Lestat, sabem os iniciados, é o vampiro que habita as crônicas literárias (e libertárias) de Anne Rice, uma best-seller que a partir dos anos 60 revisitou o mito das trevas inaugurado em 1897 pelo ainda imbatível ‘‘Drácula’’, criação duplamente imortal do irlandês Abraham ‘‘Bram’’ Stoker, tendo como ponto de partida narrativas históricas e lendas assombradas envolvendo sanguinários líderes na Romênia medieval. Rice, que não escondeu seu aborrecimento diante da adaptação de ‘‘Entrevista com o Vampiro’’ - e que afinal nem é inteiramente ruim -, realizada em 1994 por Neil Jordan, não deve agora ser convidada para sentar-se à mesma mesa do diretor australiano Michael Rymer. A escritora, no Brasil com tradução ilustre assinada por Clarice Lispector, com certeza anda muito contrariada com o que foi feito de ‘‘A Rainha dos Condenados’’. E a rock star Aaliyah, morta em agosto do ano passado aos 22 anos, em acidente aéreo logo após o término das filmagens e a quem o filme é dedicado, não merecia tão deplorável homenagem póstuma.
Em ‘‘Queen of the Damned’’, Lestat (Stuart Townsend), nobre francês do século 18 transformado em vampiro por seu mentor Marius (Vincent Perez), é despertado do longo sono numa cripta em Nova Orleans quando ouve os acordes de uma banda de rock. O grupo é obrigado a aceitá-lo como líder, e Lestat torna-se um pop star com insolente linguagem corporal, lotando estádios e saracoteando no palco como uma espécie híbrida, cinquenta por cento Jim Morrison, cinquenta por cento Marilyn Manson. O look é de um top model Versace, na linha decadente-fim-de-milênio.
Como o filme informa em longo fashback, o personagem nunca foi o que se poderia chamar de ‘‘vampiro feliz’’. Seu sedutor, o citado Marius, ensinou para a eternidade que ‘‘vida de vampiro é vida discreta’. Opinião de resto jamais partilhada por Lestat, agora disposto a sair das sombras e cair na noite, aproveitando o máximo. Entre os novos prazeres está a sucção do irrigado pescoço de Akasha (Aaliyah, com risível sotaque húngaro de Bela Lugosi), a ancestral rainha da espécie, literalmente a mãe de todos os vampiros. Da depressão à euforia, Lestat torna público seu status vampiresco e anuncia um mega-concerto no Death Valley. A idéia é tirar todos os vampiros do túmulo, quer queiram quer não - e esta quebra do voto de silêncio da confraria coloca o roqueiro orgulhoso e egoísta na lista negra dos colegas. Com isso ele atrai considerável atenção inclusive da bela Jessie (Marguerite Moreau), estudante de fenômenos paranormais há tempos seguindo a pista de Lestat, e com estranhos planos.
Dramaticamente anêmico, ‘‘A Rainha dos Condenados’’ se ressente até mesmo daquele tipo de adrenalina que, de um modo peculiar que todos já viram pelo menos uma vez um dia, é calibrado pela MTV. O filme desaponta também quando despreza o potencial ‘‘matriarcado’’ da espécie, sugerido há um século pela Mina criada por Stoker em ‘‘Drácula’’ e de certa forma compartilhada por Anne Rice nesta crônica mais recente. Da maneira como o diretor Ryman interpreta este conceito, ‘‘Queen of the Damned’’ passa longe dessas implicações e resulta apenas numa ensurdecedora, vazia celebração do aqui e o agora - o que Tony Scott fez bem melhor em 83, com ‘‘Fome de Viver’’, - uma soap-opera sem sentido e sem plasma, um filme seriamente comprometido por uma coleção de tropeços que o desqualificam enquanto pretenso exemplar de um gênero tradicionalmente nobre.

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