
''As coisas jogadas fora
têm grande importância
como um homem jogado fora.''
Quando será mesmo que compus estes versos?
O povo aqui de casa fala que é porque eu não gosto de me envolver com esse negócio de calendário.
A borracha, outra companheira inseparável dos meus escritos, serve para eliminar as incompletudes (ainda bem que a palavra escrita não passa de um rascunho).
A borracha já me foi útil para apagar inclusive o dezenove de dezembro. Consta no registro que foi o dia em que nasci, oitenta e seis anos atrás, no Beco da Marinha, num Cuiabá garimpo.
Não adianta me procurar ou telefonar para me cumprimentar.
Você não vai me encontrar...
Ah!, agora, com este lápis, vindo de Barcelona, estou rabiscando algo sobre Palmiro, meu afilhado.
Venha, vou apresentá-lo:
Tem dia, Palmiro acorda com saudades da mãe.
Aí, seus olhos começam a se encher de lágrimas.
Palmiro, então, bebe para espantar a tristeza.
Mas as lembranças são mais fortes do que ele.
E chegam como que arrebentando o seu peito.
Palmiro chora. Como uma criança, Palmiro chora.
Na verdade, Palmiro assemelha-se mesmo a uma criança!
Até no porte físico: um metro e quarenta e cinco de altura.
Na idade, no entanto, Palmiro não é uma criança.
Está com cinquenta e oito anos idade registrada na memória.
A do documento indica que ele tem cinquenta e cinco anos.
Idade de Palmiro foi diminuída.
Para que Palmiro pudesse se alistar e servir à Pátria.
(A vontade de Palmiro era servir à Pátria.)
Mas a Pátria o maltratou.
Os anos se passaram e as saudades da mãe foram aumentando.
Palmiro sonhava em ter o seu próprio canto.
(Receber a mãe um dia? Quem sabe?)
Palmiro já possui casa própria na cidade.
(Mas nem notícias da mãe!)
Orgulha-se de ter construído a casa sozinho.
Fez três peças nos fundos e duas na parte de cima.
Aluga cada peça por cinquenta reais.
Difícil é receber os aluguéis.
Ainda hoje, nas viagens à fazenda, costumo levar Palmiro.
De avião. Para Palmiro pescar e cozinhar para mim.
Moqueca. Ou ensopado de piranha.
Palmiro e lontra só se alimentam de peixe.
(Palmiro ri e diz que come peixe apenas pela manhã, à tarde e à noite)
Tempo desses, Palmiro passou a frequentar uma igreja evangélica.
Com a disposição de largar o vício da bebida (e do cigarro).
Mas não há Cristo que faça Palmiro abrir mão dos porres de pinga.
Agora, Palmiro cismou em querer encontrar a mãe.
Já foi até em Rondônia à procura dela.
Mas qualquer procura, para Palmiro, é ainda mais complicada.
Porque Palmiro não aprendeu a ler, nem escrever.
Aí, Palmiro fica desesperado e bebe.
Palmiro não quer parar com a lida.
Anda tateando o chão. Ou o lixo. Virou catador de lata.
Vende o quilo a um real e setenta e cinco centavos.
(Obtém um quilo ao juntar sessenta e quatro latinhas.)
Palmiro quer encontrar a mãe.
O nome dela é Domingas Athanásio.
Uma índia chamada Domingas.
É tudo o que ele lembra.
E o pai?
Bem, o pai Palmiro não chegou mesmo a conhecer.
Diz que não faz questão.
Acho que Palmiro anda meio surdo!
Pois, ao dizer meu nome, ele, todo sorridente,
solta aquela sua voz de arara: Manoel de Barros.
(Palmiro nem imagina que está na ponta do lápis do meu universo poético).
''Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada;
mas quando não desejo contar nada, faço poesia.''


