O trabalho de Paulo Freire também se estende a um dos grupos mais originais do país. O Anima, de Campinas, chegou ao segundo disco, ‘‘Especiarias’’, com Freire na viola brasileira. O disco é um achado para quem procura algo fora do comum na música brasileira: reúne excertos do repertório trovador medieval com elementos da tradição oral brasileira, respaldado por bons instrumentistas.
O Anima é uma conjunção de influências que amadureceu em um ótimo resultado. O percussionista Dalga Larrondo utiliza instrumentos do Oriente Médio, enquanto a cantora Isa Taube traz reflexos do blues e Freire do sertão mineiro. Completam a formação atual Luiz Fiaminghi nas rabecas, Patricia Gatti no cravo e Valeria Bittar na flauta doce e kuluta (instrumento tradicional da tribo Kalapalo, do alto Xingu).
No repertório, aparecem surpresas como ‘‘Tupinambᒒ, recolhida por Camargo Guarnieri em Salvador, em 1937; ‘‘Quantas Sabedes Amar’’, do século 13, extraída do Martin Codax. Em uma mesma faixa o grupo é capaz de fundir ‘‘Ó Mana’’ (tradição oral brasileira) com ‘‘La Rotta’’ (anônimo, século 14). Há espaço ainda para modinhas, cantos de trabalho e aboios, além de composições de José Eduardo Gramani (um dos fundadores do grupo), Ivan Vilela (violeiro que já fez parte do Anima) e do próprio Paulo Freire – aqui, aparece novamente a complexa ‘‘Manuelzão’’ com excelente arranjo.
‘‘Especiarias’’ foi gravado em ‘‘one take’’, ou ‘‘ao vivo no estúdio’’, com todos os músicos tocando ao mesmo tempo. Desta forma, a gravação preserva uma das principais características do Anima: a espontaneidade, que abre espaço para improvisos e permeia todo o CD. Ou seja, as interpretações não são engessadas, ganham flexibilidade ao fugir do tempo rígido delimitado pelas partituras.
‘‘Eu fui criando uma cumplicidade muito grande com o grupo. Foi bom para mim, pois eu estava há muito tempo em carreira solo, e tocar em grupo é muito bom. Há uma fusão de influências e a liberdade de ser independente e ter uma linguagem definida’’, explica Paulo Freire.
Com ‘‘Espiral do Tempo’’, lançado em 1997, o Anima ganhou o prêmio APCA como melhor grupo de câmara e o prêmio Movimento de Música Popular Brasileira como melhor CD de música instrumental.
‘‘Especiarias’’ reafirma a linha que o Anima tomou em ‘‘Espiral do Tempo’’ e dá fôlego a um trabalho ao mesmo tempo original e desconhecido. É um ótimo disco. Não é à toa que o grupo está chamando a atenção nos Estados Unidos. Aos curiosos, porém, um conselho: o Anima pode não agradar a todos os ouvidos, principalmente aqueles acostumados às melodias mais digeríveis. O CD pode ser comprado na MCD World Music, Rua General Jardim 618/51, São Paulo/SP, CEP 012223-010. Telefone (11) 257-9744. Home page: www.MCD.com.br. Home page do Anima: www.animamusica.art.br. (R.P.)

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