Antropologia do samba
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de outubro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A antropologia brasileira nasceu com as mãos nos quadris. Basta ser brasileiro para saber que é nas cadeiras que a ciência começa a receber os seus neófitos. O que isso tem haver com música? Muita coisa. ''Todo mundo aqui é brasileiro. O samba pegou a gente pelas cadeiras.'' Quem dá sentido à premissa é o músico Guilherme Rossini, o Caroço, um discípulo do reggae que, com outros roqueiros londrinenses, está sendo batizado na genuína antropologia musical brasileira.
Ao todo 17 músicos formam o Bloco Bafo Quente. Criado em 2006 por Duda de Souza, o grupo somente agora começa a ganhar visibilidade. No próximo dia 12, o pessoal realiza o primeiro show no ''Projeto Quizomba - o Samba e outros Batuques''. Mergulhar nas águas dessa antropologia e renascer para a vida que existe não só além do samba, mas no baião, maracatu, funk e samba-charme. Essa é a nova profissão de fé dos integrantes. Bem ao estilo do Monobloco, um dos mais conhecidos blocos de Carnaval, do Rio de Janeiro, que inspirou os músicos londrinenses a conhecer o poder dos ritmos que balançam as cadeiras.
Aos que podem pensar que o grupo é uma versão ''escola de samba de boutique'', a pesquisa e a experiência musical do elenco desmentem o acheologismo. ''Sempre tive vontade de criar um bloco de percussão. Na região não tinha nenhum. A idéia inicial era formar um grupo de estudo. Começamos com poucos músicos e, aos poucos, outros foram chegando. Tocamos com instrumentos de escola de samba, uma linguagem que muitos de nós não dominavam'', comenta Duda.
Para entender mais sobre a ciência por trás das batidas do samba, somente entrando no coração de uma bateria, que manda o sangue para as cadeiras. Foi o que Duda fez ao estagiar no Monobloco, trazendo muito mais do que a sonoridade do surdo, repique e tamborim, mas um dos dois métodos que o Bafo Quente utiliza numa oficina permanente para os que querem fazer parte dessa corrente sanguínea. A outra metodologia aplicada é ''O Passo'', de Lucas Ciavatta.
Duda comenta que, nos últimos anos, o Carnaval londrinense cresceu, o que não aconteceu musicalmente em relação ao samba. ''Passei um mês e meio no Rio, estudando com o Monobloco. Londrina não tem raiz, tradição musical no samba. A idéia é mudar isso e a oficina é parte desse projeto'', afirma o músico.
Na quadra do repertório do Bafo Quente se apresentam não só os sambas-enredos, mas Pedro Luís e a Parede, Beth Carvalho, Jorge Aragão, entre outros. ''A gente tem um lance de fazer arranjos para as composições, que se tornam mais estilizadas, com a influência de cada um, que vai do rock e reggae ao sertanejo, sendo que grande parte dos integrantes do bloco tem formação superior em Música'', conta Caroço.
Curiosamente, o nome do bloco tem tudo haver com o fenômeno antropológico que faz o samba ser o que é: uma ciência brasileira. ''Fui assistir a uma apresentação do músico Tião Carvalho, no Quizomba. Estava acompanhando de fora e debaixo de uma chuvinha. Quando consegui entrar veio lá de dentro um bafo quente. Pensei: 'Taí, o nome do bloco''', revela Duda.
Com apenas algumas participações em shows de outros artistas, o Bafo Quente já dividiu o palco do Teatro Ouro Verde com a Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (Osuel), no Festival de Música de Londrina (FML), numa demostração de que o sangue do samba é tipo ''O'' negativo - que fique bem entendido: universal.
SERVIÇO
- Bloco Bafo Quente
Quando - Domingo, dia 12, às 19h
Onde - Usina Cultural (Av. Duque de Caxias, 4.159), em Londrina
Quanto - R$ 2 e R$ 1 (meia-entrada)
- Oficina de percussão - Inscrições no Instituto Livre de Música (Ilimus)
Onde - R. Anita Garibaldi, 94, em Londrina
Mais informações - (43) 3344-5844


