Antônio Fagundes volta aos palcos com "Últimas Luas"
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quarta-feira, 06 de outubro de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 07 (AE) - Antônio Fagundes sube hoje ao palco do Cultura Artística para viver o último personagem interpretado por Marcello Maistroianni no teatro: o professor aposentado de 70 anos de "Últimas Luas". A peça do italiano Furio Bordon recebeu premiação máxima do Instituto Italiano de Drama e valeu a Mastroianni três prêmios de melhor ator na Itália. Dirigido por Jorge Takla, o espetáculo tem no elenco Mara Carvalho e Petrônio Gontijo.
Fagundes estava afastado do teatro fazia quatro anos. Além do trabalho na TV e no cinema - no momento ele atua na novela "Terra Nostra" e está em quatro filmes que logo chegam às telas -, o ator credita seu exílio temporário do palco ao desejo de achar um texto que o arrebatasse, o que ocorreu assim que leu o texto de Bordon. Fagundes exigiu que a tradução fosse feita por Millôr Fernandes, cujo talento para a tarefa é mais que reconhecido. O fato de o personagem ter 20 anos a mais que o ator não o assustou, afinal não se trata de um velho senil, mas de um intelectual lúcido, irônico, bem-humorado e saudável.
Quando a peça começa, o personagem arruma as malas enquanto conversa com uma mulher pelo menos 30 anos mais jovem que ele. "Em cinco minutos, o público já sabe que ele está de partida para um asilo por livre e espontânea vontade", diz Fagundes. "Sabe também que ele conversa com sua mulher, morta há 30 anos". Fagundes vê no fato de o autor não ter escolhido um velho desamparado para tratar dos problemas da terceira idade um dos grandes méritos do texto. "Sem cair no melodrama ou na linha da compaixão, o autor constrói um texto contundente e muito bem-humorado sobre a falta de espaço para os velhos no mundo atual".
Segundo Takla, o texto discute a fundo os problemas da terceira idade, mas vai além disso. "Ele trata das relações afetivas em qualquer idade". Na verdade, o personagem faz um balanço de suas relações, principalmente com a mulher (Mara) e o filho (Gontijo). Afinal, ele tem o consentimento e até a cumplicidade do filho na opção de viver num asilo. Atualidade - Fagundes considera o texto extremamente pertinente para refletir sobre o mundo atual. Os avanços da medicina têm contribuído para aumentar cada vez mais a expectativa de vida. Paralelamente, vivemos num mundo voltado para a produção. O resultado é o conflito entre o aumento do número de idosos saudáveis e seu deslocamento numa sociedade em que a produtividade, a capacidade de fazer dinheiro virou medida para a valorização do ser humano.
"Vivemos numa sociedade convencida de que tempo é dinheiro", comenta. Se é assim, o que fazer com o tempo cada vez mais prolongado da velhice, com o antigamente valorizado e merecido "tempo de repouso"? A peça não oferece respostas, mas discute o tema a partir da atitude radical do personagem. Sem melodramas e também sem inocentar ninguém, nem mesmo o protagonista. Serviço - "Últimas Luas". Comédia dramática. De Furio Bordon. Tradução de Millôr Fernandes. Direção de Jorge Takla. Duração: 90 minutos. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. De R$ 20,00 a R$ 45,00. Teatro Cultura Artística - Sala Esther Mesquita. Rua Nestor Pestana, 196, tel. 258-3616. Até 28/11.


