A pesquisadora Sílvia Fernandes resgata em livro a trajetória do teatro brasileiro na década de 70, valorizando as cooperativas e os projetos de criação coletiva
Um clichê costuma aninhar toda produção teatral dos anos 70 ao saco da ‘‘resistência’’. Mas por mais que tenha vicejado no período, o ideário militante encontrou outras tendências disputando palco e público, pelo menos a partir de meados da década com o surgimento nas grandes capitais de grupos como Asdrúbal Trouxe o Trombone, Ornitorrinco, Pod Minoga, Mambembe e Ventoforte.
É o que conta a pesquisadora Sílvia Fernandes no livro ‘‘Grupos Teatrais Anos 70’’, publicado pela Editora da Unicamp depois de atravessar uma longa temporada espremido na gaveta de dissertações de mestrado da Escola de Comunicações e Artes da USP. Antes que alguém acuse a autora de inventar um ‘‘movimento’’, Sílvia descarta a hipótese atribuindo apenas o caráter de ‘‘tendência’’ a seu objeto de estudo.
O livro focaliza uma safra de grupos que teria oxigenado o panorama teatral atuando em forma de cooperativas e em projetos de criação coletiva, nas quais todos os membros ganhavam a mesma porcentagem independente das funções desempenhadas (dividindo lucros ou prejuízos) e ainda todos participavam das várias tarefas e fases da montagem dos espetáculos (desde a escolha do texto até a produção e divulgação do espetáculo).
Mas além de uma maneira distinta de trabalhar, os grupos apresentavam uma nova linguagem cênica, que privilegiava temáticas próximas do cotidiano. Na época, vivia-se a ressaca da dissolução de companhias estáveis como o Teatro de Arena e o Oficina de José Celso Martinez. Vigoravam produções isoladas em que espetáculos eficientes sobrepujavam preocupações com pesquisa e experimentação.
A emergência dos grupos sacudiu o conformismo. Eram divididos, segundo a autora, em duas correntes ‘‘claramente identificáveis’’, cuja única semelhança residia no espírito cooperativo. A primeira era definida pelo teor político das propostas, enquanto que a segunda abordava o teatro como ‘‘manifestação artística, lúdica ou, principalmente, como meio eficaz de auto-expressão’’.
É para esta segunda vertente que Sílva mira suas análises. Ela destaca particularmente a trajetória dos grupos Asdrúbal Trouxe o Trombone e Ornitorrinco, que ganham capítulos específicos incluindo fotos de seus espetáculos mais representativos. O Asdrúbal foi criado por Hamilton Vaz Pereira e Regina Casé, aos quais se juntariam já para o primeiro espetáculo alguns futuros atores ‘‘globais’’ como Daniel Dantas e Luiz Fernando Guimarães.
Eles estréiam com a comédia realista ‘‘O Inspetor Geral’’, de Gogol. Já, aqui, anunciam características que levariam para as peças posteriores. Silvia observa que o grupo ‘‘sem sentir-se intimidado pelo clássico da dramaturgia, optou por uma adaptação em que os atores pudessem ficar à vontade para usar as situações criadas por Gogol como pretexto para falar de si mesmos, ensaiando uma relação entre seu mundo e o do autor’’.
Havia o cuidado, ainda segundo ela, em desviar o ator de uma interpretação realista. ‘‘O ator tomava os aspectos do papel que mais lhe interesassem, criando um trampolim para colocar-se em cena da maneira mais completa e mais espontânea possível. O grupo considerava a personagem um sério limite para o ator, que deveria usá-la para mostrar a si mesmo em cena’’.
Foi com a peça ‘‘Trate-me Leão’’ que a trupe carioca empolgou crítica e público. O grupo mostrava um trabalho sobre o cotidiano da geração que completava 20 anos na década de 70, invadindo a cena com temática, personagens e modo de representar que definiam novas colocações diante de questões como política, sexo, drogas, prazer e teatro.
‘‘A novidade do trabalho’’ – salienta Sílvia – ‘‘era a maneira nova de mostrar em cena a experiência comum. O Asdrúbal transformava um modo de vida em código teatral’’. Na construção dos espetáculos, a trupe assume uma postura francamente antiintelectualista. No tratamento das soluções cênicas, o Asdrúbal prefere os achados espontâneos, as tiradas de humor e os gestos irrefletidos.
‘‘Nesse sentido, Grotowski é modelo de criação tanto quanto Mick Jagger’’ – nota a autora. O grupo usa os métodos ou teorias teatrais da mesma forma que empresta informações culturais colhidas do cinema, poesia, música e vivência cotidiana. A abordagem, calcada no improviso e em colagens pop, se reproduz em vários grupos surgidos no período.
Não é o caso do Ornitorrinco que, desde o primeiro espetáculo aponta a necessidade dos estudos teóricos e conhecimento da tradição teatral, com ênfase nas vanguardas históricas do início do século. O grupo foi fundado em 1977 por Cacá Rosset, Luiz Roberto Galizia e Maria Alice Vergueiro. Passaram por Strindberg, Brecht e atingiram o ápice com Alfred Jarry.
Estourou bilheterias e esticou temporadas com o espetáculo ‘‘Ubu, folias physicas, pata physicas e musicaes’’. No grupo, discussões e troca de idéias (até mesmo por telefone) substituíam o ensaio propriamente dito. Cortava-se o que se achava supérfluo, acrescentava-se, estudava-se a fundo o autor, sua época, seus contemporâneos, tudo quanto a ele estivesse relacionado – sempre em função de atingir o âmago da obra do dramaturgo.
Nos últimos anos, o Ornitorrinco incorporou a concepção de um espetáculo ‘‘mágico’’ valendo-se de velhos truques pirotécnicos, acrobacias e efeitos-surpresa. A exemplo do Asdrúbal, o grupo recebe enfoque especial da autora, que reconstitui passo a passo seu percurso. Os demais representantes da tendência – Pod Minoga, Mambembe, Ventoforte etc – são agrupados e examinados em um único capítulo.
Avançando na trajetória, Sílvia assinala que a década de 80 marca um refluxo na tendência de cooperativas teatrais prevalencendo uma orientação para o individualismo na condução dos trabalhos. Paulatinamente – escreve ela – começam a surgir espetáculos de encenadores (com o nome de Gerald Thomas à frente) que concebem solitariamente um projeto estético centralizando sua execução.
Ao final do volume, ela ressalta que boa parte da produção atual dos artistas analisadas ‘‘é herança da criação coletiva’’. O livro tem 274 páginas. Inclui prefácio da crítica e pesquisadora de teatro Mariângela Alves de Lima e texto de apresentação de Maria Thereza Vargas. Além de ‘‘Grupos Teatrais Anos 70’’, Sílvia escreveu ‘‘Memória e Invenção: Gerald Thomas em Cena’’.
‘‘Grupos Teatrais Anos 70’’, de Sílvia Fernanades, Editora da Unicamp. Fone (19) 788-1015. Fax: (019) 788-1100. www.editora.unicamp.br

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