O sexo está à venda nas páginas de classificados de alguns jornais de Curitiba. Os rostos ali estampados dividem-se entre mulheres loiras e morenas, dando a falsa impressão de que mulatas e negras não existem, salvo raríssimas exceções. Mas quem acredita na veracidade dos olhos verdes e azuis, das fotos desenhadas com nanquim sugerindo Tiazinhas e Feiticeiras, rostos bonitos fotografados em estúdios competentes?
As mulheres que prometem sedução, prazer e discrição mostram-se arredias quando convidadas a falar sobre esse mundo, tão próximo das ilusões e expectativas masculinas. Num contraste grotesco com os gentis sorrisos estampados nos anúncios, elas tomam uma postura de resistência e desconfiança.
‘‘Quem me garante que aí do outro lado não está alguém jogando o verde para colher o maduro?’’, dispara uma garota que afirma ser universitária. Com certa insistência acaba contando que veio de Santa Catarina para cursar Jornalismo, e entrou na prostituição ‘‘por prazer e necessidade’’. Ela se diz estudante, mas detona com as demais que apregoam a mesma condição – é tudo mentira. ‘‘Eu tenho um objetivo de vida, elas não’’, afirma.
Outra, que se apresenta como ‘‘doutora’’, começa dizendo que é acadêmica de Medicina, e logo depois se define como ‘‘doutora no amor’’. No instante seguinte bate o telefone. ‘‘Nunca fui de falar com os outros sobre meus clientes, por isso sou respeitada’’, justifica uma segunda ‘‘doutora’’. Apesar da discrição, arrisca uma análise: ‘‘Os homens aparecem não só pelo prazer, mas para encontrar mulher bonita, perfumada, gostosa – que é o que eles não têm em casa’’.
‘‘Telma’’ – nome sugerido pela entrevistada – é da opinião que o homem tem o instinto de trair, mas a esperteza de que se julga capaz não vai muito longe. ‘‘São todos uns carentes’’ que se deixam influenciar pela propaganda, discursa. A maioria das garotas de programa não corresponde à descrição nos jornais, mas é claro que ‘‘Telma’’ (seu nome de guerra é outro) ajeita os holofotes para si: ‘‘Sou honesta; os clientes quando me vêem dizem que sou melhor pessoalmente que na foto’’.
‘‘Homem gosta de apanhar’’, decreta uma sado, de acordo com o figurino de durona. Nega-se, porém, a detalhar as fantasias deles. ‘‘O que a gente faz diz respeito a nós’’. Vinda de Cornélio Procópio - norte do Paraná - há dois anos, ‘‘Daianne’’ tenta o papel de uma jovem ainda com traços de ingenuidade, mas o vocabulário é denso e sombrio. Não importa se é homem ou mulher que esteja na cama – quem está ali quer naquele momento esquecer a dura realidade que existe além da porta.

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