Está chegando às lojas de discos a caixa de CDs ‘‘John Lennon Anthology’’ (Capitol Records), uma seleção de 94 canções, sátiras, excertos de conversas, discussões de estúdio e brincadeiras familiares. O fã de Lennon pode perguntar: mas o que ela traz de novo?
Há anos o mercado é realimentado pelos detentores do espólio daquilo que um dia foram os Beatles e seu artífice mais destacado, John Lennon. A viúva de Lennon, Yoko Ono, mantém uma política de soltar com certa periodicidade coisas inéditas que saca de um baú bem fornido do seu finado (em 1988, por exemplo, lançou ‘‘The Lost Lennon Tapes’’, série de 52 programas de rádio preparados pela agência Westwood Ones).
Mas ‘‘John Lennon Anthology’’ tem de fato um elemento novo. Mostra aspectos do trabalho do Lennon pós-Beatles que ainda não eram bem conhecidos. Antes de ser um aríete comportamental, Lennon era um roqueiro de carteirinha e esse elemento está presente principalmente no disco 4 da caixa, que abre com a bela ‘‘Im Losing You’’ (1980, salva das gravações de Milk and Money).
Ali, com o piano elétrico de George Small e a guitarra refratária de Rick Nielsen, ele mostra o que o diferenciava tanto dos seus colegas de geração. Essa impressão prossegue com ‘‘I Dont Wanna Face It’’, também gravada nas sessões de Milk and Money.
A caixa é uma espécie de resposta de Yoko à série ‘‘Beatles Anthology’’, lançada há dois anos pelo ex-produtor dos Beatles, George Martin, com grande estardalhaço. Yoko Ono diz que quis revitalizar a mensagem de poder, energia e inspiração de Lennon. Para a série de George Martin, ela entregou apenas uma canção inédita de John, a baladinha ‘‘Free as a Bird’’ (que foi ‘‘reconstruída’’ com as vozes dos remanescentes e acabou virando uma ‘‘inédita’’ dos Beatles).
Mas a viúva guardou o mais interessante para o próprio projeto. Aspectos da personalidade do ex-Beatle que pouca gente conhecia, como sua arrogância e raiva, ficam expostos de maneira até surpreendente. Ele briga com o produtor Phil Spector (que produziu nos discos faixas históricas, como ‘‘Happy Xmas’’, com o coral do Harlem no apoio). Lennon dá ordens a Spector como se esse fosse um criado.
O mais chocante é quando ele brinca com a letra de ‘‘Yesterday’’, que dizia ‘‘Im not half the man I used to be’’, John emenda à frase ‘‘não sou metade do homem que eu costumava ser’’ o improviso politicamente incorreto: ‘‘Porque agora eu sou um amputado’’. Está no disco 3, uma paródia que foi resgatada da gravação de ‘‘Walls and Bridges’’ (1974).
Entre os músicos que surgem das gravações recolhidas, estão Ringo Starr (presente em faixas como ‘‘Long Lost John’’ e ‘‘God’’), Klaus Voorman (‘‘Hold On’’, ‘‘Mother’’ e ‘‘Remember’’), Bob Keys (atualmente saxofonista dos Stones, que está em ‘‘Baby Please Dont Go’’), George Harrison (está em ‘‘How do You Sleep?’’, que parece ter sido feita para Linda McCartney), entre outras.
Há versões diferentes de uma mesma canção, como é o caso de ‘‘Woman Is The Nigger of the World’’. A versão ao vivo, gravada em show no Madison Square Garden, em 1972, é imperdível. Está no disco 2, contrapondo-se a uma gravação caseira da mesma canção feita no estúdio caseiro de Lennon. É um interessante paralelo. Algumas reinterpretações possibilitam a revisão de clássicos de Lennon, como ‘‘God’’ - bela canção com um questionamento da mitomania na sociedade moderna.
Nas vinhetas, ele e Yoko surgem cantando o tema de Casablanca (‘‘A Kiss Is Just a Kiss’’), assim como o filho Sean, ainda criança, que titubeia em um diálogo a três. Todas gravações caseiras.
Yoko Ono disse, em sua visita recente ao Brasil, que essa caixa é provavelmente a última fornada de biscoitos do forno do edifício Dakota (onde Lennon viveu até sua morte, no Central Park de Nova York). O que sobrou, ela disse, não está em condições de chegar ao mercado. ‘‘Anthology’’ é, dessa forma, o derradeiro réquiem de John Winston Lennon.

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