Antes de tudo, um observador crítico
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sexta-feira, 21 de março de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Mario CesarJuca Chaves: O brasileiro precisa de um bode para justificar seus próprios fracassosÉ bom entrevistar Juca Chaves. Primeiro, porque ele não é do tipo que segura a língua para falar sobre o que acha e o que deixa de achar sobre isso e aquilo. Um exemplo: Eu sou contra esse negócio de ser contra a pena de morte. Sou a contra a pena e a favor da morte. Segundo é que ele não precisa ficar fazendo gracinhas a todo instante para provar que é um humorista nato. Humorista apenas, não. Eu sou um satírico. E um satírico não tem posições ideológicas. Eu satirizo tudo o que é ridículo. Juca reapresenta hoje, às 21h30, no Teatro Crystal Palace, o seu mais novo show Socorro.
Aos 39 anos de carreira, 58 anos de idade, pelo menos 30 discos gravados, o carioca Jurandir já perdeu as contas de quantos shows já fez. E também de quantas sátiras políticas fez aos presidentes da República que, para alguns, são tão esperadas quanto a execução do Hino Nacional no dia da posse do felizardo. Um dos seus favoritos foi o maranhaense José Sarney que, vejam só, se elegeu senador pelo Amapá. Coisas do Brasil.
A seguir, os principais trechos da entrevista que Juca Chaves concedeu à Folha2.
Você não tem a impressão de que a CPI dos Títulos Públicos vai acabar em suco de laranja em vez de pizza?
Juca Chaves - Acontece o seguinte: eles sempre precisam de um bode expiatório. Não pegaram o Collor na época? Quando na verdade, todo mundo já sabe hoje que não era ele. Mas é o tal negócio: o brasileiro precisa de um bode para justificar seus próprios fracassos. Assim como os nazistas pegaram os judeus, o brasileiro precisa de alguém pra dizer: é, o político, ah, ele roubou. Não. Quem rouba é o povo. O povo é ladrão. O brasileiro é um ladrão em potencial hoje. Ele faz questão de roubar porque ele tem uma boa escola que é o próprio governo. Quando ele não vê que em cima não se tomou nenhuma providência, ele rouba embaixo.
Na sua opinião, esse novo escândalo não vai dar em nada, é isso?
Juca Chaves - Isso que estão pensando em fazer agora... A exumação do cadáver do PC é pior porque se se descobrirem que ele está ligado com a máfia, aí vão ter que tomar uma posição. E quem tem coragem?
Quem tem coragem?
Juca Chaves - Ninguém, ninguém no Brasil teria coragem. A polícia tá de mãos atadas porque as leis foram feitas... Um indivíduo que faz uma lei prestigiando um ladrão, chamando o cara de cidadão e dando quatro refeições por dia ele é um criminoso também. Ele compactua com o crime. O juiz é obrigado porque segue as leis. As leis são criminosas no Brasil. Hoje o ladrão... Por exemplo: tem três caras que me devem muito dinheiro; são bandidos mesmo. Eles estão ganhando com essa história toda. Primeiro porque eu não posso prendê-los; o delegado quer prender mas não pode porque são réus primários. Na verdade, não são primários são estelionatários que, para mim, são sequestradores porque sequestram dinheiro. Qual a pena para o sequestrador? Pena de morte. Eu sou contra esse negócio de ser contra a pena de morte.
Você é a favor da pena de morte, é isso?
Juca Chaves - Não, eu sou contra porque é pouco. Sou a contra a pena e a favor da morte. Claro que eu sou a favor.
Juca, esse não era um País que ia para a frente?
Juca Chaves - E não foi porque não tem cultura.
Quer dizer: tudo passa pela veia da cultura?
Juca Chaves - Passa pelo lado. A cultura não é prestigiada. Tanto que o professor ganha menos que um metalúrgico. Metalúrgico é importante? É. Mas professor é muito mais importante.
Você acredita no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso? Aliás, você votou nele?
Juca Chaves - Não votei nele. Eu votei no diretor do Detran, porque sempre voto em trânsito. O Fernando Henrique é um homem culto, carismático e que está fazendo seu nome internacional como um homem de esquerda. Tudo isso é simpático. O plano é bom? Poderá ser bom. Agora eu pergunto: e a cultura?
Mas no Brasil não se investe nem em educação nem em saúde, por que o Governo investirira em cultura?
Juca Chaves - É uma trilogia: cultura, educação e saúde. Sem isso não se faz um Estado. Mussolini, que era um idiota, já dizia isso e deu certo durante o período dele. Aliás, esses grande ditadores...Fidel Castro, que é um grande ditador, que brasileiro adora... o Brasileiro gosta de ditadura. Tanto que a imprensa brasileira ama ditadura, sempre prestigiou os ditadores. Prestigiou Getúlio Vargas, prestigiou a ditadura da comunicação, as chamadas patrulhas ideológicas, que não deixa de ser uma ditadura, a própria ditadura de imprensa (...)
