ANTONINA É UM SHOW À PARTE
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quinta-feira, 13 de julho de 2000
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
A pacata Antonina, encravada no litoral paranaense, passará a noite de amanhã para domingo entregue à alegria boêmia dos moradores e turistas, que estarão aproveitando as últimas horas do Festival de Inverno, promovido pela Universidade Federal do Paraná. Este é o décimo ano e, segundo a pró-reitora de Extensão e Cultura, Maria José Justino, esta edição atingiu um marco histórico: comemorando os dez anos de realização ininterrupta, inscreveram-se nas oficinas mais de 2 mil alunos.
No sábado passado uma onda de curitibanos desceu para assistir ao show de Dona Ivone Lara, e aproveitou o domingo de sol. Como não era esperado esse volume a mais de visitantes faltou comida em todos os restaurantes da cidade. Foi um fenômeno que jamais havia acontecido. Afirma a vice-reitora cultural que Antonina absorveu o evento, participa ativamente, mas como ele é aberto a todo o Brasil, também chegam alunos de lugares distantes.
A hospitalidade antoninense é recompensada com oficinas voltadas especialmente aos seus habitantes, como as de artesanato, que é um traço marcante do lugar, e as oficinas infantis, ocupadas quase totalmente por suas crianças. Fazendo-se um levantamento dos participantes, é claro que Curitiba contribui com a grande maioria. Especialmente estudantes de artes que aproveitam para cursos de especialização e reciclagem.
Andando por suas ruas estreitas de casarios antigos, percebe-se que a arte está por todo lado sob a aparente calmaria muita coisa está se fazendo. Ao ar livre, num terreno mais afastado do centro, um grupo de rapazes e moças tentava tirar dos instrumentos de percussão o som e o ritmo ancestral dos baianos, com dois professores do Olodum, Falcão e Pacote do Pelô.
Falcão não gosta muito de falar da ginga baiana. Para ele essa história não existe, como se a qualidade fosse depreciativa. O segredo é descobrir o ritmo. Nosso objetivo é fazer com que o Brasil conheça o Brasil. O que estamos fazendo aqui, essas pessoas nunca tinham visto, a não ser pela televisão.
A recompensa em trabalhar com alunos de uma cultura tão distante, é o interesse que eles demonstram pelo aprendizado. O esforço está sendo maior que suas dificuldades, elogiou Falcão. Por conta disso o aproveitamento está sendo excelente e a satisfação também está lá em cima. No contexto geral está tudo dando certo, tudo ótimo, tudo maravilhoso.
Pacote do Pelô anunciou: hoje vai ter um novo arrastão, igual ao ocorrido dias atrás, logo que o curso teve início. A performance surpreendeu o professor. A novidade é que só os curitibanos estarão tocando. Falcão e Pelô estarão em meio a massa, acompanhando os tambores.
O sucesso obtido em Antonina originou um convite à dupla para dar nova oficina, desta vez em Curitiba. O problema estaria na greve dos professores e funcionários da Universidade. A gente está super a fim de dar continuidade porque estamos com tempo. É que de repente o telefone toca, tem show para fazer e aí fica difícil. Então como estamos com tempo, vamos unir o útil ao agradável. Se não me engano vamos trabalhar com um grupo de mpb da universidade, adiantou Falcão.
Aproveitando o sol morno da tarde, a artista plástica, cenógrafa e atriz Daisy Nery passava aos alunos conhecimentos básicos de confecção de máscara teatral. Para ela o fundamental não é ficar apenas na produção manual dos trabalhos, mas transmitir elementos sutis da criatividade, sociabilização, trabalho de corpo.
Ontem fizemos exercício de trabalhar com o corpo, sem o rosto, contou. Aqui o objetivo era confecção, mas como a maioria dos alunos é de estudante de teatro, e como também sou atriz, não desligo uma coisa da outra. Como fazer uma máscara e não mostrar a sua finalidade?
Futuros atores profissionais não estavam somente ali. Quadras adiante, sob a lona colorida do Circo Zanchettini, um grupo de estudantes de artes cênicas e dança escalava uma corda na aula de corda indiana, criada somente para adultos. A turma bate ponto todos os dias das 4 às 6 da tarde, mas alguns invadem as aulas da manhã, destinadas a crianças, onde a base são os cursos de contorcionismo, saltos acrobáticos e lira (arco onde se desenvolvem coreografias).
Uma das professoras, Erimeide Zanchettini, orgulha-se em contar que somente um ano o circo esteve ausente do festival na época estava cumprindo temporada de oito meses Paraguai. Um fato inédito neste ano é a presença numerosa de adultos, que forma a última turma do dia. São 100 alunos ao todo, que se esfalfam sob a lona mágica, tentando aprender os segredos da arte. A procura foi maior, mas os retardatários ficaram de fora.
Fausto Franco, de 23 anos e estudante do 3º ano de Artes Cênicas, na Faculdade de Artes do Paraná, aplaudido pelos colegas em sua performance na corda, explicou que o circo complementa o teatro em suas atividades físicas. Elas dão coordenação, concentração e direção da força que você tem que usar, e sobre como usar seu corpo num sentido. O teatro é isso: você usar o corpo num sentido de comunicar ao público.
Esta não é sua primeira incursão circense. Já experimentei várias técnicas e a corda indiana é mais uma. Para mim está sendo muito bom, com certeza vai ser muito útil no palco. Sobre o fascínio do lugar, disse que a magia deve-se ao tablado vermelho, olhar para cima ver estrelas e a platéia
Na Casa do Ofício a tapeceira Luciá Consalter ensinou dona Maria Lourdes a manejar tear de lisso baixo. O tear foi adquirido há dois anos pela Associação de Artesãos, mas estava em desuso por falta de alguém que o manejasse. Vim especialmente para ensinar uma produção mais em série de produção de tecidos, de esteirinha de mesa, talvez até de rede, almofada. Seria uma forma de viabilizar questão comercial para o artesão antoninense, considerou.
Dona Maria Lourdes, integrante da associação, esmerava-se no aprendizado para passar aos colegas. Há planos de se criar uma cooperativa entre os artistas locais e a professora já pensa além dos limites do tear de dois pedais, que está aprendendo. Vou providenciar um de quatro pedais, e o que aprender vou repassar para os outros, planejava entre fios, lissos e lançadeira.


