Gal já ousou mais. Porém, em ‘‘Aquele Frevo Ax钒 é possível encontrar o frescor, resguardadas obviamente as proporções, de alguns discos da cantora lançados na década de 70 quando ela se permitia, ainda com vibrações da tropicália, fazer uma mistureba de sons e timbres que, liquidificados, eram um barato total. Há a adição de elementos eletrônicos? Há. Mas nada que se possa ser saudado como extraordinário, magnífico, pouco usual. O que deve ser saudado em ‘‘Aquele Frevo Ax钒 é o não-conformismo da cantora que parecia estar muito bem acomodada em seu pedestal de prima-donna do canto popular brasileiro.
A grande felicidade está em ver e ouvir Gal Costa se auto-repor a faixa que sempre lhe pertenceu e que foi pendurada no prego com a gravação do disco ‘‘Acústico’’: a de uma cantora moderna, contemporânea, antenada, mesmo que com menos intensidade de outrora, com as roupagens atuais. E sob esse ponto de vista, ‘‘Aquele Frevo Ax钒 é um disco agradável. Agradável não, saboroso. Melhor: delicioso.
O disco abre com sonoridade prafrentex, através de ‘‘Que Beleza’’ (Tim Maia) e fecha com o convencional, mas não menos maravilhosa dobradinha voz-violão em ‘‘Sertão’’ (de Caetano Veloso). Sim, o disco é feito de opostos - o tecnológico e o acústico. E Gal passeia por todas as faixas com sua nobreza características mesmo que sua voz, linda obviamente, esteja mais econômica tanto em agudos como nos famosos vibratos. Econômica, mas não menos emocionante
E se é para emocionar, nada como ouvir a regravação de ‘‘Voc꒒ (Tim Maia) - em que é possível constatar uma sutil aspereza vocal no refrão - ou mesmo a valorização dos versos da belíssima ‘‘Quase um Segundo’’ (Herbert Vianna) que reconstruída na voz de Gal acaba finalmente ganhando sua versão definitiva. Entretanto, os bons momentos do disco ficaram vieram das mãos de Caetano Veloso. A começar pela música-título em que a língua de Gal a trai e pronuncia ‘‘flevo’’ em vez de frevo. ‘‘Você não gosta de mim’’ é o que de melhor se pode encontrar no disco.
Aliás, a cantora não só se dá ao direito de modular frases musicais à sua maneira como também alterar palavras contidas em músicas originais. Em ‘‘Esquadros’’, de Adriana Calcanhoto, em vez de ‘‘filtrar seus graus’’ o que se ouve é ‘‘filtrar seus gals’’. Uma auto-reverência. Nem tudo, por outro lado, é uma maravilha. De Benjor, a baiana pinçou a boboca ‘‘Habib’’ que mesmo com todo seus recursos de intérpretes não conseguiu salvar a besteira melódica e literária saída do dono de ‘‘País Tropical’’.
Ciscos à parte, ‘‘Aquele Frevo Ax钒, por seu todo, merece ser respeitado pela dignidade que essa baiana imprime até mesmo baladonas em espanhol como ‘‘Amor de Juventud’’ (do argentino Pedro Aznar, com participação do dito cujo). Pode não ser enquadrado futuramente na categoria de ‘‘aquele disco da Gal’’. É mais um disco de Gal. Enquanto o futuro longínquo não vem, cá pra nós: que disco bonito, hein!! (A.M.J.)

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