Anônimas da voz
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
As dezenas de vozes londrinenses que embalam vinhetas comerciais e jingles de campanhas políticas, tanto em rádio como em televisão, raramente saem do anonimato. Formado em sua maioria por mulheres, o universo musical envolvido nos ramos da publicidade e do marketing é pouco conhecido do grande público, embora garanta o ''ganha-pão'' de alguns artistas atuantes no circuito de shows da cidade.
A cantora Aline Lima, que é vocalista do Acústico Blues Trio e do Menina dos Olhos Blues Band, trabalha há quase dois anos nesse segmento. Já fez fonogramas publicitários e políticos. ''Gosto de gravar jingles, acho divertido. Tudo é muito rápido dentro do estúdio. O problema é que é um negócio meio arriscado porque seu trabalho nem sempre é remunerado. Às vezes, pode acontecer de um cliente não aprovar o resultado e aí você não recebe nada'', diz.
Ela se apresenta com frequência no Tomate Seco Café Teatro com o Acústico Blues Trio, que é formado ainda pelos músicos Kiko Jozzolino e Jr. Com o grupo, aliás, lançou recentemente um CD. Quase simultaneamente, lançou um CD ao vivo com a Menina dos Olhos Blues Band. Seu outro projeto musical é o Coral Ébano, cuja agenda de shows é direcionada para casamentos.
Aline é enfática: ''Não trocaria minha atuação nesses três grupos para me dedicar apenas ao trabalho com jingles, que pra mim é mais um hobby do que uma prioridade profissional''. A cantora Jemima Fernandes, por sua vez, considera-se hoje uma ''free lancer'' no segmento publicitário após estrear no metiê como ''cantora de jingles''.
Ela afirma que deixou de atuar com mais regularidade no meio por razões de mercado. Segundo a moça, de uns tempos para cá, as empresas e políticos passaram a contratar estúdios dos grandes centros para produzir os temas. ''Apesar disso, de vez em quando, sou convidada a compor algum material para campanhas políticas. Eu faço tudo: voz, letra e melodia. O processo de criação é igual ao de compor uma canção autoral. Se eu for fazer, por exemplo, um tema sobre um biscoito, eu tenho que passar emoção e tocar o coração do ouvinte para persuadí-lo a comprar o produto'', sublinha.
Mais atuante nesse segmento, a cantora Meire Rodrigues levou boa parte de sua carreira emprestando a voz para mensagens publicitárias. Desde 1990, trabalha na área recheando o currículo com diversas peças de locução para campanhas políticas. ''Morei oito anos em Campo Grande (MS) e sobrevivi lá gravando jingles e backings em discos de artistas dos mais diversos gêneros, do sertanejo ao axé. Hoje vivo como locutora de comerciais de rádio e televisão'', diz.
Na semana passada, ela cantou no Bar Valentino para um tributo em homenagem a Elis Regina. ''Há muitas diferenças entre cantar em palco e gravar jingles. Uma cantora de palco pode usar a voz, atuar e interpretar da forma que quiser. No estúdio, não existe essa liberdade. Ali ela não pode sobressair, não pode se destacar. Ali ela tem que se anular'', assinala.
Meire vê a atividade como um exercício para quem faz backing vocals. ''A gravação de material publicitário aperfeiçoa a capacidade de fazer outras vozes que não a principal'', salienta. O motivo é o processo de dobrar as vozes, no qual um mesmo tema pode exigir o registro de diversos tons sobrepostos do intérprete.
Desiludida com o panorama musical brasileiro, a cantora renunciou a planos ambiciosos para a carreira. ''Não tenho mais sonhos, perdi o foco'', afirma. ''A indústria fonográfica nacional só valoriza música descartável, de fácil assimilação. O sertanejo domina o mercado. Eu gosto de música popular brasileira e ela não é o estilo que esse mercado pede. Por isso, optei por trabalhar como uma pessoa comum, encarando a música como outro trabalho qualquer. E o trabalho em estúdio é prazeroso, embora a remuneração e os cachês sejam menores em Londrina do que em Campo Grande (MS).''


