As honras maiores da abertura de gala do 62º Festival de Cannes não foram como de hábito para grandes atores ou diretores, mas para um longa-metragem de animação em 3D, fato inédito na crônica do evento. Coube a ''Up'', a mais recente façanha da Pixar-Disney, escrever esta página insólita de uma mostra que não tem medo de se reciclar, sempre se amoldando a novos tempos e tendências que desafiam o cinema.
Aliás, são mesmo novos e mais difíceis tempos, esses de agora que vive o festival. Delimitar a dimensão da dificuldade - eis os 3 dês que incomodaram muito a organização este ano, com a crise econômica batendo na areia da Croisette e chegando ao pé da escadaria do Palais. Já se sabe com certeza que esse não é um festival como os outros. Os grandes hotéis da orla não estão lotados, pela primeira vez em décadas. No sempre hiperativo dia a dia dos bastidores, menos iates de luxo no cais de Cannes. Menos baladas milionárias. O número de jornalistas também diminuiu, não muito.
A curadoria usou de ótimo senso, quando fez o convite a ''Up'' para abrir o festival. Além do título sugestivo, e de um recheio feito à base de diversas e ilustres homenagens ao passado do cinema, o filme em si traz esse bom astral de coisa festiva e harmônica. Paginado para a abertura, todos sem exceção ficaram em paz e de bom humor com a alta qualidade cinematográfica.
Antes do início da pré-estréia mundial para a imprensa, um muito bem-humorado diretor geral do festival, Thierry Fremaux, foi ao palco e se desculpou pelo mau tempo que deixou o céu carrancudo e chuviscado ontem pela manhã em Cannes, e pediu à plateia de jornalistas que colocasse os óculos tridimensionais para que os fotógrafos que o acompanhavam fizessem a foto histórica.
Descontada a evidente qualidade tridimensional de ''Up'' (Nas Alturas, será o título brasileiro), o fato é que este décimo longa de animação da Pixar não teria substancial diferença se realizado com tecnologia computadorizada convencional, isto é, em 2D. Isto significa que, na tela, aquilo que dá brilho excepcional e faz do filme uma delícia de se ver é o refrescante ponto de vista, digamos, de carne-e-osso. Nada de super-heroismos, somente personagens geniais, mas antes de tudo palpáveis. Muita ênfase na história, e refinada percepção quanto às necessidades emocionais da plateia - a cada gargalhada deveria corresponder uma lágrima, já dizia o velho Walt Disney.
Depois de um poético, lindo prólogo de dez minutos ambientado nos anos 1930, quase sem diálogos e ao som da já inesquecível trilha musical de Michael Giachino, registrando o amor eterno entre o casal Carl e Ellie, o filme literalmente decola para a grande ação, para a incontida aventura. Agora viúvo, muito ranzinza e em pleno vigor da terceira idade (que ele só vai descobrir quando motivado), o ex-vendedor de balões Carl sai afinal pelos ares atrás do sonho de juventude: encontrar as Paradise Falls, perdidas em algum lugar remoto da América do Sul, imortalizadas em sua imaginação infantil pelo aventureiro Charles Muntz. Ele as encontra, e mais Muntz e outras eletrizantes surpresas.
Logo após a projeção, o diretor Peter Docter, o co-roterista Bob Peterson e o papa da animação moderna, John Lasseter (Toy Story ), falaram por quase uma hora sobre o filme e o futuro da animação - sobre isto, Lasseter considera que, mesmo diante da assombrosa era da 3D a pleno vapor, a volta iminente da animação hand made é um fato a comemorar. Ainda este ano, saem da dourada linha de montagem Pixar os longas ''Fantastic Mr. Fox'' e ''The Princess and the Frog''.
A outra coletiva do dia foi com o júri oficial, este ano composto pelas atrizes Isabelle Huppert (presidente), Asia Argento, Shu Qi, Robin Wright Penn, Sharmila Tagore, pelos diretores James Gray, Nuri Bilge Ceylan e Lee Chang Dong e pelo roteirista Hanif Kureishi. Não há como fugir dos lugares comuns, quando se trata de jurados, que ainda não assistiram nada. Mas todos anseiam por bons filmes, sempre. E são coletivas afinal meio arrastadas. Nos últimos tempos, o melhor registro original talvez seja da presidente Isabelle Huppert. Disse ela ontem aqui que gostaria de ver os filmes no escuro, isto é, sem saber quem assina, seria fascinante.

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