Ano Novo ao redor do mundo
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sábado, 29 de dezembro de 2018
Marian Trigueiros <br> Reportagem Local 
A virada do dia 31 de dezembro para o dia 1º de janeiro é comemorada em vários países, principalmente ocidentais, por ser considerada uma das datas que carrega maior simbolismo de recomeço, renovação das esperanças, planos e projetos. Geograficamente, chega mais rápido às regiões localizadas em áreas com fusos horários adiantados, como a Antártida, continente no polo sul do planeta. E, ao redor do mundo, são inúmeras as diferenças nas comemorações, sobretudo, devido às características culturais de cada lugar. No entanto, há - ainda-, aqueles que festejam a passagem em outra data fundamentada em calendários que não o Romano/ Ocidental (como no Brasil), mas considerando o Calendário Chinês, por exemplo, que é lunissolar e com base no zodíaco chinês. Neste caso, em geral, o Ano Novo é comemorado em meados do fim de janeiro e começo de fevereiro em vários países do Oriente.

Assim foi a última celebração de Ano Novo da jornalista londrinense Paula Resende e do marido, também jornalista, que passaram o Ano Novo Chinês na antiga cidade de Saigon, hoje Ho Chi Minh, no Vietnã, onde adotam o calendário chinês. "É uma festa muito colorida, alegre, a cidade estava toda enfeitada com flores e alegorias fazendo referência ao Ano do Cachorro. Ficamos na rua até de madrugada com muitas pessoas celebrando, cantando karaokê em frente das casas e com muita comida e bebida", conta. A festa começou em 16 de fevereiro de 2018 e seguiu pelos dias seguintes. "Eles costumam festejar por uma semana e muitos vão fazer suas orações e oferendas nos templos de diferentes religiões (taoistas, budistas, confucionistas, animistas, etc.). Para o turista de curto prazo, não é uma boa época para se viajar, pois tudo fecha. Se você se permite curtir com eles, é muito divertido", lembra.

A passagem pela cidade vietnamita, em fevereiro, foi apenas um dos trechos que o casal conheceu durante uma viagem ao mundo que acabou recentemente, há pouco mais de um mês, e durou um ano e sete meses. Antes de chegar lá, vinham de um Ano Novo e Natal nada parecidos com o que acontecem no Brasil. "Essas datas são bastante cristãs e ocidentais. Não nos tocamos que, para a metade do mundo, elas não fazem o menor sentido. Passamos ambas em Myanmar, um país majoritariamente budista que faz fronteira com China, Laos, Tailândia, Bangladesh e Índia - onde também o Natal não é celebrado", diz. O Ano Novo, a jornalista conta que foi o dia em que chegou a um centro de meditação e iniciou um retiro de sete dias. "Fui dormir no dia 31 de dezembro às 20h30, pois teria que acordar às 4h da manhã no dia seguinte para meditar e iniciar uma série de atividades. Foi uma experiência que marcou a minha vida e deixou frutos que colho até hoje."
Antes, no Natal (cristão), Resende e o marido haviam passado a data caminhando com um grupo de turistas e dois guias locais por vilarejos e montanhas próximas a um grande lago do país, o Inle Lake. "A família birmanesa que nos hospedou no dia 24 para 25 de dezembro nem sabia que era uma data especial. Jantamos uma comida muito gostosa, cheia de vegetais e sem carne, pois são budistas, e fomos dormir cedo por conta do cansaço da caminhada." Recém-chegados ao Brasil, os dois passaram o Natal de 2018 em Londrina com a família e seguem para a cidade de Cuiabá (MT). "Iremos a Campo Grande, cidade onde mora meu pai, amigos e familiares. É uma oportunidade de rever muitas pessoas, já que ficamos tanto tempo longe. Pessoalmente, Ano Novo não é uma data que eu atribuo grande importância. Mas gosto do clima de festa e de união, um momento de estar com quem eu gosto", conta ela.
Outros países
A viagem do casal pelo mundo começou em março de 2017 pela América Latina, passando por países como Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Panamá. De lá, passaram pelos Estados Unidos para seguir ao continente asiático, onde conheceram países como Indonésia, Malásia, Tailândia, Myanmar, Laos, Camboja, Vietnã, China, Nepal e Índia. A experiência deu continuidade na África, passando pela África do Sul, Moçambique, Zimbábue e Botsuana, e terminou na Europa, com passagem pela Inglaterra e Portugal. "Uma viagem de longa duração é motivada por diversas razões. A principal foi a vontade de desacelerar e focar um período das nossas vidas em nosso crescimento pessoal e humano e repensar nossas escolhas como indivíduos e como casal. Também influenciou o fato de estarmos concluindo um ciclo profissional, o que abriu uma janela de oportunidade para desapegarmos de tudo e sair viajando", detalha Resende.
Neste destino, que totalizou em 22 países, optaram por ficar hospedados em comunidades e realizar serviços voluntários que, no primeiro momento, segundo ela, não foram puramente altruístas. "Um dos motivos foi financeiro, pois era uma forma de trocarmos nosso trabalho por hospedagem e, muitas vezes, por alimentação também. Isso barateou consideravelmente a viagem. Outro foi pela experiência, pois é inegável que, dessa forma, a troca com as pessoas, com a natureza e a cultura local é muito mais profunda e verdadeira. Com o tempo, essa prática se tornou o grande motivo para seguirmos viajando e foram esses momentos os mais inesquecíveis da viagem." Prestes a recomeçarem a vida profissional no Brasil, a princípio em Curitiba (PR), a jornalista diz que continua a mesma de sempre, porém, um pouco mais consciente de quem é e do seu pequeno papel no mundo. "Essa reflexão não é atingida apenas viajando e não se encerrará com essa volta ao mundo."

