Ao final, altos e baixos em Gramado
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sexta-feira, 16 de agosto de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Gramado - Era de se esperar um pouco mais de substância e brilho nas produções que vieram competir este ano em Gramado. Afinal, a edição é comemorativa e a produção brasileira oferecia perspectivas mais estimulantes. Os longas brasileiros e latinos convidados - é preciso voltar o processo seletivo -, bem como a seleção de curtas, não empolgaram. Apesar da variedade de estilos, linguagens e temáticas, crítica e público têm se dividido diante de dramas, comédias e animações vindas de várias regiões do país. Nada excepcional, diante de safras anteriores mais consistentes. Ainda assim, o formato do curta permanece como significativo segmento capaz de proporcionar o necessário campo de exercício artístico com vida própria, sem que a etapa do longa seja obrigatoriamente uma consequência. Tanto é verdade que, apesar de uma ou outra exceção, a regra é que os títulos mais interessantes são de realizadores que elegeram o curta a única expressão cinematográfica, como a gaúcha Ana Luiza Azevedo, da Casa de Cinema de Porto Alegre. Seu belo filme ''Dona Cristina Perdeu a Memória'' ilustra esta dedicação.
A premiação de hoje à noite sinaliza com certa insistência e facilidade em direção ao longa argentino ''O Filho da Noiva'', de Juan Jose Campanella, e para o documentário brasileiro ''Edifício Master'', de Eduardo Coutinho, os únicos que surgem plenamente consumados. Os últimos filmes vistos até ontem nas mostras competitivas não acrescentaram maior entusiasmo. O uruguaio ''Estrella del Sur'' (em co-produção com Espanha, Argentina e França), espécie de inventário dos anos de embate entre ditadura e Tupamaros, é inconvincente por conta de um roteiro confuso, com informações históricas e políticas de conhecimento restrito ao espectador uruguaio. O tema da volta do exílio e da reconstrução ameaçada pelos fantasmas do passado emperra em narrativa com pontos obscuros, apesar de elenco em grande forma.
O mexicano ''La Perdición de los Hombres'' parece demasiada vanguarda para motivar um júri que deve afinal optar pela sólida, engenhosa linearidade de ''El Hijo de la Novia''. Arturo Ripstein é um provocador na melhor tradição de Luis BuÀuel, de quem foi discípulo. Rodado em vídeo, preto e branco, ''La Perdicion de los Hombres'' é, segundo o diretor (que não veio a Gramado), sua primeira tentativa de fazer comédia. É bom acrescentar: uma comédia muito ácida, muito ''dark'' sobre um homem que é assassinado e levado para sua casa pelos assassinos, que trocam a roupa do defunto enquanto conversam para matar o tempo. Mais tarde, numa delegacia, duas mulheres - ''la perdición de los hombres'' - brigam pelo morto.
E entre os brasileiros de ficção na corrida aos Kikitos, ''Durval Discos'' parte de um curioso argumento mas se perde pelo caminho. Comédia que deliberadamente busca o drama, é a história de dois solitários, mãe (Etty Fraser) e filho (Ari França), donos de uma loja de discos exclusivamente de vinil, uma espécie de sebo decadente. A vida dos dois vai passar por mudanças radicais quando contratam uma empregada que em seguida desaparece, deixando na casa uma menina, na verdade uma garota sequestrada por uma quadrilha. Uma trama pontilhada pelo inusitado e pelo absurdo poderia até obter outro rendimento, se a diretora Anna Muylaert soubesse como preencher um tempo considerável entre o início razoável e o final surpreendente.
''Separações'' é comédia urbana de costumes tipicamente carioca dirigida por Domingos de Oliveira, com tudo o que isto traz embutido: análise superficial e agridoce do comportamento afetivo de certa classe média. Adaptação de peça homônima de Oliveira, o filme está dividido em quatro partes, consideradas pelo argumento as etapas normais de um rompimento: negação, negociação, revolta e aceitação. No caso, envolvendo Cabral (o próprio Domingos) e Glorinha (Priscilla Rozenbaum). O estilo é o mesmo de ''Amores'', exibido e premiado aqui em Gramado há alguns anos. O referencial geográfico é o de sempre do realizador, isto é, Ipanema, Leblon e imediações. E o resultado para o público também nada muda, isto é, mais uma ''comédia da vida privada'', bem feitinha mas imediatamente olvidável.
Gramado também marcou a pré-estréia nacional de ''Paixão de Jacobina'', longa de Fabio Barreto baseado em livro do escritor gaúcho Luis Antonio Assis Brasil. Após a exibição, com direito à presença do governador Olívio Dutra, foi indisfarçável o mal estar da crítica diante de outro escorregão do menos dotado dos irmãos Barreto, a descendência cinematográfica de Luis Carlos Barreto. O filme reedita (e agrava) os problemas de ''Beladona'', sem as atenuantes encontradas em ''O Quatrilho''. Empolado, solene, discursivo, confuso, ''Jacobina'' foi aqui objetivamente definido por um crítico como ''uma mistura de novela do SBT com a revista Planeta'' . O filme trata da saga dos Mucker, comunidade de descendentes de alemães radicada em Sapiranga, região do Vale do Rio dos Sinos (não muito distante de Gramado). O movimento, social e religioso, foi liderado pela fanática Jacobina (Letícia Spiller, over total), uma espécie de Antonio Conselheiro de saias. O episódio já foi muito melhor reconstituído no longa ''Os Mucker'', dirigido por Jorge Bodanski, por coincidência homenageado esta semana em Gramado por ter justamente recebido em 1979 o premio de direção por aquele filme.


