Antunes Filho vai a Tróia
Beth Néspoli
Agência Estado
Finalmente estréia no Brasil Fragmentos Troianos, adaptação de Antunes Filho para As Troianas, de Eurípides, a primeira tragédia grega na carreira do diretor do antológico Macunaíma. O espetáculo já apresentado na Turquia e no Japão reinaugura hoje à noite o Teatro Sesc Anchieta, em São Paulo, fechado desde o início do ano passado para reformas. Se antes era um dos melhores teatros da cidade, agora é o melhor, diz Antunes.
Três anos depois de Drácula e Outros Vampiros, Antunes garante ter despojado o palco de efeitos visuais ou pirotecnias. Todo o seu empenho foi dirigido para fazer com que os atores atingissem os cumes da tragédia com naturalidade - não confundir com naturalismo. Todas as vezes que tentei montar uma tragédia desisti, porque os atores começavam a gritar e a se contorcer e destruíam a poesia do texto. Desta vez, Antunes acredita ter conseguido levar ao palco a beleza e a contundência da tragédia grega. O espetáculo é simples, franciscano; essa peça não precisa de efeitos.
Escrita em 415 às vesperas das guerras contra a Sicília e a Siracusa por um Eurípides indignado com o clima de intolerância e belicosidade que reinava na Grécia, o texto fala de uma guerra sem heróis, na qual todos acabam vencidos. Vivo nesta época de guerras étnicas e o espetáculo remete a todas as guerras deste século, desde a 2ª Guerra com seus campos de concentração nos quais morreram 6 milhões de judeus até a Guerra da Bósnia, explica Antunes.
O diretor assume ter utilizado algumas idéias da adaptação do escritor Jean-Paul Sartre para esta mesma peça. Entre elas o prólogo e o epílogo. O primeiro é um diálogo entre Poseidon, o deus dos mares, e Pala Atenas, a deusa da razão, o qual ajuda o público a entender as origens da guerra.
O epílogo, uma exortação irada do autor, Antunes ainda tem dúvida sobre a forma como vai utilizá-lo, mas não gostaria de abrir mão desse acréscimo ao texto original da tragédia. O que é bom a gente usa, por que não?
- finaliza.





