Ano novo, corrida velha
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de janeiro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Vá lá: é começo de ano, início preguiçoso de temporada, faltam títulos mais consistentes, o circuito ainda curte a ressaca de muitas e milionárias magias. Neste morno vácuo que antecede a chegada de filmes de maior peso - os tais oscarizáveis - é até possível afrouxar um tanto os rigores das resenhas e pegar pouco mais leve nos lançamentos intermediários que aí estão para cumprir tabela. É o caso de Tá Todo Mundo Louco (veja a programação de cinema nesta página), uma comédia retrô que, se não é nenhum monumento, também não envergonha as boas - atenção: boas, e não melhores - tradições do gênero.
Cinquentões em geral com certeza se lembram dos cinemas abarrotados, tremendo nos alicerces com a cúmplice corrente hilária diante de elaborados filmes de perseguições e caça ao tesouro, como Deu a Louca no Mundo (1963, Stanley Kramer) e A Corrida do Século (1965, Blake Edwards). Este Rat Race assinado com veemente bom humor por Jerry Apertem os Cintos... Zucker não apenas passeia com mimética desenvoltura pelo território da generalizada correria dos sixties como ousa voltar ainda mais no tempo, ao império das absolutamente insanas comédias do cinema mudo - de destruição e de desastres.
Ainda que o filme não consiga evitar algumas cruezas e grosserias contemporâneas, por outro lado um bom número de gags resultaria bastante familiar, por exemplo, a Buster Keaton, Max Sennett e aos Keystones Cops.
É um antigo e ainda muito eficaz mandamento da comédia: os primeiros dez minutos devem ser conduzidos com seriedade. Por que? Simples: não cansa a platéia que, se exausta por um ritmo frenético logo de saída, a partir daquele décimo minuto não teria para onde ir. Com mais prudência que sabedoria, a abertura de Tá Todo Mundo Louco segue o manual: num cassino de Las Vegas, lá estão eles, ainda compostos, os personagens que vão movimentar a roda da fortuna. Um bilionário excêntrico (John Cleese, dos Monthy Python) escolhe seis pessoas ao acaso. Entrega a elas seis chaves e informa apenas que a exatas 563 milhas dali, numa estação de trem em Silver City, Novo México, está um cofre com dois milhões de dólares. Quem chegar primeiro leva a bolada. E a única regra é: não existem regras, o que significa que vale absolutamente tudo.
Gags visuais predominam e são aqui particularmente inventivas, levadas a tempo e hora por gente que sabe como funciona o mecanismo do riso. Com um extra de atenção, o espectador acaba premiado, entre muitas, com piadas que se completam ao longo desta narrativa em que todos são um pouco loucos, mesmo aqueles que aparentemente não são. Claro que um elenco homogeneamente afiado é parte essencial de um esquema que busca o riso sem tréguas. Não basta profissionais de calibre apenas atrás da câmera, como o diretor Zucker e o roteirista Andy Breckman, veterano de Saturday Night Live. Atores com precisão de timing também são peças vitais na engrenagem. Como por exemplo Rowan Atkinson, aliás Mr. Bean, vivendo o gentil e patético turista italiano Enrico Pollini, alguém com um inglês claudicante e com tendências incontroláveis ao sono. Pura genialidade. Ou Whoopi Goldberg como a alma boa que acaba de recuperar a filha que deu em adoção há 27 anos; ou um surpreendente Cuba Gooding Jr., encarnando o azarado treinador que cometeu a mais grossa besteira na história da liga de futebol americano.
Há obviamente uma tendência ao frenesi, ao congestionamento de situações destinadas a provocar hilaridade na platéia. Mas até isso o irresponsável espírito de férias consegue assimilar. Pena que no Brasil os drive-ins nunca foram adiante: é para filmes ao ar livre como estes que eles foram feitos.


