Uma história contada pela religiosa Yá Mukumby, a dona Vilma Santos de Oliveira, liderança no movimento negro e da cultura afro-brasileira muito conhecida na cidade, motivou a realização de um roteiro sobre o mito da criação do universo sob a ótica dos orixás. O resultado foi a animação baiana "Òrunm Àyié", que estreou na última sexta-feira em Salvador, e conta a jornada de Oxalá e outras divindades para cumprir sua missão de criação do mundo.
Toda feita pela técnica de stop motion, a animação de doze minutos possui uma narrativa carregada de simbolismos da cultura afro-brasileira, a qual mostra outra perspectiva do surgimento do universo e do homem, bem diferente da teoria de Adão e Eva difundida pelo cristianismo. O ano mal começou, e o filme já foi premiado, na categoria "Novos Talentos", no Festival Brasil Stop Motion, maior do gênero na América Latina.
O enredo do roteiro partiu do cineasta londrinense Tyago Bezerra, radicado em Salvador (BA) há quase uma década. "Quando morava em Londrina, participava de muitos projetos relacionados à cultura afro-brasileira, como o grupo Capoeira de Angola, grupo de Cultura Popular e de samba de roda. Dona Vilma sempre estava presente e compartilhava generosamente sua sabedoria com inúmeras informações, curiosidades e histórias da cultura africana. Em uma ocasião, contou esse mito da origem do universo pelas mãos dos orixás. Essa história sempre ficou guardada na minha memória", lembra ele, que além de cineasta, também é artista plástico e desenvolveu vários trabalhos com temática afro, um deles esculturas representando os orixás, divindades da cultura africana.
Foi este trabalho, inclusive, que, em meados de 2011, chamou à atenção da amiga Jamile Coelho, que assina a direção do filme com Cíntia Maria. "Ela viu meu trabalho e me propôs desenvolver um roteiro de stop motion com as esculturas, apesar de não terem sido os utilizados no filme. Na hora lembrei de Yá Mukumby e comecei a escrever o enredo baseado na história que havia contado. Entrei em contato com ela algumas vezes para me orientar, mas, infelizmente, antes de mandar o primeiro tratamento do roteiro, ela faleceu. Não chegou a ver nem o esboço."
O trágico ocorrido, no entanto, deu ainda mais forças para que a história ganhasse vida. Outros conhecedores e religiosos deram auxílio e o projeto tomou forma. "A cultura afro-brasileira tem uma tradição oral muito forte, mas é pouco documentada. Esse costume, inclusive, é retratado na própria animação", explica, referindo-se ao griôt, figura que, na África, é o contador de histórias.
Esse griôt, de acordo com a diretora Jamile Coelho, é representado pelo historiador Ubiratan Castro, falecido em 2013, carinhosamente chamado de Bira e muito conhecido na capital baiana. Na animação, ele conduz a descoberta de sua neta Luna à memória viva que é o continente africano, sendo que os deuses Orunmilá, Oduduwa, Exú e Nanã têm papel fundamental para o desfecho da história.
"São duas pessoas importantes que, de certa forma, estão no filme. Além disso, a animação é uma maneira lúdica de divulgarmos a cultura afro-brasileira para que não tenhamos apenas uma versão religiosa dominante", comenta a diretora.

Cunho pedagógico
Uma das características mais importantes, então, é que, desde o início, o projeto foi concebido para ser um instrumento de educação, combate ao racismo e à intolerância religiosa em meio às crianças e jovens. A animação é inclusiva, por meio de recursos como audiodescrição, subtitulação e janela de Língua Brasileira de Sinais (Libras), e, portanto, estará disponível para o público surdo e cego, além de estar em mais seis línguas: Português, Inglês, Francês, Espanhol, Yorubá e Libras. "Esse material paradidático permitirá às crianças e jovens a ampliação da noção de cultura negra trazida da África para o Brasil, proporcionando uma educação que reconheça e valorize a diversidade. Queremos muito que seja distribuído nas escolas", afirma a diretora.

Baixo orçamento
Nem mesmo o baixo orçamento, cerca de 120 mil obtidos por dois editais, desanimou a equipe, que levou quatro anos para concluir o filme. Pelo contrário, foram atrás de cursos de capacitação, doaram tempo e dedicação que não podem ser mensurados, além de conseguirem que o cantor e compositor baiano Carlinhos Brown emprestasse sua voz ao personagem Oxalá.
Com a animação finalizada no segundo semestre de 2015, a equipe visitou vários religiosos afro-brasileiros para mostrar o filme e, assim, coletar depoimentos para a realização do documentário "Òrunm Àyié – Da animação ao Debate" que deve ficar pronto ainda este ano.

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