É verdade que você está proibido de se apresentar na Globo?
Juca Chaves - Tive grandes boicotes. Tenho ainda, em muitos lugares.
Vamos dar nomes aos bois?
Juca Chaves - Claro. Sou amigo do Roberto Civita, mas a Revista Veja não me põe há mais ou menos 14 anos.
Qual o motivo?
Juca Chaves - Por causa de uma piada que eu soltei que é assim: a revista Visão quer ver mas não pode e a Revista Veja não tem visão. É a piada mais infantil que já fiz na minha vida. Aquilo tocou tão a fundo que eu comecei a entender que eles são muito... são alvos alvos. Eles têm medo. Eles podem falar mal, mas quando você reage eles não têm coragem.
Não sair na Veja prejudica sua carreira?
Juca Chaves - Não, apenas citei um exemplo. Na Globo eu não apareceu, a não ser raramente. Eu não sei... Eles têm medo. Eles falam: O Juca não, pelo amor de Deus. Eles acham que a gente vai falar alguma coisa no ar.
Mas a Dercy Gonçalves fala fdp, pqp em pleno Domingão do Faustão...
Juca Chaves - Mas é de uma maneira diferente porque a Dercy fala de uma maneira que todo mundo sabe que não faz a cabeça de ninguém. Ela diverte o povo. Eu já falo na diversão, mas faço a cabeça das pessoas.
Ideologicamente, como você se classifica?
Juca Chaves - Eu sou... Eu tenho uma música que diz: Não sou homem de direita/ nem do lado esquerdo eu entro/E como ninguém me aceita/Sou é mesmo contra o centro. Sou um anarquista, graças a Deus. Agora, eu sou um satírico. E um satírico não tem posições ideológicas. Eu satirizo tudo o que é ridículo. E a sátira é a crítica aos erros e costumes de uma sociedade, com inteligência.
Aliás, Juca, você tem uma piadinha fantástica do Médici: Como se mede um burro? Médici dos pés à cabeça...
Juca Chaves - Essa é uma das 500 mil...
Aliás, é de praxe esperar que você faça uma sátira tão logo um presidente assume o cargo.
Juca Chaves - Só que hoje não toca mais nas rádios. As rádios não tocam minhas músicas. O que vou fazer, impor?
Qual dos presidentes deram mais margem para a sátira?
Juca Chaves - O Sarney. Ele parecia o boneco que o Agildo Ribeiro fazia no programa Cabaré do Barata, na Manchete. Ele parece uma caricatura. É vaidoso, como todo nordestino. Ele não quis ser presidente. Ele quis imprimir o livro dele e conseguiu.
Você leu? O que achou?
Juca Chaves - Eu comecei a ler. É médio, não é mal não... Esperava-se mais porque ele era presidente. Mas não merece a Academia Brasileira de Letras.
Assim como o Roberto Marinho não merece.
Juca Chaves - Pois é...É o tal negócio: são as imposições por prestígios.
E para o Fernando Henrique não tem musiquinha?
Juca Chaves - Tem, mas só canto no show. Mas não é muito não porque até agora ele não deu motivos.
Não? Ele vive viajando, não é um bom motivo?
Juca Chaves - Mas isso eu falo no show. Ele é o nosso grande turista. (...) Ele é um viajor. Eu fui no programa do Jô Soares que até defendeu as viagens dele. E eu disse: Sim, mas o dinheiro é da gente. Eu também gosto de viajar, mas eu viajo com meu dinheiro.
Com você não tem aquelas piadas do papagaio. Seu humor é mais refinado...
Juca Chaves - (interrompendo) Meu humor passa por tudo o que acontece.
Mas que tipo de piada ou situação você não toca, por respeito?
Juca Chaves - Piadas racistas eu não conto. E quando eu conto é sempre prestigiando... Quando conto piada de homossexual, por exemplo, é sempre prestigiando.
Conta uma então.
Juca Chaves - No show mesmo eu dizia... Não era piada de homossexual, eu contava piada de viado.
E qual a diferença?
Juca Chaves - Homossexual escolheu o sexo pelo prazer sexual dele ou por necessidade fisiológica ou ideológica. Já o viado é o que gosta de fazer viadice. Nos EUA se chama gay, porque eles são alegres. Você conversa com homossexual ele é sempre mais sucestível e sutil que o homem normal, que é grosso.
E a piada?
Juca Chaves - A bicha pobre fala para a bicha rica: prazer em conhecer. E a bicha rica: compreendo.
Você se exilou, voltou ao Brasil e não posou de mártir, não é mesmo?
Juca Chaves - Nem uso esse termo fui exilado. Isso é uma desculpa que muita gente tem para justiticar seus anos grátis na Europa. Não é bem assim.
