Antunes Filho estréia "Fragmentos Troianos" na Turquia
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segunda-feira, 31 de maio de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 01 (AE) - A primeira encenação de "As Troianas", de Eurípides, foi em 415 a.C., na Grécia. Passados 2.414 anos, o texto ganha amanhã leitura contemporânea que será mostrada em Istambul, Turquia, a meia hora de distância do lugar onde foi encenada originariamente. O grupo que põe o texto em cena, no entanto, vem de muito mais longe, deste remoto país chamado Brasil: é o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) de Antunes Filho.
Assim, "The Trojan Women" (As Troianas), que já nos acostumamos a conhecer - antes mesmo da estréia nacional - como "Fragmentos Troianos", volta às origens como se isso fosse um ato simbólico premeditado. Mas Antunes Filho jura que não é.
"O Teatro Anchieta está em reformas e a estréia era para ser aqui, mas acabou adiada e por força disso estamos estreando na Turquia", explica o diretor. "Certamente eu preferiria estrear aqui do que no exterior, porque é mais fácil chegar com uma peça pronta do que montá-la fora de casa." Segundo diz, um espetáculo pronto é só trasladar.
Antunes prefere "Fragmentos Troianos" (que será o título definitivo no Brasil ) porque sua versão enxerta várias versões da peça, inclusive a de Jean-Paul Sartre. Ele e os 14 atores do elenco estão em Istambul desde o final da semana. Cerca de 25 mil pessoas viram os espetáculos da mostra, no ano passado.
De lá, vão para Shizuoka, no Japão, onde a peça é integrante da 2ª mostra do Teatro Olímpico, instituição da qual o Antunes Filho é um dos coordenadores - ao lado de Robert Wilson, Heiner Mueller, Tadashi Suzuki, Tony Harrison, Georges Lavaudant, Nuria Espert, Theodoros Terzopoulos, Yuri Lyubimov e Jurgen Flimm. Em Shizuoka (nos dias 11 e 12).
O diretor não gosta da leitura mais banal que fazem da sua montagem, a de que se trata de uma metáfora da guerra - e muito menos que o estouro do conflito nos Bálcãs tenha contribuído para dar-lhe uma espantosa atualidade.
"O que se vê em cena não é metáfora, é documento", diz. "Metáfora é o Eurípides falando, mas você acha que eu posso brincar de forma com a forma, estilizar o desespero humano?", vaticina.
É por isso que Antunes não centra sua versão de "As Troianas" nas causas da Guerra de Tróia, mas em seus efeitos. "Toda guerra é injusta, em princípio", afirma o diretor. "Eu acredito que qualquer mau acordo vale mais do que qualquer guerra justa", diz.
Epopéia conhecida - A epopéia das mulheres troianas é mais que conhecida. Hécuba (Gabriela Flores), orgulhosa rainha de Tróia, tem o marido e os filhos mortos. Sobrevivem sua filha Cassandra (Patrícia Dinely), louca profetisa, a nora Andrômaca (Sabrina Greve), e o filho desta com Heitor. O ponto de partida da tragédia é o rapto de Helena por Páris, filho de Hécuba, numa visita a Esparta, provocando a invasão de Tróia pelos gregos. A analogia com as guerras étnicas e nacionalistas da Europa tem sido inevitável, assim como o confinamento de prisioneiros.
Antunes escolheu a dedo sua estréia com uma tragédia - apesar de sua longa folha corrida em teatro, essa é a primeira. Eurípides (480-406 a.C) é considerado o mais crítico e subversivo dentre os autores do teatro grego, chamado por Nietszche de "o Ibsen da Antiguidade" e por Aristóteles de "o poeta mais trágico". Ele deixou onze peças além de "As Troianas": "Alceste", "Medéia", "Hipólito", "Ifigênia em Tauride", "Electra", "Helena", "Orestes", "Ifigênia em Aulide", "As Bacantes" e "As Fenícias".
