Antunes elogia Carlinhos Brown
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de fevereiro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo. 08 (AE) - Arnaldo Antunes, escalado para o festival Abril ProRock, no Recife - uma jornada de rock alternativo -, diz que, "apesar de parecer um contra-senso", é influenciado em grande escala por João Gilberto. E conta que acha Carlinhos Brown "um grande poeta". AE - Num determinado momento, você se define como um cantor popular. Mas existe toda uma categoria de cantores populares, à qual você efetivamente não pertence. Eles fazem uma música intuitiva, sem tanta preocupação com a elaboração. Carlinhos Brown, por exemplo, define-se como um primitivo, um naif. Arnaldo Antunes - Tem muita gente na crítica que desconsidera a poesia do Carlinhos Brown. Mas eu acho aquilo sofisticadíssimo, uma das coisas mais legais que estão ocorrendo em termos de música popular brasileira. Adoro compor com ele, porque ele dá muitas idéias de letras também, a gente se entende muito nessa coisa de linguagem. Ele é muito aberto a subversões linguísticas, invenção de palavras, mistura de inglês com português, essa coisa toda do broken english que ele faz, eu acho isso hipersofisticado. Eu discordo dessa avaliação em geral da mídia impressa. Eu acho que ele é um grande poeta. AE - De qualquer modo, você pertence a uma outra categoria de compositores, já que você tem muito respeito pela semiótica, pelo processo... Antunes - Eu acho que não existe lei para você fazer música. Não existe só um modo de fazer as coisas. Eu, por exemplo, faço muito por edição, por montagem, escrevo muitos rascunhos. Trabalho às vezes mais por subtração do que por adição. Primeiro escrevo muitas coisas e depois vou tirando, remontando. Agora, tem gente que não, que vem com aquilo pronto. Faz essa edição inicialmente na cabeça e quando aquilo sai, já sai pronto. Sai já com a música, já cantado. Caetano, por exemplo, diz que faz muito assim, direto. Eu faço mais retalhando e reeditando. Não é o processo ou o modo de fazer que vai determinar o valor daquilo. AE - Muita gente acha que sua saída dos Titãs contribuiu para que eles se distanciassem mais de uma conduta de invenção, fossem mais para o pop. Dizem que não teriam feito coisas como "Flores" ou a regravação de "É Preciso Saber Viver"" se você estivesse no grupo... Antunes - Há um excesso de suposição nisso. O que seria, o que poderia ser. É preciso saber o que é real e não o que seria se o Arnaldo estivesse ou não. E esse comentário que você fez tem um erro: "Flores" é uma música da época em que eu ainda estava lá. Foi regravada no "Acústico", em outro formato, mas eu acho que ela é do Ó Blesq Blom. Acho que há muita imagem, mas é muito redutor esse tipo de generalização. Sim, eles foram mais para o lado do pop. Mas existem semelhanças e diferenças entre o que fazem agora e o que faziam quando eu estava lá. Eles mudaram sem mim, assim como, no meu trabalho solo, você encontra traços do que eu era quando estava nos Titãs. Assim como há diferenças muito grandes, coisas que eu não podia fazer naquela época por uma questão consensual. Mas eu gosto do trabalho deles, estão se renovando a cada ano. Esse comentário não leva em consideração algo que é óbvio: eles estão fazendo em formato acústico as canções da época em que eu estava no grupo, são parcerias comigo. Existe esse vínculo de reler aquelas canções em outro formato. Eu acho muito interessante a forma como resolveram acusticamente as canções. E o fato de estarem fazendo sucesso é uma prova de que aquelas canções sobrevivem, o que prova um valor da canção em si. Tenho o maior orgulho de ter feito parte dos Titãs. Não é porque eu saí que vai haver essa tendência de querer me colocar contra aquilo. Claro que seu estivesse lá seria diferente, porque teria também a minha colaboração, só isso. AE - Você estabelece limites éticos para o seu trabalho? Quero dizer: para fazer sucesso, você faz qualquer coisa? Você vai num programa do tipo Ana Maria Braga? Antunes - Tem programas que eu faço, tem programas que não. Tanto não me interessa fazer como não me interessa comentar, não vem ao caso. Publicidade, por exemplo, eu nunca fiz. Não é uma coisa que eu me veja fazendo. Músicas minhas já foram usadas, mas compor especialmente para comerciais não é uma coisa que me deixaria à vontade. AE - Você aparece no vídeo da Marisa Monte criando uma canção na hora com ela e com Carlinhos