Anúncios atiçam as fantasias
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de agosto de 2000
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
O sexo está à venda nas páginas de classificados de alguns jornais de Curitiba. Os rostos ali estampados dividem-se entre mulheres loiras e morenas, dando a falsa impressão de que mulatas e negras não existem, salvo raríssimas exceções. Mas quem acredita na veracidade dos olhos verdes e azuis, das fotos desenhadas com nanquim sugerindo Tiazinhas e Feiticeiras, rostos bonitos fotografados em estúdios competentes?
As mulheres que prometem sedução, prazer e discrição mostram-se arredias quando convidadas a falar sobre esse mundo, tão próximo das ilusões e expectativas masculinas. Num contraste grotesco com os gentis sorrisos estampados nos anúncios, elas tomam uma postura de resistência e desconfiança.
Quem me garante que aí do outro lado não está alguém jogando o verde para colher o maduro?, dispara uma garota que afirma ser universitária. Com certa insistência acaba contando que veio de Santa Catarina para cursar Jornalismo, e entrou na prostituição por prazer e necessidade. Ela se diz estudante, mas detona com as demais que apregoam a mesma condição é tudo mentira. Eu tenho um objetivo de vida, elas não, afirma.
Outra, que se apresenta como doutora, começa dizendo que é acadêmica de Medicina, e logo depois se define como doutora no amor. No instante seguinte bate o telefone. Nunca fui de falar com os outros sobre meus clientes, por isso sou respeitada, justifica uma segunda doutora. Apesar da discrição, arrisca uma análise: Os homens aparecem não só pelo prazer, mas para encontrar mulher bonita, perfumada, gostosa que é o que eles não têm em casa.
Telma nome sugerido pela entrevistada é da opinião que o homem tem o instinto de trair, mas a esperteza de que se julga capaz não vai muito longe. São todos uns carentes que se deixam influenciar pela propaganda, discursa. A maioria das garotas de programa não corresponde à descrição nos jornais, mas é claro que Telma (seu nome de guerra é outro) ajeita os holofotes para si: Sou honesta; os clientes quando me vêem dizem que sou melhor pessoalmente que na foto.
Homem gosta de apanhar, decreta uma sado, de acordo com o figurino de durona. Nega-se, porém, a detalhar as fantasias deles. O que a gente faz diz respeito a nós. Vinda de Cornélio Procópio - norte do Paraná - há dois anos, Daianne tenta o papel de uma jovem ainda com traços de ingenuidade, mas o vocabulário é denso e sombrio. Não importa se é homem ou mulher que esteja na cama quem está ali quer naquele momento esquecer a dura realidade que existe além da porta.


