Antes tarde do que nunca
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quinta-feira, 21 de novembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O tempo só é ruim para quem não sabe esperar. É assim que o sambista integrante da Velha Guarda da Portela, Jair do Cavaquinho, 82 anos, analisa o tempo que levou para gravar o seu primeiro CD solo. Ele e Argemiro do Patrocínio, o ''Seo'' Argemiro, de 79 anos, comemoram juntos o lançamento dos discos que levam os seus nomes e a batuta do selo Phonomotur, de Marisa Monte. Os dois trabalhos serão lançados em show amanhã à noite, no Teatro da Reitoria, em Curitiba.
Em 55 anos de carreira, esse é o primeiro disco de Argemiro Patrocínio. Jahyr de Araújo Costa, o Jair do Cavaquinho também nunca tinha gravado um disco-solo, embora contabilize parcerias festejadas com Nelson Cavaquinho e outros ícones do samba. Ambos começaram cedo. ''Com sete anos eu fui o primeiro mascote da Portela'', orgulha-se Jair do Cavaquinho. O apelido ele ganhou na adolescência, depois de adotar o instrumento quase como parte do seu corpo. ''Eu fui o primeiro cavaquinista da escola, quando tinha 16 anos'', conta com uma memória impecável.
O músico atendeu ao telefonema da reportagem animado, explicando que não estava em casa antes porque tinha ido buscar o disco na fábrica, no Rio de Janeiro, onde mora, para colocá-lo na bagagem. ''Depois de 80 anos me deram a chance de fazer esse disco sozinho. A sorte chegou'', diz.
Seu disco de estréia traz sambas de terreiro praticamente inéditos, e ainda jongo, cateretê e outros ritmos, todos cantados por sua voz de velho sambista. O CD tem 15 faixas e apenas três são regravações: ''Atraso em meu caminho'' (com Picolino), gravada originalmente por Elizeth Cardoso e depois pelo cantor, ''Noite Ilustrada'', ''Cavaquinho feliz'' (com Ari Araújo), gravada por Haroldo Santos, e ''Espetáculo deslumbrante'' (com Zózimo), registrada pelo grupo A Voz do Morro, do qual Jair fazia parte, ao lado de Zé Kéti, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Nescarzinho do Salgueiro, Zé Cruz e Oscar Bigode.
Abre o disco a música ''Doce na feira'', uma parceria com o irmão Altair Costa, seguida por ''Voltei'', de autoria própria. O CD conta ainda com outras parcerias com Ari Araújo, como ''Francamente'' e ''Cabelos brancos'' e várias de autoria própria como ''Atraso'', ''Eu e as rosas'', ''Desgosto profundo'' e ''Você não soube ser mulher''.
A idéia de gravar um disco-solo de Cavaquinho surgiu, em princípio, na Acari Records, dos músicos Luciana Rabello e Mauricio Carrilho. Mas como Marisa Monte estava produzindo o disco de Argemiro do Patrocínio e já tinha lançado ''Tudo Azul'', a Acari entendeu que o disco seria melhor trabalhado pelo Phonomotor.
A relação de Cavaquinho com a cantora é antiga. ''Eu praticamente vi essa menina nascer'', conta. Ele trabalhava como servente na Prefeitura do Rio e tinha como chefe, o avô de Marisa. ''Ele brigava comigo, não gostava de samba'', lembra. Mas a relação com o pai da cantora, também integrante da Portela, era bem diferente e já com Marisa ele passou a se relacionar com uma espécie de ''mestre''. ''Eu ensino ela a sambar, ela até que está aprendendo direitinho'', brinca.
E é com esse tom bem humorado, que Jair do Cavaquinho promete o show hoje à noite. ''É um show muito animado. Você não me dá a idade que tenho quando me vê no palco. Já o Argemiro, trabalha sentado... é a idade, né?'', diz irônico.
Argemiro do Patrocínio é três anos mais novo que Cavaquinho, mas ambos têm o ''samba no pé'' que escondem qualquer aborrecimento ou mazelas da idade.
No show, Seo Argemiro - ex-técnico de refrigeração que entrou na Portela ainda garoto, pelas mãos de Paulo da Portela - canta 14 canções, entre elas o clássico ''A Chuva Cai'', composto em parceria com Casquinha (''A chuva cai lá fora, você vai se molhar/Já lhe pedi não vá embora/Espere o tempo melhorar...''). Seo Argemiro é um showman nato, conta piadas e cativa o público com suas histórias improvisadas ou não.
O acompanhamento do espetáculo fica sob a responsabilidade do grupo Bom Partido de Florianópolis que tem participado de todas etapas do projeto o ''Samba e Sua Nobreza'', do Cimples Samba e Choro. O poeta e compositor Guilherme de Brito foi a primeira atração. Em seguida o Cimples promoveu shows do grupo paulista Quinteto em Branco e Preto, do compositor Monarco e do compositor Wilson Moreira.
O objetivo do projeto é trazer o melhor da samba que não consegue o espaço merecido na grande mídia e divulgar, por intermédio de shows e palestras o trabalho de sambistas históricos. sejam interpretes ou compositores. O próximo show, em dezembro, traz Xangô da Mangueira e convidados da Velha Guarda Verde e Rosa.
Serviço: Show com Argemiro Patrocínio e Jair do Cavaquinho. Amanhã, às 20 horas, no Teatro da Reitoria (Rua XV de Novembro, 1599). Ingressos R$ 10,00 e R$ 5 (estudantes e idosos acima de 60 anos). Reservas e informações (41) 229-1447


