A avidez de uma paixão à música antiga é um repertório árduo na vida de músicos, como os irmãos londrinenses Thais e Marcelo Ohara, que trocaram o Brasil pela Suíça para encontrar na tradição musical européia a plena liberdade de esgotar todas as possibilidades desse desejo.
Thais e Marcelo são netos do fotógrafo japonês Haruo Ohara, que também foi um apaixonado pela música, mas que compôs uma obra ímpar em imagens. Já os irmãos integram o grupo Continens Paradisi, criado em 1992, em Besel, na Suíça, por músicos de diferentes nacionalidades, entre eles o também londrinense Rogério Gonçalves.
Todos os integrantes são formados pela Schola Cantorum Basilliensis. A célebre escola é considerada um berço cultural da música antiga.
O Continens Paradisi se dedica em especial à divulgação da música medieval e renascentista. Cada um dos músicos ainda realiza trabalhos paralelos, como Marcelo que, além de ser professor de violino moderno para crianças em Chambésy, na Suíça, vive uma nova paixão: a música eletroacústica.
Thais desembarcou na Europa um pouco antes que o irmão, em 1990, para estudar viola e rabeca, participando de outros grupos de música antiga, como o Ensemble Gilles Binchois e Syntagma Musicus, ambos na França, e o italiano Lucidarium.
Com o Continens Paradisi, os brasileiros já se apresentaram no Festival de Música de Londrina (FML), e no ''Flandres Festival Antwerp'', na Bélgica, um dos eventos de música antiga mais prestigiados da Europa.
''Ao chegarmos na Europa, as nossas referências eram sonoras, através da escuta de discos, cursos esporádicos que fazíamos no Brasil. Chegamos aqui com o sonho de nos aprofundar na execução desse repertório. Eram muitos parâmetros que não dominávamos e desconhecíamos. Esse processo foi muito árduo'', afirma Marcelo, que foi músico da Orquestra Sinfônica de Londrina (Osuel) e do grupo londrinense de música antiga Arabesco.
A atração pelo gênero exige a adoação de instrumentos que são cópias fiéis dos antigos. ''Esse movimento, apesar de um pouco utópico e idealista, transformou completamente o repertório da música antiga, que já era conhecido através de execuções em instrumentos modernos'', acrescenta Marcelo.
Na Suiça, a música antiga está em todos os lugares para onde se olhe e escute. ''A cultura está à sua volta, nos edifícios, nas igrejas, pessoas. Não estudamos essa música somente nas escolas. Nós a vivenciamos, respiramos. Isso dá uma eloquência, uma clareza à interpretação musical que creio, não seriam possíveis em outro país'', avalia o músico.
Ao optar pelo gênero, Marcelo sabia que teria que dedicar muito tempo ao estudo. Ele ressalta que os que se especializam no repertório dedicam mais horas à pesquisa, chegando à interpretação com uma visão pessoal.
É justamente na escolha do repertório que essa visão dos músicos do grupo se amplia com a participação de outros artistas e musicólogos que olham para outros horizontes ainda não vislumbrados pelos integrantes do Continens Paradisi.
''Quando elaboramos um novo repertório, procuramos sempre trazer à luz um aspecto novo, como o CD 'Le Champion des Dames' que une poesia e música do século XV, trazendo pela primeira vez a passagem célebre do poema de Martin le Franc sobre dois dos mais importantes músicos da época: Gilles Binchois e Guillaume Dufay. Foi um trabalho muito bem acolhido pela crítica e eleito o disco do mês da revista Répertoire'', conta Marcelo.
O último CD foi a realização de um sonho: gravar um programa brasileiro. ''Graças ao trabalho maravilhoso do musicólogo brasileiro Rogério Budasz, que reconstruiu o repertório do Caderno de Poemas de José de Anchieta, nasceu o CD Mil Sospiros Dio Maria, que inclui duas peças em tupi. O disco foi recompensado como o melhor de música vocal renascentista de 2006 pelo site Prelude Classical Music''. Marcelo adianta que o grupo pretende estabelecer parcerias com outros artistas, criando projetos que envolvam dança e teatro.
E nem só de sons antigos se alimenta a paixão de Marcelo. O músico acabou de criar a peça ''Prato Único'' para o festival de Annecy, na França. A peça foi executada na última Bienal de Música Eletroacústica de São Paulo (PIMESP) e em abril será tocada no New York City Eletroacoustic Music Festival (NYCEMF).
Para os músicos que pensam em tentar carreira na Europa, Marcelo dá uma injeção de otimismo: ele acha que hoje está ainda mais fácil, já que o mundo ficou menor.

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