Antunes Filho leva sua insatisfação para o palco e acena com novo panorama
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quarta-feira, 23 de junho de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 24 (AE) - A insatisfação de Antunes Filho com o panorama teatral vem de algum tempo. Ele relembra ter acompanhado um momento de esplendor no teatro mundial com o surgimento de artistas como Bob Wilson e Pina Bausch. "Hoje eles estão repetindo fórmulas, enjoei de ver espetáculos visualmente perfeitos, todo mundo está enjoado, o tempo de criação de imagens já passou", afirmou Antunes. "Não sou dono da verdade, mas sei que com "Fragmentos Troianos" coloco em xeque um porção de coisas; a fala no teatro será repensada".
Qualquer renovação na arte, ainda que sutil, jamais surge de um dia para o outro, é sempre fruto de um longo processo. No caso de Antunes, esse processo teve início há cerca de seis anos. "Quando me dei conta de que não dava para continuar no mesmo caminho eu emperrei", lembra. "Aí fiz tábula rasa e parti para o fonemol, neguei tudo e fui engatinhar num outro caminho, fui começar de novo no tempo pré-mítico com Nova Velha História para redescobrir a linguagem, repensar toda a sintaxe teatral".
Em 1995, quando estreou sua releitura de "Chapeuzinho Vermelho" falada em fonemol, uma linguagem inventada, o diretor ainda não tinha em mente a criação de "Prêt-à-Porter". "Foi um processo muito intuitivo". Mas de um coisa Antunes sempre teve certeza: não seria possível montar uma tragédia grega sem criar o que chama de um novo paradigma para o ator. Segundo ele, 95% dos atores constroem personagens a partir da ansiedade e não da sensibilidade. "Estou cansado de ver no teatro o drama do ator querendo fazer o personagem e não o drama do personagem", enfatiza. "O que os críticos chamam de ímpeto e vigor artístico eu chamo de desespero e angústia do ator, veja bem, um drama do ator e não do personagem".
Entusiasmado, Antunes que já havia várias vezes tentado encenar uma tragédia grega ao longo de sua carreira, mas desistira diante dos "esgares" dos atores, afirma ter obtido êxito desta vez. "Na Turquia, eu fiquei bem lá atrás na platéia e não se perdia uma única palavra", conta. "Pela primeira vez pude encenar uma tragédia, via "Prêt-à-Porter" e as palavras não soavam como pedradas, não eram gritadas, chegavam com musicalidade, era quase uma sinfonia, sem perda da unidade ou da emoção". Para o diretor, uma das consequências dessa renovação no palco será, a longo prazo, o surgimento de novos dramaturgos.
"Vai demorar um pouco, mas ao ouvir e entender um texto
as pessoas vão se dar conta de sua beleza, porque é bonito ouvir Eurípides sem gritaria, sem declamação idiota, sem aquela cantadinha no final", afirma. "Só assim alguém pode ter vontade de escrever para o palco". Antunes chega a apontar a possibilidade de fazer seus próximos espetáculos em salas reduzidas, para pouquíssimos espectadores e diz ter adquirido "ojeriza a grandes salas teatrais". A transformação do espaço teatral seria o próximo passo? "Não exatamente do espaço, mas da relação com o público".
Ele lembra que a tecnologia - televisão, cinema, Internet - isolou as pessoas. "Ninguém mais coloca cadeira na calçada para conversar e o teatro do próximo milênio tem de religar a humanidade - religare, religião -, tem de ser um meio de aproximar as pessoas, reatar a conversa, é por aí que quero ir", antecipa. "O teatro tem de deixar os efeitos para os filmes de Robocop". "Não é só um questão de técnica, mas de ética, de dominar os meios técnicos a serviço da sensibilidade, de resgatar o sentido de fazer teatro", comenta.
O diretor critica o conformismo das pessoas que estão fazendo teatro simplesmente para sobreviver ou para satisfazer o seu narcisismo. "Teatro tem de ser uma forma de conhecimento, tem de ser primeiro profundo, depois entretenimento, tem de levar o público a algum outro lugar". Como um espetáculo aparentemente tão simples como "Prêt-à-Porter" pode estar inaugurando um novo paradigma para o ator? "Prêt-a-Porter faz uma passagem do ator funcionário, do ator estereotipado para o ator artista", observa. É preciso lembrar que todas as histórias apresentadas no espetáculo - já são 15, embora no momento só 3 estejam em cartaz no Sesc - foram criadas e dirigidas pelos próprios atores. "Com isso, discuto o ator, o diretor, a dramaturgia e a tecnologia no palco". Mas será que esse novo paradigma de ator será percebido pelo público em "Fragmentos Troianos"? Será mesmo um impacto para o espectador? "É difícil saber porque essas coisas às vezes demoram um pouco", diz. Mas lembra que tanto na Turquia quanto no Japão, os dois países pelos quais o espetáculo passou, as pessoas vinham perguntar há quanto tempo os atores estavam exercitando a voz. "Aqui a ficha costuma cair depois, porque as pessoas vêm ao meu espetáculo e não relaxam, não conseguem olhar o que está no palco, olham para onde o dedo de Antunes está apontando", comenta. "Dá vontade de dizer: parem de olhar para o meu dedo, olhem para o espetáculo". Confiança - Apesar dos elogios, Antunes não considera "Fragmentos Troianos" um espetáculo acabado e pretende continuar ensaiando até a estréia brasileira, que possivelmente ocorrerá em novembro, se as obras do Teatro Sesc Anchieta ficarem prontas. "Agora os atores já adquiriram confiança no seu taco e vamos aperfeiçoar sonoridades, tudo vai ficar pelo menos 30% melhor". Paralelamente, atores e atrizes continuam criando cenas de "Prêt-à-Porter". No momento, três delas podem ser vistas no Sesc Consolação aos sábados. "Br 116", com as atrizes Daniela Nefussi e Gabriela Flores, tem como enredo o reencontro de duas primas, cuja relação fora forte na infância, mas que há muito não se viam.
"Um Minuto de Silêncio", também com Gabriela Flores, desta vez contracenando com Silvia Lorenço mostra o conflito entre uma mulher e uma menina, madrasta e enteada, no velório do pai da menina. "Sopa de Feijão", com Daniela Nefussi e Silvia Lourenço, enfoca a relação de duas amigas, uma delas prestes a matar a única pessoa com a qual conseguiu manter uma relação verdadeira e profunda de afeto. Mas engana-se quem for buscar em "Prêt-à-Porter" um relação direta com "Fragmentos Troianos". Nessas histórias curtas o texto é coloquial, enquanto a adaptação de Antunes para a tragédia de Eurípides não simplifica a linguagem original. "Um espetáculo não existiria sem o outro, mas os atores não falam da mesma forma; em "Prêt-à-Porter" está o básico, uma espécie de viga mestra para a técnica exigida na tragédia".