Brown. A improvisação é um dado do seu temperamento ou você é sempre racional, lógico, na hora de compor? Antunes - Improvisar é uma coisa meio espontânea, que se revela em maior medida na hora do show. Eu sempre acabo me comportando de maneira diferente em cada show. Cada um é sempre um desafio nesse sentido. Como vou falar, como vou me mexer, como vou me movimentar em cena. E também na forma de compor. Tem músicas que demoram meses, tem músicas que saem em 10 minutos. Às vezes, tento colocar uma letra em cima de uma melodia que alguém me deu e aí é um exercício mais trabalhoso: tenho de me preocupar com a prosódia correta, onde vão cair as tônicas. Aquele trabalho no vídeo da Marisa foi muito interessante, porque é uma coisa que desmistifica um pouco a aura do criador. Todo mundo pensa que esse trabalho é uma alquimia muito secreta e não é nada disso. Fazer música pode ser algo de muita facilidade também. Pode ser um processo muito difícil para chegar a uma coisa aparentemente simples ou uma canção aparentemente complexa pode ter vindo de maneira simples. AE- Uma coisa que se pode observar é que as crianças parecem gostar muito das suas músicas, como "O Silêncio" e outras. Você tem consciência disso? Antunes - Tenho, porque muitas crianças vêm falar comigo do que gostam. Fiz uma música para o "Castelo Rá-Tim-Bum", sobre lavar as mãos, e algumas canções também para o projeto do Paulo Tatit, um disco para crianças. Tenho muito prazer em fazer música para crianças, eu gosto disso. Acho que mesmo as coisas que faço sem me dirigir especificamente ao público infantil acabam sendo bem-vistas pelas crianças. Talvez haja alguma coisa na minha poética que atraia, sei lá. E tem algumas coisas que são conscientes mesmo, como aquele meu livro "As Coisas", que parte quase da incorporação do olhar infantil sobre o mundo, ou seja, dessa maneira inusitada como criança olha as coisas, de ver alguma coisa óbvia que chega a ser estranha, porque você nunca repara - de tão óbvia que é. AE - Você passou a ser mais apreciado pelo grande público recentemente. Mais gente vem pedir letras para você. Mas existe uma geração anterior à sua, de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, que não teve a mesma sorte, que ainda encontra grande resistência para encontrar espaço. A que você atribui isso? Antunes - Não acho que seja uma coisa específica de São Paulo. No Brasil inteiro, há compositores que têm mais dificuldade no trato com a mídia e outros - por motivos que nem sei dizer muito bem - acabam tendo uma penetração maior de público. Acho que isso depende um pouco do temperamento do compositor, do espaço que ele acaba conquistando, de boa ou má vontade de alguns setores da mídia, de casar o momento dele com o momento do público. Algumas coisas são incompreensíveis mesmo. Por exemplo: Itamar Assumpção, não sei por que ele não faz sucesso, pois aquilo é muito bom. Eu adoraria ver esses dois compositores que você citou fazendo sucesso. É um pouco inexplicável, uma coisa que depende de uma série de fatores. Eu estou muito na luta ainda, gostaria de estar tocando no rádio mais do que agora. AE - Caetano Veloso sempre credita a João Gilberto a responsabilidade pela evolução de sua música. É algo que é muito reconhecível na música dele. Qual é a coisa que você diria que influenciou imensamente o seu trabalho? Antunes - Olha, João Gilberto é uma coisa importantíssima na minha formação. Parece um contra-senso dizer isso, já que ele canta suavemente e eu canto berrando, mas eu acho que a grande lição de João Gilberto é a coisa da intenção, de estar carregando de sentido as palavras, de dar a inflexão adequada, de estar cantando num tom que esclarece, de estar dizendo ao máximo aquilo que a canção diz. É isso que eu sinto de uma forma intensa no canto do João Gilberto. Agora, é claro que eu faço uma coisa de outra linha, ligada ao rock, a um estilo de canto que incorpora a sujeira. E o canto do João é aquela limpidez. Mas as pessoas vêem o canto do João como algo imutável e eu acho que a cada disco ele vem incorporando novidade. É interessante como ele foi incorporando o uso dos graves que foram aparecendo na voz dele. E o aprimoramento dos atrasos e avanços da voz em relação à harmonia. Aquilo foi mudando muito e o último disco dele em estúdio, João, é uma coisa extraordinária. Eu poderia ficar horas falando dele. Aquilo é importante para mim, assim como o Caetano também é importante para mim.