Teve gente que voltou e se tornou deputado. Nunca passou pela sua cabeça se candidatar a algum cargo público?
Juca Chaves - Nunca passou... Tem uma música minha que diz meu sorriso, meu sorriso é meu protesto (NR: Juca tenta se recordar dos versos iniciais) . Sabe esse pessoal que assina manifesto, faz comícios em praça pública, movimentos... Quando fizeram o movimento pelas Diretas foi tão ridículo.
Ridículo?
Juca Chaves - Sabe por que eu achei ridículo porque era anticonstitucional. Se o povo aceitou a constituição de época que dizia que não podia ter eleições diretas...
Mas foi uma constituição imposta, Juca!
Juca Chaves - Claro, mas estava saindo... Quando fizeram Diretas Já sabia-se que isso iria acontecer dois anos depois, já estava planejado. É que o brasileiro quer festa. Foi uma farra maravilhosa, todo mundo se vestiu de verde e amarelo. Mas não aconteceu porra nenhuma.
E qual foi sua contribuição?
Juca Chaves - Quando houve aquele negócio para acabar com a censura eu fui o grande responsável... Pergunte ao Ney Braga. Ele era ministro da Educação e fomos eu e a Iara sozinhos e eu falei: ministro, acontece o seguinte: tem que acabar com essa censura agressiva. E ele falou O que você propõe? E eu disse: primeiro de tudo: para fazer a coisa progressivamente tire a Polícia Federal da censura e coloque professores. Com a vinda do primeiro professor, o Madeira, eu fui dialogar e disse que não pode proibir certas coisas, assim, assim. O Madeira consentiu e houve uma abertura quase que total, dali um passo para a total. Eu contribui muito mais que aquela manifestação dos 100 mil que não levou a porra nenhuma. Foi uma manifestação chamada esquerdinha festiva. Eles queriam aparecer. É como defender a Aids hoje. Quer defender? Pegue o dinheiro e dê para uma instituição e não fique fazendo barulho. E obrigue o Governo a colocar publicitários inteligentes que façam uma publicidade inteligente, sem medo. Uma vez, no programa da Hebe, uma atriz tirou uma camisinha e colocou numa banana e, com isso, tirou o medo do homem de botar camisinha. Eu adorei que ela fez.
Só no Brasil que pênis é chamado de Bráulio...
Juca Chaves - É o que estou falando: é uma campanha medrosa. Amanhã vão fazer uma propaganda sobre desastre e vão falar por favor, não beba. Tem que ser assim: se você beber e dirigir, você é um fdp e um assassino. E se alguém for pego bêbado e provocar um desastre é cadeia de 20 anos. Tem que haver leis. Uma vez parei o carro em São Paulo e alguém falou: não pare o carro aí porque o Jânio Quadros pessoalmente leva o carro embora. Eu fiquei com medo e não parei. E o Jânio levava mesmo.
Ele era louco, né?
Juca Chaves - Ele fazia coisas incríveis. Uma vez vi uma cena na TV Record. Uma mulher falou: você, Jânio, tirou o meu carro da terceira fila e eu tenho que levar meu filho para o colégio. Ele chamou toda a imprensa e falou: senhora: primeiro não sou você porque não dormimos juntos, graças a Deus. Portanto me chame de senhor governador. Segundo: a senhora faça como todas as mulheres que erram fazem: pare o carro a mil metros, quinhentos metros, dois mil metros se precisar e com isso a senhora diminuirá suas ancas. É muito de brasileiro dizer: sabe com quem você está falando? Aquele filho de ministro, fdp, que atropelou, por exemplo... acabou em pizza.
Pois é...
Juca Chaves - E acabou naquelas pizzas ruins, grossas, que babam. Pizza com cebola. Aliás, quem põe cebola na pizza é um criminoso. Devia ser preso. Eu sou presidente do CIC - Clube dos Inimigos da Cebola cujo slogan é: se cebola fosse bom não fazia chorar. E sabe o que faremos um dia com a cebola: o mesmo que fizeram com tiradentes. Ou seja, enforcá-la, esquartejá-la e seus pedaços jogados ao vento. Eu e minha mulher casamos com comunhão contra cebola. Cebola broxa, faz mal ao coração, dá mal hálito, é antipática. E o alho que é primo da cebola. Primo não, cunhado. Italiano, por exemplo, não cozinha com cebola.
Para terminar: você ri do que normalmente?
Juca Chaves - De felicidade. O melhor riso que tem é o de felicidade.
q Show com Juca Chaves - Hoje, 21h30 (em ponto), no Teatro Crystal Palace (Rua Quintino Bocaiúva, 15. Fone 043/321.2526). Ingressos: R$ 20,00 e R$ 15,00 (professor, estudante e hóspedes do hotel), que podem ser adquiridos no local.


