São Paulo, 15 (AE) - Depois de quatro anos afastado do teatro, o ator Antônio Fagundes volta ao palco intepretando um personagem de 70 anos, 20 além da sua idade. Mas não espere uma composição de velhinho caquético ou melancólico. ágil, lúcido, irônico, bem-humorado, o intelectual aposentado da peça "Últimas Luas", já considerado por muitos críticos europeus um dos grandes personagens masculinos da dramaturgia, nada tem de senil. Escrito pelo italiano Furio Bordon, autor inédito no Brasil, o texto foi considerado o melhor do ano pelo Instituto Italiano de Drama em 1993 e deu a Marcello Mastroianni três prêmios de melhor ator na Itália, em seu último papel no palco.
Desde então, "Últimas Luas" foi encenada em 13 países, entre eles França, Alemanha, Grécia, Argentina, Hungria, Finlândia e, em dezembro, estréia em Nova York. Com direção de Jorge Takla, "Últimas Luas" estréia no Brasil no dia 7 no Teatro Cultura Artística. No elenco estão, ainda, Mara Carvalho e Petrônio Gontijo. Mas não é tudo. Os admiradores de Fagundes terão muito mais o que aplaudir nos próximos meses. Além de viver o fazendeiro Gumercindo em "Terra Nostra", o ator está em quatro filmes que chegam em breve às telas.
Fagundes é um juiz em "O Tronco", de João Batista de Andrade, com estréia prevista para o dia 21; vive dois personagens, um arqueólogo e um bandeirante, no filme de aventura "No Coração dos Deuses", de Geraldo Morais; um advogado na comédia "Bossa Nova", de Bruno Barreto; e o maestro no filme "Villa-Lobos", de Zelito Viana. E ainda se arriscou como cantor por um causa para lá de nobre. Em tempos de descaracterização da música sertaneja, gravou um CD com as mais genuínas composições do gênero, todas de João Pacífico, que deve ser lançado em breve pela Som Livre. Contundência - "Últimas Luas" começa com o personagem vivido por Fagundes (nenhum personagem tem nome) arrumando as malas, enquanto conversa com uma mulher uns 30 anos mais jovem (Mara). "Nos primeiros cinco minutos de peça, o público já sabe tratar-se de sua mulher, que morreu há 30 anos", diz Fagundes. E o personagem está esperando o filho (Gontijo), que vai levá-lo para um asilo, onde ele vai passar a viver por opção pessoal.
Nessa escolha reside um dos grandes méritos do texto, segundo Fagundes. O autor não trabalha sobre a compaixão em relação a um pobre velho abandonado para discutir a relação da nossa sociedade com o envelhecimento. "O personagem é independente, tem dinheiro, prestígio, é um homem culto, inteligente e saudável, mas ainda assim se sente deslocado e se prepara para viver num asilo com o consentimento do filho", diz. "A peça vai muito além da questão da terceira idade; ela discute as relações humanas na sociedade contemporânea," afirma o diretor.
"Nos ensaios, eu e o Takla já rimos muito e choramos muito porque o texto fala com extrema contundência e humor sobre essa sociedade de consumo na qual a produtividade é a medida de todas as coisas", diz Fagundes. "Vivemos numa sociedade na qual a velhice é encarada como doença", afirma o ator. A constatação é fácil de ser feita. Basta observar o conteúdo dos inúmeros artigos publicados nas mais diversas revistas sobre "a arte de envelhecer bem" que em sua maioria falam sobre "a arte de não envelhecer" ou de esconder todos os sinais da velhice. "O que está por trás disso é o temor de encarar a morte, a finitude humana", observa Fagundes. Universalidade - Um dos reflexos desse medo é o deslocamente dos velhos para asilos. Mas há reflexos mais profundos. Uma sociedade que encarasse a morte de frente certamente daria importância aos valores essenciais da existência humana. Entre eles, as relações afetivas. "A dificuldade de comunicação é um dos temas da peça", diz Takla. Não é por acaso que, ao arrumar as malas, o personagem revê a relação com sua mulher. "Ele vai buscar dentro dele mesmo uma porção feminina, mais sensível, a qual nunca permitiu aflorar".
O personagem não é uma vítima inocente. Como intelectual ativo, ele contribuiu para construir a sociedade na qual agora se sente deslocado. "Na conversa com o filho, ele tenta criticar a mentalidade fria e masculina da eficiência, mas foi ele quem criou o filho dessa forma", observa Takla. "Agora ele vai para o asilo com a cumplicidade do filho, que é incapaz de pedir: pai, fique comigo". Fagundes observa que o fato de o texto ter sido encenado em diversos países de culturas muito díspares mostra não só a universalidade da peça como a do problema da terceira idade.
"Os avanços da medicina prolongaram a expectativa de vida, tanto que hoje já se fala em quarta idade". Por outro lado, a velocidade das transformações mudou a imagem do idoso como o sábio, aquele que por muito viver tinha conseguido acumular conhecimento. "No livro "Tempo de Memória", Norberto Bobbio escreveu que aos 88 anos ainda não tinha conseguido tocar os pés da árvore do conhecimento", diz Fagundes. "Meu Deus, ao ler isso me senti tão ignorante!" Essa angústia tão contemporânea, o não conseguir manter-se atualizado, é um dos temas que perpassam "Últimas Luas".
E o melhor, segundo o elenco e o diretor, é que o tema é explorado de uma forma contundente, porém bem-humorada. "Acho que será um espetáculo para rir e chorar; pelo menos é o que tem ocorrido com a gente nos ensaios", afirma Fagundes. À moda sertaneja - Além de dividir os ensaios da peça com a gravação das cenas da novela "Terra Nostra", na qual interpreta um fazendeiro ex-escravocrata, Fagundes ainda arrumou tempo para, pasmem, gravar um CD. Não que tenha decido arriscar-se também na carreira de cantor de agora em diante. Tudo começou quanto ele atuou na novela "O Rei do Gado". Seu personagem recebia na fazenda cantores sertanejos, entre eles Sérgio Reis e Almir Sater.
Na ocasião, conversaram sobre o desconhecimento em torno do nome de um dos mais talentosos compositores de música sertaneja, João Pacífico, autor de clássicos do gênero como "Cabocla Teresa", "Pingo Dágua" e "Chico Mulato", entre muitas outras. Mesmo tendo composto cerca de 1,4 mil canções, João Pacífico passava por graves dificuldades financeiras.
A partir dessas conversas, surgiu um convite da gravadora Som Livre para gravar o CD "Tributo a João Pacífico". "Aceitei porque era uma homenagem a alguém que prestou grande contribuição à música brasileira", diz Fagundes. "Não sou um cantor, mas a produção foi feita com muito carinho, as músicas são belíssimas e o CD ficou muito bonito". A morte do compositor frustrou os planos de um grande lançamento. "Contávamos com a presença de João". De qualquer forma, "Tributo a João Pacífico" deve chegar às lojas em breve, talvez no fim de outubro.

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