Anunciando o futuro da MPB
Anunciando o futuro da MPB
Vavá Ribeiro/DivulgaçãoOtto: fundindo samba com eletrônicaTrabalho de estréia de Otto
foi eleito o melhor disco de
MPB de 98 pela Associação
Paulista de Críticos de Arte
Nelson Sato
Omelhor disco de MPB de 98 é o melhor disco eletrônico da temporada. A aparente contradição foi resolvida pelo pernambucano Otto em seu disco de estréia Samba Pra Burro, lançado pela gravadora Trama e eleito pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como o melhor álbum de música popular brasileira de 98.
A escolha empolga, afinal o disco vai na direção contrária de qualquer atitude respeitosa em relação aos clichês do gênero. Otto expande os princípios do movimento mangue beat, fundado no começo da década por Chico Science e Fred Zero Quatro e cujo manifesto postulava o encontro da tradição com a modernidade usando metáforas como lama, caranguejos e antena parabólica.
Seu trabalho projeta o samba, espinha dorsal da maioria das canções, na nova ordem musical das batidas digitais. Compus todas as músicas do disco no pandeiro - diz Otto, por telefone, de sua gravadora. O meu modo de compor vem de uma tradição popular antiga e até escravagista. As melodias, a harmonia, a divisão rítmica das coisas que eu canto, tudo isso tem influência de Jackson do Pandeiro, Nelson Cavaquinho, Jovelina Pérola Negra, Martinho da Vila, compositores que considero bem atuais.
Mas ao invés de conservar a herança musical em formol, Otto preferiu plugá-la ao computador em parceria com o produtor Apollo 9. O resultado, que a princípio sugere colisão, impressiona pela unidade. No novo reino techno, acho que a música brasileira tem que se dar para a eletrônica e a eletrônica tem que se dar para a música brasileira - salienta ele.
No disco, a abordagem enfatiza o drumnbass mas traz embutidos retalhos de psicodelia, bossa nova, big beat, frevo, trance, maracatu, ciranda e repente. Drumnbass tornou-se, nos dois últimos anos, o ritmo mais influente no universo pop convertendo nomes como David Bowie, Everything But the Girl e até artistas locais como Lulu Santos e Lobão. O estilo nasceu com o nome jungle, animando as ruas como trilha oficial dos negros da periferia de Londres. Não por acaso, foi chamado pelos americanos de a versão inglesa do hip hop.
Em Samba Pra Burro, a batida frenética e sincopada se insinua aqui e ali explicitando-se em Renaut/Pengeot com letra em francês e voz distorcida por efeitos. É uma das faixas mais dançantes de um CD apropriado para pistas. Aliás, boatos dão conta de que Samba Pra Burro teria embalado uma festa promovida há duas semanas pelos rapazes da banda inglesa Oasis no clube Titanic, na capital britânica.
Fala-se também que o disco já emplaca no eixo Los Angeles-Nova York como trilha ambiente de lojas de estilistas chiques como Helmut Lang, Gianne Versace e Prada. De tudo o que se fala, deve ter alguma coisa de verdade aí - nota Otto, que morou em Paris na virada da década antes de desembarcar no Brasil para ajudar na formulação do mangue beat ao lado de Chico Science e Fred Zero Quatro.
Ele frisa que desde sua mudança para São Paulo, há três anos, virou um frequentador insaciável de casas noturnas e raves. Sou daqueles que ficam dançando até de manhã - revela. De rato de pista a criador de músicas para embalar clubbers, foi um pulo. O incentivo para registrar em disco a fusão de ritmos regionais com batidas, samples e efeitos programados partiu especialmente de seu amigo, DJ e jornalista especializado em música eletrônica, Camilo Rocha, com quem incursionava pela noite paulistana.
Mas foi o encontro com Apollo 9 que materializou as idéias do compositor. Elogiando o parceiro, Otto lembra que embora a tecnologia esteja chegando agora à música brasileira, já há grandes manipuladores de som no País. Ex-tecladista do Planet Hemp, Apollo 9 assinou recentemente a co-produção de Carnaval na Obra, novo álbum do mundo livre s/a, do qual Otto participou como percussionista dos dois primeiros trabalhos.
No disco, sua presença denuncia uma injustiça por não ter seu nome estampado nos créditos da capa do CD ao lado de Otto. Em duas faixas, ele teve a colaboração no estúdio do DJ Soul Slinger, brasileiro radicado e dono do selo de drumnbass Liquid Sky. Gestado ao longo de dois anos, o trabalho foi feito na base de muita informalidade.
Toquei percussão em quase todas as faixas, mas eu nem saberia dizer em quais. Tudo foi bem casual, os amigos íntimos iam chegando e participando - conta. Entre os convidados especiais despontam a cantora Bebel Gilberto (filha de João Gilberto), o percussionista Marcos Suzano, o amigo Fred Zero Quatro, o compositor Skowa e músicos do grupo Nação Zumbi.
Samba Pra Burro, mais comentado do que ouvido fora do eixo Rio-SP, vai chegando aos poucos às lojas de todo País. Repleto de contemporaneidade, anuncia em 11 faixas o futuro possível da MPB.





