Animação 'tradigital' ?
Na entrevista coletiva à imprensa, mês passado, no Festival de Cannes, logo após a premiSre mundial de Spirit - o Corcel Indomável o produtor Jeffrey Katzenberg o K da trindade SKG (com Steven Spielberg e David Geffen) que comanda a DreamWorks descreveu o filme como uma mistura de técnicas: a tradicional, hand made, e a de ponta, digitalizada. E batizou-a ali mesmo de tradigital. Bom discurso, prática sofrível.
Filmes como Shrek e Monstros & Cia parecem não ter deixado muitas dúvidas de que o futuro da animação vai ser mesmo nos domínios das imagens geradas por computador. Trabalhando mais com mouses do que com mickeys, isto é, mais placas, chips e modens e menos lápis, pincéis e pranchetas, os animadores estão agora podendo criar volumes, texturas e espaços com sólida definição tridimensional, fazendo com que velhas técnicas de repente pareçam frágeis e desinteressantes. Em Spirit as figuras são parte feitas à mão, à velha maneira, parte desenvolvidas por computação. A título de argumento, temos o personagem-título (no original dublado por Matt Damon), um potro selvagem e independente na vertente Bambi (mão amorosa, pai ausente). Capturado e entregue a um coronel da cavalaria, o animal não se deixa dominar, assim como um jovem e altivo índio, Little Creek. Os dois fogem em busca de aventuras, naquele que Katzenberg, no mesmo dia, hora e local, chamou de a conquista do Oeste do ponto de vista de um cavalo. De novo longe do alvo.
Spirit é claramente um filme de transição, não há porque duvidar. Mas o que dá errado é que idéias e técnicas não batem, história e narrativa se desencontram, fundo e forma se divorciam, há um estéril duelo entre ação eletrizante e inércia angustiante. Com sua mistura de bidimensionalidade (humanos e animais) e tridimensionalidade (cenários e paisagens), tudo parece meio deslocado, em busca de espaço físico e afetivo mais definido. Esta desproporção parece aumentada quando se observa que Spirit não contempla seus personagens nem com o toque humano mais profundo na melhor tradição Disney, nem com a fascinante diversão e o humor high-tech dos mais recentes hits da galeria dos cartuns digitais. Spirit e Little Creek, que poderiam ser símbolos da vida natural ameaçada pelas forças destruidoras da civilização, acabam sendo metáforas de si mesmos, clichês em movimento. As canções xaroposas de Bryan Adams complicam um pouco mais as coisas.





