A poesia acondicionada em livro, em vídeo, em compact-disc. ‘‘Única Coisa’’, conjunto de poemas de Amarildo Anzolin, que será lançado hoje, às 20 horas, na Cinemateca de Curitiba, conseguiu realizar esse feito: a linguagem dos versos foi parar em caminhos múltiplos, incluindo música e videoclip. Assinam o projeto, além do poeta, o compositor, instrumentista e arranjador Lúcio Machado e o especialista em trabalhos visuais Marcelo Borges.
Amarildo Anzolin chega ao seu terceiro trabalho com este kit. Em 1995 bancou a edição de ‘‘Co-lapso’’ e em 98, ‘‘Igual’’. Para esta ‘‘Única Coisa’’ dedicou-se integralmente nos dois últimos anos, e pela ambição do projeto buscou recursos através da Lei Vanhoni de Incentivo à Cultura – a Clinihauer foi a patrocinadora.
Sem posar de escritor irreverente, amargo, lírico ou o quer que seja, Anzolin é essencialmente poeta. ‘‘Não tenho formação literária’’, avisa, tentando explicar que não segue escolas literárias. Aquilo que lê e escreve é movido pelo gosto natural da literatura. Chegar a este resultado representa para ele ‘‘a conquista de uma linguagem’’.
O exercício poético é uma constante, afirma. ‘‘Como qualquer outra profissão, se não tiver exercício, dificilmente se chegará a algum lugar’’. Há, porém, um detalhe – o prazer no desenrolar do processo é imenso. A poesia traduz-se em bem-estar.
O experimentalismo a que ele se dá direito é apenas uma das faces a serem exploradas pela literatura. A multiplicidade da arte estende-se a todos que se dedicarem a ela, sem que isso represente uma norma ou obrigatoriedade imposta aos poetas, defende o moço. ‘‘A poesia tem que permitir a liberdade. Não acho que todo mundo precise sair fazendo vídeo, CD, música. Se o texto for bom, que mal há caber dentro de um livro?’’
Por mais contemporânea que seja sua obra, Anzolin não volta-se contra o verso, a métrica, as escolas mais tradicionais. Para ele, nada deve ser abandonado e, inclusive, em seu primeiro livro, encaixou um soneto nas páginas. ‘‘Vale qualquer mídia desde que resolva da melhor forma possível a sua idéia’’, opina.
Com 29 anos, apreciador de literatura, cinema, música e com uma porção de letras musicadas, o autor lê de Camões a contemporâneos, e não sabe definir donde vem influências ou referências. Quanto a aura glamurosa que cerca a figura do poeta, acha tudo um grande engano. ‘‘Querem colocar glamour numa coisa que é artesanal, uma profissão como qualquer outra. Tudo vem de um processo sofrido, por mais que tenha lirismo’’. O olhar sincero de Amarildo Anzolin desmonta cenários inúteis.
O kit poético – CD, livro e vídeo – reunido num estojo, não estará sendo comercializado, pelo menos neste primeiro instante. O lançamento oficial na Cinemateca terá a projeção dos poemas em imagens/movimento, e de acordo com o que havia sido proposto, haverá prioridade na distribuição do material para órgãos de divulgação, museus e instituições culturais.
Para 2001 é provável a realização de um show com as músicas do disco, e aí sim, a venda do material. As canções gravadas trazem vozes de mais de 30 artistas paranaenses, casadas em muitas horas de estúdios. ‘‘Não há uma banda específica’’, conta o poeta. Ele faz questão de frisar o nome do cantor do CD: Lique. Dos textos impressos no livreto, que dividem as páginas com fotos, desenhos e imagens nervosas de fotogramas, o trecho final de um deles: ‘‘Só pra ver se já vivi tudo na vida/ moro no esquecimento de quem fica’’.
‘‘Única Coisa’’. Lançamento do kit poético de Amarildo Anzolin (textos), Lúcio Machado (música), Marcelo Borges (vídeo), com projeção de poemas em animação e vídeo-clip. Hoje, às 20 horas, na Cinemateca de Curitiba.