Segundo Otto Maria Carpeaux, em sua "História da Literatura Ocidental", "em Ésquilo falam as montanhas e em Eurípedes, as almas". Sua obra reflete as mudanças ocorridas em Atenas no final do século 5º a.C., quando esta era o centro político e cultural da Grécia e passava por longos anos de guerra contra Esparta. "Medéia" e "Hipólito" situam-se nos primeiros anos dessa guerra e "As Troianas" em seu momento mais crítico, após massacres de populações inteiras.
"Fragmentos Troianos", no entanto, está muito mais atenta ao processo teatral, à pesquisa. Nasceu do work in progress "Prêt-à-Porter", que Antunes fez encenar e que está lotando o Sesc Consolação como se representasse um mergulho didático e desanuviador dos procedimentos teatrais. "Prêt-à-Porter é a chave de todo o trabalho", diz Antunes. "Não por causa das reações do público, mas por causa do processo do ator", considera.
Antunes diz que sua visão da saga das mulheres de Tróia é o retorno a uma simplicidade que ele julga se estar perdendo no teatro, a "simplicidade da alma humana", a recusa às estilizações. "O público quer ver o sentimento novamente e o espetáculo é doído, mas nunca é chato", avalia, acrescentando que a dor de "Fragmentos Troianos" não é exclusiva do espectador e que ele a sentiu muito intimamente. "As noites foram muito difíceis, principalmente quando se acirraram os bombardeios na Iugoslávia", lembra.
Mas "Fragmentos Troianos" (ou "The Trojan Women", segundo a versão turca) não se atém somente aos conflitos clássicos ou à guerra midiática. Ele acrescentou massacres e chacinas que se tornaram parte do cotidiano de regiões subdesenvolvidas, como Serra Leoa e Eldorado dos Carajás, por exemplo. Eurípides, o último trágico grego, serve, mais uma vez, ao propósito de alertar para os perigos da intolerância, da ignorância e do belicismo.
O ator é, mais do que nunca, o centro das preocupações do diretor. "A autoria, a dramaturgia brasileira, só pode surgir no momento em que tivermos o ator lendo bem o texto", profetiza Antunes. "É preciso chegar ao poeta que era Eurípides e evitar a gritaria burra", afirma.
Nova técnica - Essa é sua meta, que começou a desenvolver no laboratório "Prêt-à-Porter" e agora desemboca em "Fragmentos Troianos". "O ator não deve projetar a voz e o que estou propondo é uma nova técnica", diz. "Estamos iniciando com o espetáculo o fim do processo de projeção e o início do processo de ressonância", explica.
Antunes questiona também o teatro de efeitos, cheio de truques visuais. Segundo ele, por meio da fúria e do ímpeto, o teatro moderno tentou quebrar uma tradição de interpretação baseada no "português de psiu-psiu" no fim das frases, aquela interpretação arfante e afetada. Agora, ele busca uma terceira via.
"Cada ator tem a sua voz, mas raramente você vê isso numa peça brasileira", disse Antunes recentemente. "Aqui, o autor fala por todo mundo; os personagens não adquirem independência, são todos estereotipados, escadas de circo para o palhaço aparecer, não têm peso e densidade", afirmou o diretor. Na tragédia grega, acrescentou, o que havia de maravilhoso é que todos tinham razão. "Havia uma falha trágica; agora não existe uma falha trágica, mas caminhões de coisas erradas", afirma.
Coro grego - Além dos 14 atores (o que inclui um coro de sete pessoas), "Fragmentos Troianos" tem na concepção de cenário e figurinos Jacqueline Castro Ozelo, Joana Pedrassolli Salles e Cibele Alvares Gardin. O iluminador é Davi de Brito, Juvenal Irene dos Santos é responsável pelo telão de fundo e Magda Pucci e Raul Teixeira fizeram a trilha sonora.
O espetáculo subirá ao palco do 11º International Istanbul Theatre Festival às 21 horas de Istambul, no teatro Muhsin Ertuorul. Como eles estão seis horas à nossa frente no fuso horário, é provável que Antunes Filho já esteja dizendo tesekkur ederim (obrigado) para o público. Ou não. De qualquer forma, os brasileiros esperam ansiosamente para saber o que Antunes Filho fez nos territórios das tragédias gregas.


