Desde o último dia 19 de abril vem acontecendo na cidade de Buenos Aires o tradicional festival de cinema BAFICI (Buenos Aires Festival de Cinema Independente), que conta com centenas de obras do mundo todo.



O festival começou com a exibição de Master Gardener, de Paul Schrader (roteirista do clássico Taxi Driver, 1976), que dá continuidade à recente série de filmes do diretor sobre questões políticas contemporâneas, com foco nos Estados Unidos. Se em First Reformed (2017) ele falava sobre aquecimento global e terrorismo, e em The Card Counter (2021) explorava os resultados das torturas de Guantánamo, este novo título traz à tona outro tema espinhoso e atual: a supremacia branca e o neonazismo.


Mais uma vez embalado em uma trama bem simples em sua superfície, que acompanha um jardineiro que toma como aprendiz a sobrinha-neta de sua patroa, o roteiro aos poucos revela suas ambições mais ousadas e políticas.



Schrader é sempre muito bom ao lidar com personagens solitários escrevendo diários e também em criar um ambiente controlado e esquemático apenas para subvertê-lo quando bem entender. A violência catártica que busca alguma redenção também é uma constante em seu trabalho, tanto como roteirista quanto como diretor.



Master Gardeners é um filme que envolve quando cria tensão e tem um cuidado bastante especial com os efeitos sonoros, seja na calmaria do canto dos pássaros nos jardins, seja nos ruídos dissonantes das cenas violentas.



O que o torna um pouco complicado e polêmico é sua visão de redenção possível para um personagem supremacista que é trabalhada de forma relativamente simplista conforme a trama se desenvolve.



Também é uma pena que o filme seja muito melhor em apresentar seus temas do que em de fato desenvolvê-los, já que ao desfecho fica a impressão de que suas discussões temáticas não foram muito além da superfície.



Schrader deixa o espectador com um gosto agridoce de uma narrativa bem conduzida, mas que não contorna algumas simplicidades de seu arco principal e toca de forma rasa em questões complexas. Em todo caso, uma obra autoral e ambiciosa.


PRODUÇÕES LATINAS
Já as produções latinas estão representadas em diversos formatos e gêneros no festival, sendo um dos principais deles a comédia. El Santo, dirigido por Juan Agustín Carbonere, é uma produção argentina sobre um homem que é tratado como divindade por um grupo que fica cada vez maior. Vemos todo um trabalho de marketing feito por sua equipe, com direito até a programa de TV para ele demonstrar seus supostos milagres, e o filme encontra um humor sombrio em suas questões mais sérias.

Imagem ilustrativa da imagem Animação brasileira e comédias latinas são destaques em festival de cinema em Buenos Aires
| Foto: Divulgação



Acaba fazendo um comentário interessante sobre a necessidade que muita gente tem de seguir algum tipo de líder, não apenas espiritual, mesmo que em alguns momentos dê a impressão de ser um pouco fechado demais em si mesmo, como se estivesse se ambientando em um universo paralelo, sem conexão com a realidade.



Filmado com muita intensidade, especialmente no trabalho de som, El Santo é um filme bem particular e original em seu senso de humor que está longe de ser leve e irreverente - busca o riso no lado mais pesado de sua história.



Las Demás, de Alexandra Hyland, é outra comédia feita a partir de assuntos sérios: duas amigas tentando conseguir dinheiro para um aborto ilegal.

Imagem ilustrativa da imagem Animação brasileira e comédias latinas são destaques em festival de cinema em Buenos Aires
| Foto: Divulgação

Mesmo perdendo um pouco o foco na trama principal durante a metade final, esta produção chilena é bem simpática e gera muito empatia com suas personagens. Tem diversas experimentações com material gráfico, como letreiros animados que surgem inesperadamente na tela, e que funcionam por serem bem dosados e sem exageros. Nesse sentido lembra até um filme brasileiro recente, Alice Júnior (2019), de Gil Barone.



Em nenhum momento nega a seriedade do que está retratando, mas tampouco deixa de ter bom humor e respeitar suas personalidades. Não é um filme que parece defender uma tese fechada, já que tem vida própria e diverte pelo senso de humor e pela boa dinâmica entre as atrizes.



A mesma temática sobre direitos reprodutivos é abordada no francês Annie Colère. Ambientado na França de 1974, um ano antes da legalização do aborto no país, acompanha um grupo de ativistas feministas, tendo como protagonista uma mulher casada que tem uma gravidez indesejada.



Mesmo dependendo muito dos diálogos expositivos, o filme tem personalidade visual na ótima reconstrução de época e acerta ao não personificar nenhum vilão unidimensional, se concentrando mais na solidariedade entre as personagens.



As cenas que mostram procedimentos abortivos são incômodas sem precisarem de imagens gráficas, e o filme encontra fortes ecos no tempo presente, em especial nas recentes discussões sobre o caso “Roe v. Wade” nos Estados Unidos.

BRASIL
Já o Brasil marca presença no BAFICI, dentre outros títulos, com a animação Perlimps, de Alê Abreu (indicado ao Oscar por O Menino e o Mundo, em 2016). Encantador do início ao fim, o filme começa como uma típica fábula ambiental sobre dois animais em uma floresta lutando contra a destruição humana, mas adquire contornos mais amplos conforme se desenvolve, tocando em questões políticas e sociais, caindo em um desfecho surpreendente e memorável pela coerência narrativa.



O visual é cheio de cores e vida, e a trilha sonora é igualmente diversificada, diferenciando os ambientes em que a trama se passa. Mesmo bem alegórico em sua jornada, nunca deixa de ser acessível ao público infantil, já que é cheio de humor visual e nunca perde o senso de aventura. Muito original e visualmente deslumbrante.

LEIA TAMBÉM: https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/criaturas-do-senhor-reafirma-o-metoo-3230937e.html?d=1

ALEMANHA
E o melhor filme até o momento do festival foi o alemão Afire, de Christian Petzold, premiado no último Festival de Berlim. Não é de hoje que Petzold é sensação em festivais, mas Afire é, de certa forma, um passo além de seus filmes anteriores. Não digo que seja melhor do que Phoenix (2014), Transit (2018) e Undine (2020), mas tem uma precisão na decupagem e uma segurança em sua condução que demonstram um diretor no auge de sua técnica. E só um diretor tão seguro poderia operar uma virada de tom tão eficiente como a que acontece aqui no terceiro ato.



É impressionante como este filme envolve completamente desde o início, mesmo quando o espectador ainda não entendeu qual história exatamente ele quer contar: a trama se inicia com dois amigos indo para uma casa de praia em um local que sofre com incêndios florestais constantes; um está querendo terminar um manuscrito e o outro preparando um portfólio de fotografias; mas lá eles têm que dividir o espaço com outra moça que está hospedada no local e parece estar namorando um salva-vidas da praia.



Surpreendentemente bem humorado e com um ótimo timing de montagem no uso de “reactions shots” (planos que mostram a reação de um personagem a alguma fala ou ação de outra pessoa), o filme constrói figuras complexas com naturalidade e os leva a um desfecho que mostra como o diretor sempre soube para onde estava indo, provando sua capacidade de nos fazer importar com seus personagens.



Um filme que não dá para dar muitos detalhes sobre a trama, mas que é muito cativante e oferece uma experiência única na sala de cinema.

mockup