Rio, 29 (AE) - Os originais de um livro inédito do escritor, antropólogo e folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) estão desaparecidos desde o fim da década de 70. "Geografia da Superstição" foi escrito entre 1976 e 1978 e reúne ensaios de diversos intelectuais brasileiros acerca das superstições nas diversas regiões do País e em diferentes atividades, como o teatro e o esporte. O livro contém textos do ator Procópio Ferreira e o do escritor Raimundo Nonato, entre outros.
A existência do livro foi descoberta este ano pelo pesquisador de literatura Roberto Silva que encontrou referências aos originais em cartas também inéditas enviadas por Câmara Cascudo ao advogado e ex-integrante da comissão de juristas da Federação Internacional de Futebol (Fifa) João Lyra Filho, um dos fundadores da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Roberto Silva teve acesso à correspondência por intermédio da viúva de Lyra, Maria Isabel, e está reunindo as cartas para a futura publicação de um livro.
"Em carta de 15 de outubro de 1976, ele anunciou que havia começado a fazer pesquisas para um novo livro que se chamaria Antologia da Superstição", contou Silva. Nessa carta, Cascudo solicitou a João Lyra um ensaio sobre a superstição na Paraíba, Estado natal do advogado. Em uma nova carta enviada a Lyra cinco dias depois, o pedido é reiterado e o escritor acrescenta que gostaria de receber também um texto sobre a superstição nos esportes. "Em duas cartas subsequentes, ele norteia a participação do amigo", afirmou Silva.
Curioso sobre os originais, Silva começou a pesquisar outras cartas de Cascudo. Encontrou referências ao inédito em correspondência enviada ao escritor Raimundo Nonato - que está publicada no livro Apostila do Afeto. Cascudo também pediu a Nonato, em carta de 13 de outubro de 1976, contribuição para o trabalho: queria do escritor ensaios sobre as superstições no sertão, no agreste e no litoral do Rio Grande do Norte. A partir desse momento, Cascudo já trata o livro de Geografia da Superstição.
Em carta datada de 30 de outubro, há nova referência ao tema: Cascudo conta a Nonato que tinha pedido a Procópio Ferreira uma contribuição sobre o teatro e que já havia recebido de Meira Pires um ensaio sobre o mesmo tema. Finalmente, em correspondência a Lyra Filho de 23 de fevereiro de 1978, Cascudo contou que assinou contrato com a editora LTC e afirma que já enviou aos editores "a tralha dos 35 capítulos". Em 6 de novembro de 1979, Cascudo escreveu a Nonato dando as boas novas: "A superstição no Brasil, com a sua colaboração, já está no prelo."
Roberto Silva mostrou o resultado de suas pesquisas à filha de Câmara Cascudo, Anna Maria Cascudo Barreto. "Fui à sede da editora, no Rio, mas não consegui nada", contou ela, que continua buscando os originais. A editora Clara Diament, responsável pelos títulos da LTC, informou que não há no catálogo da casa nada de Câmara Cascudo. "Na época, a LTC era associada à editora Ao Livro Técnico, pode estar havendo alguma confusão", lembrou. A Ao Livro Técnico, no entanto, informou também não ter nenhum registro de Cascudo. O escritor tinha por hábito não tirar cópias de seus originais.
Entre os títulos relacionados na bibliografia de Cascudo existe um intitulado Superstição no Brasil, lançado em 1985 pelas editoras Itatiaia, de Belo Horizonte, e Edusp, de São Paulo. O livro, de acordo com informações de um site sobre o escritor elaborado pela prefeitura de Natal, oferece em um só volume tudo o que Cascudo escreveu sobre superstição, reunindo os escritos dos seguintes livros: Anubis e Outros Ensaios (1951)
Superstição e Costumes (1958) e Religião no Povo (1974). "Esse livro é uma reunião de outros três trabalhos", explicou Silva. "Com certeza, não se trata do inédito."
O pesquisador não sabe explicar, no entanto, por que o próprio Cascudo não procurou pelos originais de seu livro, uma vez que ele morreu sete anos depois da data em que enviou o inédito à editora.

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