Na próxima quarta-feira começa o 66º Festival de Veneza. O presidente do júri oficial é o chinês Ang Lee. Entende-se a escolha: além de ser um mestre em seu ofício, nos últimos cinco anos ele foi duas vezes premiado com o Leão de Ouro de melhor filme na mostra italiana - a primeira em 2005 com ''Brokeback Mountain'' e a outra em 2007 com este ''Desejo, Perigo'', que reabre hoje o Cine Com-Tour/UEL (veja a programação de cinema na página 2).
O taiwanês Ang Lee está aqui de volta a seus domínios, às suas origens asiáticas. Não apenas filmando em seu idioma original (mandarim), como também novamente às voltas com um tema recorrente em toda sua filmografia, não importa o argumento ou o período histórico onde se localiza a trama: personagens encerrados na solidão imposta pelos sentimentos reprimidos.
Mesmo que nem sempre atinja o patamar de excelência, como é o caso de ''Desejo, Perigo'', desde seus primeiros filmes o cineasta deixou uma admirável trilha de coerência: ''Banquete de Casamento'', ''Comer, Beber, Viver'', ''Razão e Sensibilidade'', ''Tempestade no Gelo'', ''Cavalgada com o Diabo'', ''O Tigre e o Dragão'' e até mesmo o massacrado ''Hulk''. Prestes a estrear no Brasil, ''Taking Woodstock'' não trai esta quase fixação. ''Se não houvesse sentimentos não valeria a pena fazer cinema'', disse o diretor há dois anos em Veneza, na coletiva que se seguiu a exibição deste filme que não foi tão bem recebido como ''Brokeback''.
''Lust, Caution'' (Luxuria, Cautela/Prudência), título original mais condizente com o espírito da trama, é uma trágica história de paixão na convulsionada China ocupada pelo Japão no início dos anos 1940. Mas este tempo de sofrimento para o povo chinês somente interessa a Lee enquanto marco definidor para dois personagens, a espiã Wong Chia Chi e o ambicioso chefe da segurança do governo colaboracionista japonês, o sr. Yee - maravilhosamente interpretados pela estreante Tang Wei e o sempre impecável Tony Leung, ator fetiche de Wong Kar Wai).
Ambos se vêem envolvidos em uma intensa relação desde logo condenada, já que ela deve matá-lo como parte de um plano da resistência ao invasor japonês. O romance tempestuoso se anuncia com um desfecho doloroso, enquanto o roteiro baseado em novela de Eillen Chang vai desfilando uma mescla de política, história, magia teatral, amor, traição e intenso erotismo. A propósito, as controvertidas cenas de sexo quase explícito, mais que excitantes, representam um apelo desesperado, a síntese amarga de dois seres tentando afugentar o medo, a angustia de viver sob circunstancias de clandestinidade.
Há reparos a fazer a esta obra de Lee. Sua extensão desmedida, por exemplo. Ou o tempo demasiado que a história principal leva para acontecer, tempo que Lee utiliza para esticar o segmento, digamos, das reações patrióticas chinesas - provavelmente por imposição do aporte de capital da China para a produção - que afinal não parecem exatamente claras. Mas há pontos favoráveis, e em bem maior escala. Como a sensibilidade de Lee ao traçar a dicotomia entre modernidade e tradição, plasmada por meio de uma autêntica lição de virtuosismo estético. Ou a fotografia do mexicano Rodrigo Prieto.
Que ''Desejo, Perigo'' é uma história de amor perdido e espionagem qualquer um sabe pela resenha. Ou mesmo pelas frases do pôster à entrada do cinema. O importante é o discurso em torno do amor erótico, desejo de um prazer fugaz que se opõe ao fundamento irremovível prometido e alimentado pelos projetos políticos. Não há nada mais perigoso do que um político apaixonado - é lição atestada pelos escândalos de passado e presente. É desta idéia que se materializa o conflito do filme de Ang Lee, a partir do questionamento: qual dos amantes cederá sua posição, e por que qualquer um deles deveria ?

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