Antropofagia rítmica
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de outubro de 1998
Isadora Andrade Cult Press 
Nada melhor para definir o novo disco de Carlinhos Brown do que o próprio título do CD: Omelete Man. O álbum é uma mistura de ritmos e neologismos. Brown junta reggae e bossa nova com sons tribais e letras que deliram em frases como Sei do berro do bezerro sei da seiva azerbaijão. Ele não fala inglês, mas, nem por isso deixa de misturar palavras de origem anglo-saxônica com frases em português, que resultam em estrofes sem qualquer significado aparente. Assim como os cantores de axé music, não se preocupa em fazer letras com conteúdo. Pelo contrário, as únicas em que demonstra um cuidado na composição são as feitas em parceria.
Apesar da despreocupação com as letras - que o próprio cantor atribui à falta de estudo e de bagagem literária - Brown consegue tirar melodias interessantes a partir dessa colcha de retalhos dadaísta. É o caso de Irará, uma canção com apenas duas estrofes. Nela, Brown brinca com o nome da cidade onde nasceu na Bahia e que dá título à música. A mixagem de Tom Capone e um grito tribal ecoado ao fundo torna evidente o caráter saudosista do compositor em relação à cidade natal.
Para dar forma ao disco, Brown convidou a parceira Marisa Monte. A produtora entrou em ação e elegeu 15 das 90 músicas selecionadas pelo cantor para compor o disco. A participação de Marisa foi fundamental na produção de Omelete Man. Em Alfagamabetizado, o disco anterior, o cantor parecia perdido. A musicalidade adquirida nos guetos do Candeal - bairro onde vive em Salvador - gerou um trabalho confuso. Entre tantas promessas, A Namorada, feita com propósitos carnavalescos, acabou virando sucesso nacional encobrindo as outras faixas. Marisa conseguiu domar a inquietude musical de Brown e deu uma ordem aparente ao disco. Além de produzir, a cantora empresta a voz em algumas das faixas, como Omelete Man e Vitamina Ser. Junto com David Moraes e Dadi, também se reveza em alguns instrumentos.
A antiga Canto pro Mar, da época da Timbalada, volta à cena no final de Faraó, música altamente dançante. Já de olho no Carnaval, Brown repete em Cachorro Louco a fórmula de Água Mineral - aquela do Óia, óia, óia, a água mineral - que, apesar de repetitiva, deve cair na boca do povo. Aliás, o Carnaval é mesmo a maior fonte de inspiração do cantor. Em Amantes Cinzas, uma parceria com Cezar Mendes, Brown inova e traz uma balada romântica no estilo Glenn Miller. Quero que seja o hit das discotecas, sonha Brown, que já vê casais bailando nas pistas ao som de Amantes Cinzas. A surpresa fica por conta da banda da Base Aérea de Salvador em Hino de Santo Antônio. A música fecha o disco ao som de fogos de artifício, gravado nas ruas de Salvador.


