De ônibus, metrô ou caminhando, o olhar do fotógrafo paulistano Sérgio Reghin Ranalli, 22 anos, não se anestesiou com a paisagem massacrante da maior metrópole da América do Sul.
Sua cidade natal não lhe serve mais de abrigo, mas rende algumas de suas mais importantes imagens. ''As pessoas e o quanto elas se tornam sem importância dentro daquele cenário de megalomanias sempre me intrigou e queria de alguma forma mergulhar nesta contradição''.
Uma delas, da famosa escadaria da Rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, o catapultou semana passada ao seleto grupo de fotógrafos que conquistou o Prêmio Porto Seguro de Fotografia (com dotação total de R$ 40 mil) que, embora esteja na segunda edição, já se transformou em um dos principais prêmios da área no Brasil.
''Não tinha nenhuma esperança. Concorri com uma foto que fiz na adolescência, quando ainda morava em São Paulo e nem sabia se queria ser fotógrafo profissional'', comentou por telefone, em seu miniestúdio, em Cornélio Procópio, cidade natal da mãe e onde vive desde 1999.
Filho único de um casal de classe média pai administrador de empresas, mãe dona de casa , Ranalli cresceu no bairro onde fez a imagem que pode mudar sua vida profissional. A Pinheiros em preto-e-branco, retratada pelo menino-prodígio venceu na categoria São Paulo, o que significou R$ 7 mil, uma quantia com destino já certo. O estudante do quinto período do curso de jornalismo da Universidade Norte do Paraná (Unopar) irá ''pagar contas'' e ''investir em equipamento''.
A premiação será entregue em uma concorrida cerimônia no próximo dia 5, no Espaço Porto Seguro de Fotografia, nos Campos Elíseos, área central da capital paulista. O jovem fotógrafo confessa que aguarda com mais ansiedade a oportunidade de conhecer a consagrada Cláudia Andujar, vencedora do Prêmio Especial, do que sua própria premiação. Andujar será homenageada pelo conjunto do trabalho realizado junto aos ianomamis, a tribo que a civilização ameaça nos confins da Amazônia. ''Ela é extraordinária, uma das minhas referências'', se entusiasma.
Inevitável, porém, é mencionar a forte influência de dois dos maiores fotógrafos da atualidade no trabalho em P&B de Ranalli: o brasileiro Sebastião Salgado e o francês Henry Cartier Bresson. ''Já fotografava despretensiosamente quando trabalhava em um laboratório, em São Paulo. No horário de almoço, ia para uma megastore ao lado e ficava folheando. De cara, os dois me causaram um grande impacto e aí descobri que queria fazer fotos autorais'', diz o autodidata, que jamais se matriculou em escolas de fotografias ou de arte.
A partir das imagens de Salgado, pegou o gosto pela fotografia documental, de Cartier Bresson, o gosto pelas imagens da vida cotidiana. Amadureceu teoricamente com sua experiência no mundo virtual, no grupo de discussão do site carioca Photosynthesis (www.phosynt.net), idealizado pelo ex-editor do Jornal do Brasil, Flávio Rodrigues, que reúne 60 profissionais da fotografia.
Apesar do pouco tempo de dedicação exclusiva, Ranalli já tem um acervo de cerca de 3,5 mil fotos. Seu primeiro tema foi retratar a terceira idade. Tem um projeto praticamente pronto: ''Faces do Tempo'', composto de imagens que buscam retratar a solidão de velhinhos e velhinhas em asilos da região de Cornélio Procópio. Uma subdivisão, ''Idosos nas Ruas'', mostra a vida dos idosos em contraste com a grande cidade. ''A comparação mostra claramente que há mais tolerância e carinho para quem vive a velhice no interior''. Um trabalho correlato, o ''Traços do Tempo'' (''As pessoas se impressionavam com as marcas da velhice e decidi aproximar em superclose rugas e marcas de expressão''), recebeu menção honrosa no primeiro Prêmio Porto Seguro.
No Projeto ''Trabalhadores'', o fotógrafo capta cenas de operários que se dedicam a profissões em processo de extinção sapateiros, ferreiros, mecânicos de máquinas de escrever. Em outro, ''Construção Civil'', retrata todo o esforço de uma atividade braçal.
Ranalli, repórter fotográfico free-lancer (com fotos publicadas na Folha de Londrina), está montando a Série ''Cores da Solidão'', que explora o vestuário dos idosos, sempre tão coloridos, sempre em busca da atenção perdida com o passar dos anos.
Seu projeto mais irreverente é o ''Auto-retrato''. No trabalho, ele busca a feiúra explícita, usando os piores ângulos a serviço do combate à busca desmedida da estética, do artificialismo em prol do belo. ''Eu mostro o que todo mundo quer esconder''.

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