Experiência
Depois de conhecerem vários continentes, ela afirma que, sem dúvida, os países asiáticos são os que mais rompem com o padrão e cultura ocidental. "Países pouco conhecidos dos brasileiros, como o Laos, Indonésia, Myanmar (antiga Birmânia) - todos na Ásia - são extremamente conectados com a espiritualidade - budista e islâmica - e isso impacta em todos os seguimentos da vida cotidiana e cultural. A China também é bastante interessante e difícil de traduzir em uma só viagem. Poderia voltar lá todos os anos e veria um país diferente", complementa. O Ano Novo Chinês 2019 será comemorado em 5 de fevereiro, considerado o Ano do Porco, elemento água. De acordo com o horóscopo chinês, será um período de muitas mudanças no mundo e na vida das pessoas, mas, por mais complicado que seja, trará muitas lições de amor e paciência.
Dentre as experiências que o casal teve nessa jornada, ela destaca a mais recente, que foi morar em Norton, nos arredores da capital do Zimbábue (África), com uma família extremamente humilde, sem água e esgoto, "mas com o coração enorme". "Lá, trabalhamos documentando as histórias de vida de jovens mulheres e crianças em situação vulneráveis, como casamento e gravidez precoces, e que necessitam de ajuda para se manterem na escola ou se capacitarem para sustentar suas famílias, sem nenhum apoio masculino. A taxa de desemprego do país passa de 90%, a economia sofre com a hiperinflação e não há saúde e educação gratuitas. É uma realidade de se cortar os pulsos, mas enfrentada com muita resiliência e, por incrível que pareça, bom humor e otimismo por eles", pontua.
Conheça as datas do Ano Novo em diferentes culturas
CHINA
Quando: Fim de janeiro ou começo de fevereiro
Os chineses seguem o calendário lunar, elaborado com base no tempo que a Lua leva para dar uma volta em torno da Terra - cerca de 29 dias e 12 horas, mas também utilizam seu próprio calendário, baseado no zódiaco chinês. Antes da celebração, é tradição limpar a casa para afastar os maus espíritos. À meia-noite da virada, todos comem o guioza, um pastel típico. As festividades duram um mês e incluem desfiles e show pirotécnico.
JUDAÍSMO
Quando: 1º dia do mês de Tishrei (meados de setembro)
Tishrei é o nome do primeiro mês do calendário judaico, no qual se comemora o Rosh Hashaná, o Ano-Novo judaico. A data é determinada pelas fases da Lua e é festejada durante dois dias com uma farta refeição. No banquete, carnes ensopadas e doces de frutas e mel, para atrair um ano doce.
HINDUÍSMO
Quando: 1º de março (sul da Índia), 1º de outubro (leste e no centro indiano) e 14 de abril (comunidade tâmil)
A Festa das Luzes, o Réveillon hindu, dura cinco dias. A comemoração incluiu lamparinas, incensos e fogos de artifício para afastar as forças do mal. O Ano-Novo hindu varia entre as regiões da Índia, dependendo do estudo dos astros, e celebra o retorno da deusa da prosperidade, Lakshmi.
ISLAMISMO
Quando: Diferente a cada ano
No ano de 622 d.C., Maomé deixa Meca e vai para Medina. A hégira, como o episódio ficou conhecido, determina o início do ano islâmico - ou 1º de Muharram. Durante a celebração, que dura dez dias, são realizados atos de compaixão e jejum. Como utiliza calendário lunar, a virada do ano é comemorada em datas diferentes todos os anos.
FÉ BAHÁ'Í
Quando: Entre 2 e 20 de março
A religião, que teve origem na antiga Pérsia (atual Irã), segue um calendário astronômico que tem 19 meses com 19 dias. Em meados de março, os bahá'ís celebram o Ano-Novo. Um período antes da comemoração, eles se purificam espiritualmente e costumam fazer jejum, que só termina quando o Sol se põe - indicando o início do novo ano.
WICCA
Quando: 31 de outubro
Os praticantes da religião neopagã Wicca, difundida a partir da década de 1950, comemoram o fim de um ano e o começo de outro no último dia de outubro. Na data, são realizados rituais em altares para recordar aqueles que já morreram e eliminar as energias negativas. Velas, incensos, maçãs, vinho quente e pratos com abóbora e carne fazem parte da celebração.
THELEMA
Quando: 20 de março
A corrente celto-xamânica comemora o Ano-Novo no dia 20 de março, ou numa data próxima. A virada coincide com o Banquete pelo Equinócio dos Deuses, época em que o Sol passa de um hemisfério para o outro.
Fontes: Departamento de Geodésia da UFRGS; embaixada indiana; Comunidade Bahá'í do Brasil; Dicionário Hebraico-Português (Edusp, 1995); Casa de Bruxa - Universidade Livre Holística; Ordo Templi Orientis Brasil - Ordem do Templo do Leste/Ordem dos Templários Orientais.


