São Paulo, 17 (AE) - O cantor e compositor Bezerra da Silva afirma que o lançamento do livro "Bezerra da Silva, Produto do Morro - Trajetória e Obra de um Sambista Que não É Santo" (Jorge Zahar, 168 páginas, 20 reais), da antropóloga Letícia Vianna, é uma abertura que faltava para o pobre. "Essa sociologia é muito boa porque fala do discriminado." A obra chega às lojas no dia 28.
Bezerra explica: "As pessoas evitam falar do marginalizado, sempre exaltam o famoso ou o rico, deixando o compositor da favela no esquecimento." Ele é intérprete. "Quando falam dos sambas que eu canto, não contam de onde eles vêm e por quem foram feitos", aponta. "Eu contei tudo isso para Letícia." Por meio da história do sambista, ela responde a questões que, segundo Bezerra, nunca são analisadas pela mídia.
O livro é uma tese de doutorado adaptada. "O objetivo foi fazer ciências sociais; pegar um fato, compreendê-lo no contexto geral e no próprio", conta a autora. "Produzir conhecimento sobre a nossa sociedade." A beleza musical expressada por Bezerra fica distante desse modelo de estudo que a sociologia aplica, fazendo comparativos com outras histórias e tentando o encaixar em determinados conceitos. Em geral, não contam com o acaso. Letícia deu maior importância ao conteúdo do mundo de Bezerra - cantado nos sambas de partido alto - do que à forma (a riqueza harmônica e melódica) e às historinhas divertidas.
"É um mundo complexo, fora dos limites da harmonia social", analisa ela. "O que ele canta é muito sério." O interesse em conhecer esse plano da realidade surgiu em 1993. Na Rua Figueiredo de Magalhães, ela descobriu num prédio um salão de cabeleireiro. Tinha a publicidade diferente do habitual, com modelos brancas, e trazia fotos de moças negras, fora do padrão estético da moda.
Dias depois, o letreiro indicava um novo estabelecimento
a Pensão Novo Horizonte, administrada por Regina Bezerra Silva (mulher do sambista). No local, a decoração foi decisiva para a iniciativa dela. Encontrou cartazes de Bezerra com camisa listada de vermelho e branco, armas na cintura e nas mãos e frases que diziam que ele não era santo. A música ambiente era um samba no qual ele contava a morte de um estuprador de crianças pelos companheiros de cela. "Sou da favela e por isso não presto também", afirma o intérprete. "A realidade é essa, não tem essa de falar de que tem boa coisa lá, pois tem sim é muita coisa ruim, não vou na onda mané que se esquiva da realidade."
Segundo ela, Bezerra é o porta-voz dos conflitos dramáticos desse universo marginal. "Ele canta como personagem de diversas dimensões que estão inseridas nesse mundo tão próximo." Na discografia, ele começa com a primeira referência, cantando coco (é nordestino), e, depois, passa para o partido alto - hoje, é o gênero que ele faz muito bem. Como partideiro "indigesto", desde a década de 70, Bezerra mostra, além da poesia dos bambas desconhecidos, as verdades do morro, do malandro, da justiça social, da mentira, das drogas, do racismo e da bandidagem.
A autora reconstrói a formação do sambista, que passou parte da infância em Pernambuco. Conta a passagem pela Marinha Mercante, a chegada ao Rio, o reencontro decepcionante com o pai
a vida de mendigo, os sete anos de abstinência até a ascensão social do artista. Traçou também um paralelo com a história de vida do cantor e compositor Luís Gonzaga e com os neo-ritmos pagode e sertanejo. "Quis trazer para a academia a pespectiva de quem está in loco", diz ela. "Ele é um sociólogo sem diploma."
Bezerra não mede as palavras: "É ou não é, comigo não essa tem coisa de achar, é realidade." Ainda este ano, lança um disco ao vivo gravado na quadra da Escola de Samba Os Acadêmicos da Rocinha. "Um lugar onde a coruja dorme", informa. Ele apresenta, no 25º trabalho, 19 sambas de gente pobre e discriminada - compositores da favela. O álbum vai chamar-se Se Leonardo Dá 20, Por Que Eu não Posso Dá 2. "Entendeu?" É malandro: "Sinônimo de inteligência."

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