Anemia profunda nas telas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de maio de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br>Especial para a Folha 2 
Lestat, sabem os iniciados, é o vampiro que habita as crônicas literárias (e libertárias) de Anne Rice, uma best-seller que a partir dos anos 60 revisitou o mito das trevas inaugurado em 1897 pelo ainda imbatível Drácula, criação duplamente imortal do irlandês Abraham Bram Stoker, tendo como ponto de partida narrativas históricas e lendas assombradas envolvendo sanguinários líderes na Romênia medieval. Rice, que não escondeu seu aborrecimento diante da adaptação de Entrevista com o Vampiro - e que afinal nem é inteiramente ruim -, realizada em 1994 por Neil Jordan, não deve agora ser convidada para sentar-se à mesma mesa do diretor australiano Michael Rymer. A escritora, no Brasil com tradução ilustre assinada por Clarice Lispector, com certeza anda muito contrariada com o que foi feito de A Rainha dos Condenados. E a rock star Aaliyah, morta em agosto do ano passado aos 22 anos, em acidente aéreo logo após o término das filmagens e a quem o filme é dedicado, não merecia tão deplorável homenagem póstuma.
Em Queen of the Damned, Lestat (Stuart Townsend), nobre francês do século 18 transformado em vampiro por seu mentor Marius (Vincent Perez), é despertado do longo sono numa cripta em Nova Orleans quando ouve os acordes de uma banda de rock. O grupo é obrigado a aceitá-lo como líder, e Lestat torna-se um pop star com insolente linguagem corporal, lotando estádios e saracoteando no palco como uma espécie híbrida, cinquenta por cento Jim Morrison, cinquenta por cento Marilyn Manson. O look é de um top model Versace, na linha decadente-fim-de-milênio.
Como o filme informa em longo fashback, o personagem nunca foi o que se poderia chamar de vampiro feliz. Seu sedutor, o citado Marius, ensinou para a eternidade que vida de vampiro é vida discreta. Opinião de resto jamais partilhada por Lestat, agora disposto a sair das sombras e cair na noite, aproveitando o máximo. Entre os novos prazeres está a sucção do irrigado pescoço de Akasha (Aaliyah, com risível sotaque húngaro de Bela Lugosi), a ancestral rainha da espécie, literalmente a mãe de todos os vampiros. Da depressão à euforia, Lestat torna público seu status vampiresco e anuncia um mega-concerto no Death Valley. A idéia é tirar todos os vampiros do túmulo, quer queiram quer não - e esta quebra do voto de silêncio da confraria coloca o roqueiro orgulhoso e egoísta na lista negra dos colegas. Com isso ele atrai considerável atenção inclusive da bela Jessie (Marguerite Moreau), estudante de fenômenos paranormais há tempos seguindo a pista de Lestat, e com estranhos planos.
Dramaticamente anêmico, A Rainha dos Condenados se ressente até mesmo daquele tipo de adrenalina que, de um modo peculiar que todos já viram pelo menos uma vez um dia, é calibrado pela MTV. O filme desaponta também quando despreza o potencial matriarcado da espécie, sugerido há um século pela Mina criada por Stoker em Drácula e de certa forma compartilhada por Anne Rice nesta crônica mais recente. Da maneira como o diretor Ryman interpreta este conceito, Queen of the Damned passa longe dessas implicações e resulta apenas numa ensurdecedora, vazia celebração do aqui e o agora - o que Tony Scott fez bem melhor em 83, com Fome de Viver, - uma soap-opera sem sentido e sem plasma, um filme seriamente comprometido por uma coleção de tropeços que o desqualificam enquanto pretenso exemplar de um gênero tradicionalmente nobre.


