São Paulo, 14 (AE) - A partir de terça-feira para convidados, e na quarta-feira para o público, começa em São Paulo a grande mostra do cinema de animação. O Anima Múndi, em sua sétima edição carioca e terceira paulista, apresenta nada menos que 388 trabalhos, em diversos suportes - película em 35 e 16 milímetros, e vídeo, em VHS ou Beta. Desses, 74 são nacionais
sendo 50 na mostra competitiva, 12 na seção Portfólio e mais 12 do núcleo de animação de Campinas. Os estrangeiros vêm de 32 países diferentes. Croácia, Hong Kong e Turquia participam pela primeira vez do evento.
Segundo César Coelho, um dos organizadores do Anima Múndi, a idéia é essa mesma: promover ao máximo a diversidade, contemplando as mais diferentes cinematografias do mundo. "Tentamos colocar lado a lado técnicas e temáticas as mais diversas possíveis", diz. Essa saudável convivência de diferentes procura também quebrar um antigo preconceito, o de que o cinema de animação seria dirigido exclusivamente ao público infantil. "Limitá-lo a esse público alvo é um equívoco, pois hoje em dia a animação é uma das formas mais vitais e plurais da atividade cinematográfica", afirma o organizador.
Vital e também de difícil conceituação. Hoje, o cinema de animação inscreve-se num leque que vai do tradicional desenho animado em papel à computação gráfica e a utilização de atores de "carne e osso", cujas imagens são retrabalhadas a posteriori. É o caso, por exemplo, de "U-Man", do francês Julien Dajez, uma representação ousada do corpo humano, um tanto aflitiva - e que, falando nisso, nada tem de infantil. A técnica de animação de recortes está representada por filmes como o britânico "Humdrum", de Peter Peake, com a história de dois bonecos de sombra que, entediados representam a si próprios... brincando de bonecos de sombra. Um filme criativo, de narrativa circular, divertido e inteligente.
Outra ótima atração é o francês "Au Bout du Monde", de Konstantin Bronzit, historieta sobre personagens que habitam uma casa construída no cimo de uma montanha. Bronzit tira todo o enredo e a graça da situação de uma condição de desequilíbrio geométrico. É outro exemplo de inventividade. Evoca uma série de idéias e sensações sem uma única palavra. "Sand Land", da Alemanha, de Heiko Lueg, trabalha com animação de bonecos. Constrói um enredo de suspense, com o faroleiro de uma ilha deserta sendo atormentado por uma estranha entidade do mal que chega numa noite de tempestade. O forte desse filme é o seu visual de impacto.
"Marie", da belga Corinne Kuyl, usa a técnica do acetado e conta a história de um padre que, em sua igreja, se sente cada vez menos protegido pelas tentações que vêm do mundo exterior. "Bermuda", de šlo Pikkov, é um dos 12 representantes da Estônia, país que ganha homenagem especial neste Anima Múndi. Com a técnica de desenho sobre papel fala de uma sereia e de um marinheiro que vivem entre as dunas de um oceano seco. Universo de fábula, pois a sereia depende diretamente da água que o marinheiro traz para ela todo dia. Mas um dia surge um centauro e o flerte entre ele e a sereia irá produzir uma crise de ciúmes no antigo parceiro.
Entre os muitos títulos da seção nacional, o destaque, mais uma vez, vai para "Amassa Que Elas Gostam", o premiado curta-metragem de Fernado Coster, que mistura animação em massinha com cenas ao vivo. Na história, uma personagem bem "real", vivida pela exuberante Malu Bierrenbach, apaixona-se por um boneco bem-dotado, o ator pornô Valdisnei (voz de Nuno Leal Maia). Uma delícia de filme. A conferir, também, "Vidas Secas", no qual a saga dos retirantes é contada em linguagem de animação.

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