Antoni Muntadas expõe em SP
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domingo, 13 de fevereiro de 2000
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 14 (AE) - A obra do artista catalão Antoni Muntadas é construída a partir de elementos externos, que o artista recolhe ao acaso e burila por meio de diferentes meios e linguagens. "Faço parte de uma geração que saiu às ruas; sinto-me mais próximo de um diretor de cinema ou de um arquiteto do que de um pintor, artista plástico que trabalha fechado em seu ateliê", diz ele. Muitas vezes, esse processo tortuoso de criação leva anos até que aquela semente inicial germine a contento. É o caso do trabalho central da exposição "Brasil: Tudo Bem, Tudo Bom", que ele inaugura amanhã à noite na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.
O germe dessa obra surgiu há 25 anos, quando Muntadas visitou o Brasil pela primeira vez e verificou, surpreendido, a capacidade do brasileiro de dizer "tudo bem, tudo bom" em todas as situações, mesmo em momentos tristes ou trágicos, como se nada tivesse acontecido. Segundo o artista, que inaugurou na semana passada uma grande mostra de seu trabalho no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, se tivesse resolvido trabalhar sobre essa observação na época, seu trabalho teria algo de pueril. "Acho que agora, depois de tantas vindas ao Brasil, adquiri uma certa intimidade com essa cultura", afirma.
Brincando com a questão do clichê, que esconde, deturpa o significado real das palavras, o artista criou um grande painel no qual contrapõe o otimismo representado por uma frondosa mata, a um discurso mais crítico, simbolizado por cenas reais do cotidiano, retiradas da mídia. Clichês - A exposição também apresenta outras pequenas versões dessa linha de trabalho. Além de uma serigrafia menor da série "Brasil", o artista mostra os trabalhos "Colombia Is Going Well" e "España Va Bien". Assim como no caso brasileiro, essas frases deixam evidente a ironia presente nessas afirmações ufanistas. A diferença é que os trabalhos colombianos e espanhóis têm, respectivamente, uma conotação econômica e política, enquanto o brasileiro tem uma natureza mais antropológica, de comportamento cultural.
A questão do descolamento entre o discurso e a realidade é um dos grandes assuntos da obra de Muntadas, considerado um dos mais renomados artistas multimídia da atualidade. Mas pode-se dizer que o artista passeia com tranquilidade por vários campos de criação. Ele também transita de forma tranquila entre o que costuma chamar de "espaços protegidos" e "espaços públicos" de arte. No primeiro bloco estão as galerias e instituições especializadas, que lhe permitem estabelecer um maior diálogo com o público interessado. Mas Muntadas também tem uma larga experiência em projetos de arte pública, que lhe garantem a possibilidade de confrontar o discurso artístico com o olhar do cidadão comum.
"Ao contrário de encher uma instituição com meus trabalhos prefiro fazer uma espécie de tratamento de acupuntura num determinado lugar ou cidade", explica ele, afirmando que se não procedesse dessa forma "o trabalho estaria sendo confrontado com ele mesmo", de forma estéril. Programação intensa - E Muntadas não costuma ser econômico nas agulhadas que distribui pelo mundo afora. No Brasil, apenas este ano, ele terá três exposições. Além das mostras do MAM do Rio (que não é uma retrospectiva - termo que Muntadas diz detestar -
mas reconstitui uma parcela importante de sua trajetória artística) e da galeria Luisa Strina, ele deve participar em meados do ano do projeto "BrásMitte", que propõe uma série de intervenções artísticas no frágil tecido urbano do bairro paulistano do Brás.
Desta vez, o artista pretende lidar com a questão da construção urbana e arquitetônica da cidade (outro foco de sua preferência). Mas prefere guardar a surpresa. Este ano, ele ainda participa da Bienal de Havana. No fim do mês passado foi Genebra, na Suíça, que recebeu uma dose tripla de Muntadas. O artista inaugurou uma série de exposições nos museus da cidade e ainda deu início a um projeto de intervenção urbana, colando pela cidade uma série de stickers na qual se lê "Atenção: a percepção requer atenção". O texto, originalmente em inglês, foi traduzido para várias línguas e publicado como intervenção artística pelo "Le Temps", maior jornal local.
A idéia central dessa intervenção - que poderá ser transformada em livro - é mostrar a diferença incontornável que há entre o olhar e o entendimento daquilo que está sendo visto, entre ver e entender. "Assim como o autor tem responsabilidades
o público também tem", lembra.
A crítica - não apenas política e social - é a chave para a compreensão da obra de Muntadas. Seu principal objetivo é provocar, instigar o público a questionar sobre o que chama de "grandes paradigmas da sociedade contemporânea". "Somos críticos das coisas que conhecemos", diz ele, ressaltando que a palavra crítica não tem uma conotação negativa, mas sim interrogativa, reflexiva. Serviço - Antoni Muntadas. De segunda a sexta, das 10 às 20 horas; sábado, das 10 às 14 horas. Galeria Luisa Strina. Rua Padre João Manoel, 974. tel: 280-2471. Até 11/3.


