Anos difíceis '1968 - Ditadura Abaixo'
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de dezembro de 2008
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
Quarenta anos depois, o Brasil ainda sente os resquícios da ditadura militar. Seja devido às lições não aprendidas ou porque algumas cicatrizes realmente nunca serão esquecidas, ou pela razão mais simples: muito do que aconteceu ainda permanece um tanto nebuloso, sem registro ou informações mais profundas, sempre sob a visão do eixo Rio-São Paulo. Mas o que, de fato, marcou o Paraná nesta época? Foi justamente para responder a essa pergunta que nasceu o livro ''1968 - Ditadura Abaixo'', da jornalista Teresa Urban com os quadrinhos do artista plástico e ilustrador Guilherme Caldas.
''A idéia do livro veio de uma motivação particular. Quando estava no movimento estudantil já sentia falta da história da geração anterior à minha. Quando virei avó pela primeira vez comecei a pensar mais sobre isso e hoje, com meu neto aos 16 anos, pensei: 'Tem coisa que esse menino precisava saber'. Quando me dei conta dos 40 anos que se passaram desde que tudo aconteceu, pensei em uma forma de contar essa história'', recorda Teresa Urban, de 62 anos. O livro, lançado no início de dezembro, teve tiragem modesta de 2 mil exemplares pela editora curitibana Arte & Letra.
''Do ponto de vista genérico, é uma boa história para contar sobre o período da ditadura, ambientada localmente. Fiz isso por causa de uma necessidade, antes só tinha essa história contada na visão internacional, do eixo Rio-São Paulo ou na visão acadêmica'', acrescenta a autora.
O livro é um projeto antigo de Teresa, que passou os últimos anos amadurecendo a idéia, coletando material, fazendo pesquisa e recorrendo à ajuda dos ''velhos companheiros'' para então começar a moldar um misto de autobiografia e romance. ''Alguns traços são referentes à minha própria história. Mas isso não é um romance e tampouco uma biografia. O que fiz foi criar um ambiente em que a informação se localize. Fui lá atrás para que as coisas não ficassem soltas e a idéia é transmitir esse mergulho nas minhas memórias.''
A publicação é composta por capítulos bem pontuados, quase didáticos, que não se limitaram a contextualizar a ditadura militar em Curitiba mas também as razões por trás do golpe, antes até da chegada dos portugueses na costa brasileira em 1.500. Os quadrinhos surgiram como opção de atingir os jovens com mais intensidade. ''Quando decidi fazer o livro, queria contar a história para os garotos de hoje e saí para pesquisar como eles se comunicam. Optei pelos quadrinhos pela agilidade, são informações curtas e rápidas que funcionam como um fio condutor no livro. O quadrinho cresceu com a idéia inicial e ganhou força'', lembra Teresa.
''Inicialmente, a Teresa chegou com os roteiros e disse que ia precisar de 'umas 47 tirinhas'. Disse pra ela que isso não daria tirinhas não, já que os quadrinhos iriam servir para contextualizar tudo, dar uma amarra da linha entre 'antes' e 'depois', com a intenção de jogar mesmo a pessoa na época'', completa Guilherme Caldas, 35 anos. Para o ilustrador, terminar o livro em apenas cinco meses foi um desafio. ''Foram 150 páginas em apenas cinco meses, um ritmo que eu nunca tinha desenhado.''
Apesar do curto tempo para trabalhar, a pesquisa e o resultado final foram gratificantes. ''O processo de reunir referências foi o que mais curti fazer. Não sabia, por exemplo, que onde fica hoje um colégio particular em Curitiba funcionava a sede do Dops (Departamento de Ordem Política e Social, órgão repressor durante a Ditadura). Trouxe aquela vontade de fazer mais coisas como esta, principalmente porque falta material sobre isso'', comenta o ilustrador.
De acordo com Guilherme, investir nas sutilezas enriqueceu a obra. ''A ditadura não era militar, os caras que deram o golpe estão aí até hoje. Foi legal para mostrar o regime militar e como era diferente de usar cabelo comprido aqui e em São Francisco. É um trabalho criativo, não um documentário. Foi feito para as pessoas exercerem a imaginação e tive o cuidado de não ficar explicando todas as coisas'', afirma o artista, que incluiu, por exemplo, uma placa de ''pare'' da época (apenas um ''P'') e um sujeito lendo ''Brasinha'', famoso almanaque de endiabrado personagem publicado no Brasil durante os anos 60. ''Lance Maior'', longa de Sylvio Back lançado em 1968, foi, segundo o desenhista, a maior inspiração na caracterização dos personagens e ambientes.
Cheio de referências, tanto documentais quanto textuais e gráficas - a exemplo de cartazes de publicidade da época, registros do Dops e letras de músicas famosas - o livro permite uma verdadeira imersão nas memórias de Teresa e seus personagens, como a inquieta Maria, estudante e militante nas causas anti-repressão.
Ao final da jornada, a sensação é de que ainda há muito coisa interessante a ser conhecida sobre o período, principalmente o que aconteceu por aqui. Além, é claro, da insatisfação com o legado de conformidade deixado para muitos. ''Não pensei em uma mensagem final mas acho que tem muito dessa coisa da Teresa, de 'não desista do seu sonho'. Para mim, tem mais a coisa de fazer as pessoas raciocinarem, pensarem por conta própria, não aceitarem qualquer coisa imposta'', sugere Guilherme.
''A vida pode ser maravilhosa. Descobrir o mundo é uma aventura como nenhuma outra'', resume Teresa, sobre o livro. Porém, a autora deixa um alerta, também presente em sua publicação, uma extensa lista das pessoas mortas e desaparecidas até hoje em decorrência da ditadura militar. ''Fiz questão de ter um 'depois'. A ditadura teve um custo alto para o País e esse é um tema descuidado, coisa que ninguém fala.''


