Angústia elegante
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terça-feira, 11 de fevereiro de 1997
Agência Estado 
Arquivo FolhaCena de Além das Nuvens: visão do homem sobre mulherHá o filme e sua circunstância. Primeiro a circunstância. Além das Nuvens, lançado agora pela VideoArte, representa nada menos que a ressurreição de Michelangelo Antonioni. Ninguém acreditava que ele voltasse a filmar depois do derrame sofrido em 1985 que o tornou praticamente mudo - consegue falar, apenas por monossílabos, com a mulher, Enrica Fico. Muito se comentou, na época, sobre essa cilada do destino: o cineasta da incomunicabilidade tinha se tornado, fisicamente, incapaz de comunicar-se.
Quando esteve no Brasil, em 1994, Antonioni anunciou que voltaria a dirigir, desta vez em parceria com Wim Wenders. Havia dúvidas prévias quanto à autoria desse futuro e hipotético filme: seria uma obra de Antonioni ou de Wenders? Suspeitava-se que o filme funcionaria apenas como uma homenagem, ainda em vida, ao grande maestro de A Noite, O Eclipse, Profissão: Repórter e tantas outras obras que fizeram a cabeça de gerações de cinéfilos.
Todas essas hipóteses se tornam obsoletas quando se vê o filme. Além das Nuvens é puro Antonioni. A partir da origem: são histórias tiradas de um livro escrito pelo diretor, Quel Bowling Sul Tevere: Crônica de um Amor que Jamais Existiu, A Garota, O Delito, Este Corpo de Lama e Não Me Procure.
Alter ego São quatro episódios costurados pela figura de um cineasta (John Malkovich, óbvio alter ego de Antonioni) em busca de motivo para um novo filme. Na primeira história, dois jovens, Ines Sastre e Kim Rossi Stuart, conhecem-se e apaixonam-se, mas nunca conseguem consumar a relação. Na segunda, o próprio narrador entra em cena e conhece uma bela mulher em Portofino, Sophie Marceau. Ela conta um fato estranho de sua vida, o que leva Malkovich a se perguntar se viveu aquela aventura na realidade ou em sonho. No terceiro episódio, há um impedimento de ordem religiosa a separar um interessado Vincent Perez de uma plácida Irene Jacob.
No último, Fanny Ardant e Peter Weller, Chiara Caselli e Jean Reno fazem os dois casais que protagonizam um ato inconsciente de swing. É o único dos episódios que exibe algum sentido de humor. Nos outros prevalece a atmosfera básica que os fãs de Antonioni se acostumaram a sentir em seus filmes: a angústia elegante, o sentido de estranheza no mundo, senso estético aguçado para o sofrimento e a falta de sentido.
Variantes do desejo Há um elo oculto as histórias: a impossibilidade do encontro amoroso pleno. Em todas os episódios, os personagens têm dificuldade para encontrar-se - por isso o primeiro é mais emblemático, embora esse elemento esteja presente em todos. Antonioni constrói as sequências como se o parceiro nunca estivesse onde o outro espera. Há um desencontro fundamental entre os sexos.
Não existe de forma plena aquele mito da fusão total, da outra metade. Antonioni dirige como se fosse consciente dessa impossibilidade. Mas também da inutilidade desse tipo de consciência: para ele o ser humano está condenado a perseguir uma miragem simplesmente porque não pode deixar de agir assim, senão perderia sua condição de humanidade.
O filme é também o ponto de vista masculino sobre a mulher. Não machista mas aquele que assume a mulher como mistério, como enigma insolúvel. As três principais personagens femininas desempenham a função de variantes do desejo masculino. Um desejo que não se cumpre, ou não se realiza totalmente, porque, no fundo, é paralisado pelo temor de seu objeto. Qualquer um sabe que esse é um tema típico de Antonioni, o maior de sua obra. Por isso, Além das Nuvens representa a continuidade de um trabalho.


