Antônio Dias ganha retrospectiva em Lisboa; em março inaugura individual em SP
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2000
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 10 (AE) - Antonio Dias vai completar 56 anos em 22 de fevereiro. Nunca teve uma retrospectiva à altura de seu trabalho no Brasil, excetuando-se uma mostra no Paço das Artes que não chegou a ficar um mês em cartaz - e ainda assim na época de Natal. Em contrapartida, os museus e instituições européias vivem lembrando sua importância para a arte contemporânea. Agora mesmo o Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, a área contemporânea da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, presta uma homenagem ao artista paraibano com uma grande retrospectiva que fica em cartaz até dia 16.
Organizada para assinalar a passagem dos 500 anos do descobrimento do Brasil, a mostra vem acompanhada de um catálogo luxuoso, na verdade um livro assinado pelo crítico Paulo Herkenhoff que vai ser lançado no dia 25, na Livraria Argumento, no Rio. Publicado em co-edição com a Cosac & Naify, o livro traz reproduções de obras produzidas desde os anos 60, quando o artista, então um desenhista de histórias em quadrinhos, participou da histórica mostra "Opinião 65", realizada no Museu de Arte Moderna do Rio. Novas cores - No mesmo ano, Antonio Dias recebeu uma bolsa do governo francês. Ficou em Paris durante três anos e, após participar das manifestações estudantis de maio de 68, fixou residência em Milão. Por essa época suas obras já integravam o acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York, mas, inquieto, Dias não se deixou seduzir pelas sereias do mercado. Ganhou outra bolsa, da Fundação Guggenheim, voltou para o Brasil em 1972, viu que não teria muito futuro por aqui, e, mesmo assim, ainda fez uma última tentativa, dando aulas na Universidade da Paraíba entre 1978 e 1981. Depois, voltou para Milão, dividindo seu tempo entre o ateliê italiano e o alemão, em Colônia, onde mora até hoje.
A Alemanha já fez uma retrospectiva de Dias em Darmstadt
em 1994. Enquanto o Brasil não organiza a sua, ele volta a expor em São Paulo em março, na Galeria Luisa Strina, mostrando uma série de pinturas geométricas, iniciada no ano passado. "Nos últimos anos abandonei o plano para me dedicar às instalações, mas agora volto com cores bastante estranhas", diz o pintor, apontando duas que não costumam aparecer em suas telas
violeta e verde. Sobre a presença da cor no trabalho de Dias, o crítico Paulo Herkenhoff observa, no livro, que o vermelho surge como componente essencial da visceralidade de sua obra, violento manifesto contra os excessos do regime militar e elo entre três gerações fundamentais da arte brasileira, segundo Herkenhoff: o modernismo, o neoconcretismo e os artistas dos anos 70.
De fato, Dias, que foi aluno de Goeldi, manteve intenso diálogo com dois dos maiores artistas neoconcretos, Lygia Clark e Hélio Oiticica, além de abrir caminho para outros transgressores, como Cildo Meireles e Tunga. Apesar da coerência desse trabalho, permanentemente dedicado a discussões sobre sexo
política e poder, Herkenhoff destaca outra questão fundamental dessa trajetória: "Dias não se propõe a assegurar uma marca reitora de sua obra". Compreensível. O estilo é a morte e a arte de Antonio Dias é vibrante, provocadora. Ousadia - Exemplo dessa provocação é a instalação "Todas as Cores dos Homens" (1995), frascos de vidros em forma de pênis que contêm água mineral, vinho, malaquita com gesso e grafite. Juntos, eles formam um esqueleto humano, celebrando, segundo Herkenhoff, a "transitoriedade da vida". Pelo fragmento, Dias quer chegar ao todo, à discussão sobre o corpo. "Essa é uma questão muito antiga em meu trabalho, remontando a 78, quando tive a idéia da instalação "Flesh Room with Anima, que mostrei em minha última exposição na Luisa Strina", revela Dias. "Só não realizei esse projeto na época porque não contava com recursos técnicos, ou seja, não consegui um papel gigantesco que reproduzisse o padrão da pele", justifica.
Dias mantém um caderno de esboços e anotações sobre projetos utópicos. Como Giotto, às vezes pensa ser melhor sonhar do que realizar uma obra. O caráter onírico dessas instalações ganha outra dimensão na análise de Herkenhoff. Dias, como Oiticica e outros artistas dos anos 60, partiriam de noções arquetípicas da casa como refúgio para criar instalações. O crítico observa que obras francamente arquitetônicas como "Do It Yourself" revelam a vocação nômade de Dias e indicam a fundação de um território de liberdade que não é a resguardada entre muros, lembrando que, a exemplo de Goeldi, Dias confunde o espaço público com privado, casa e pele.
A obra do pintor, ainda segundo Herkenhoff, é um diário político por intermédio do qual ele reagiria a fatos concretos, "distante de qualquer vassalagem ideológica". Foi assim desde as três pedras com a inscrição "To the Police" (À Polícia, 1968) até "Raiva Organizada" (1993), tela de aparência construtiva em que o vermelho (sangue, violência) penetra num espaço chumbo para criar uma parábola sobre o massacre de Vigário Geral. Matriz construtiva - "Temos no Brasil uma matriz construtiva que é extremamente diferente da tradição russa", observa Dias, que enfrentou o abismo pictórico ao inserir palavras e signos dentro do que definiu como pretume (tela em preto-e-branco). A palavra god (deus) vira dog (cão) numa obra chamada "The Hardest Way" (O Caminho mais Difícil, 1970) e esse não é um comentário paródico, mas ligado às suas raízes literárias, em que deus vira a humanizada cadela Baleia no árido sertão de "Vidas Secas".
Esse é o aspecto mais interessante do livro sobre esse artista revolucionário que descobriu uma realidade mítica em sua visita ao Nepal. Foi lá que Dias realizou sua mais bela série sobre papel artesanal. O artista, certa vez, despejou oito quilos de chá sobre esse papel, para escândalo dos pobres camponeses, mas eles reconheceram, concluído o trabalho, que valeu o sacrifício, compensando a perda ao dar à obra o título "Niranjanirakhar" (1977). Significa "é azul e é vasto". É uma possível resposta para quem perguntar qual é a forma de Deus. Resposta de um pintor acostumado, até então, a fazer uso da ironia como linguagem.


