Iniciando pelos senões - mas menos rigor, please. A quase melosidade e previsibilidade contidas no tempero da trama, bem como as boas (quase ótimas) intenções ao tratar da questão sempre melíflua dos direitos civis desenhados por Hollywood para massagear consciências: essas as duas questões que a princípio incomodam o espectador que afia as garras ideologizadas e pode torcer o nariz num primeiro impeto. Mas "Green Book", em lançamento na cidade, é suficientemente simpático para neutralizar essa tentativa de rigidez ou de engessar uma história (real, diga-se) tão saborosa, tão impregnada de divertido humanismo pragmático. Porque eliminar os preconceitos (de raça, de gênero ou de classe) requer não apenas correção politica, mas sagacidade e visão para falar de outros grupos e fomentar a empatia desde o autêntico.

Viggo Mortensen e Mahershala Ali em 'Green Book': filme mostra dois homens antagônicos até se darem conta de que são iguais
Viggo Mortensen e Mahershala Ali em 'Green Book': filme mostra dois homens antagônicos até se darem conta de que são iguais | Foto: Divulgação



E é o que faz "Green Book": não cria empatia a partir de raça ou classe, mas sim com uma narrativa de superação mágica - e quem é suficientemente cínico para negar que, ao final, todos os males do mundo não poderiam ser resolvidos com abraços e sorrisos? E mesmo não acreditando que somente isto pode transformar inteiramente a realidade mais dura, vale desfrutar dessas duas horas de suave embasamento de uma semiutopia que teima em subsistir. Assim é este filme, um trabalho na verdade sempre desfrutável, uma vez que não busca desfiar profundidades e controvérsias acadêmicas sobre o racismo e inclusive sobre a relação de dois homens convivendo em um entorno muito parecido a este dos tempos em que vivemos.

Viggo Mortensen e Mahershala Ali - nominados respectivamente para o próximo Oscar de ator e ator coadjuvante - são os senhores protagonistas de acontecimentos ambientados nos Estados Unidos em 1962, quando Tony Lip (Mortensen), um ítalo-americano truculento e desbocado, é contratado pelo Dr. Don Shirley, refinado pianista afroamericano de jazz com rigososa formação clássica, para ser seu motorista e 'body guard' durante uma potencialmente complicada turnê pelos mais conservadores estados do 'deep south' dos EUA. A dupla não tem nada em comum, mas as contingências mais ou menos complicadas do dia a dia 'on the road' e nas cidades impregnadas de preconceito vão aos poucos aproximando esses dois homens. E a amizade acaba surgindo.

Se o ponto de partida soa antiquado, isto ocorre naturalmente, nada de extraordinário. E o diretor Peter Farrely, em seu primeiro trabalho solo sem o irmão Bobby (a dupla escatológica de "Debi & Loide" e "Quem Vai Ficar com Mary? ") parece claramente consciente do filme que está fazendo. "Green Book" (o guia de viagem para cidadãos negros que se aventuravam nos estados racistas; com indicações para hotéis e restaurantes para "colored people") resulta em agradável e muito afável mistura de bons sentimentos, sentido de humor e alguns vários respingos de conflitos raciais: um coquetel nas pegadas de "Histórias Cruzadas" e "Estrelas Além do Tempo", dois títulos recompensados por um punhado de nominações e farta bilheteria.

Sem qualquer pretensão à genialidade, Farrely surpreende com seu equilibrado jogo de gêneros sobre dois polos opostos que acabam aprendendo lições vitais de quem menos esperavam. Embora partindo de arquétipos há muito conhecidos e experimentados pelo cinema de Hollywood, o roteiro assinado a seis mãos (inclusive as do filho do personagem vivido por Mortensen) contém situações bem urdidas enquanto artifício, diálogos memoráveis sem notório saber literário (e isto é um elogio) e pequenos detalhes que atingem diretamente o coração do espectador sem que uma açucarada melopeia deixe a todos contaminados. E o melhor de tudo é mesmo nos trabalhos primorosos de dupla de protagonistas.  Descontado um pequeno desvio caricatural de Mortensen, o ator de "O Senhor dos Anéis" faz muito bem o carcamano ignorantão e bruto mas de bom coração e aberto às novidades que a vida lhe impõe como um presente regenerador. Mahershala Ali (aliás, Marshala), pode repetir seu Oscar coadjuvante de "Moonlight" conquista o espectador com um personagem em luta constante contra si mesmo (na corda bamba entre a comunidade negra que o mantém distante e os brancos que não querem saber dele numa época em que os direitos civis ainda eram somente devaneios) mas focado na ligação com seu parceiro de estrada.

A química entre os dois, explosiva, está recheada de humor, empatia e respeito.
Esta é a verdadeira viagem de "Green Book", esta que fazem dois homens antagônicos até se darem conta de que são iguais. É um filme que vem demonstrar, da maneira mais simples e amável possível, sem demagogias, que somos sim todos iguais sem importar a cor da pele, onde nascemos ou em que circunstâncias. É difícil lembrar isso? Claro que não.

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