Anéis ainda mais brilhantes
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de dezembro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
A palavra ''magia'' tem sido usada com tanta frequência para descrever ou rotular filmes e efeitos especiais que parece ter perdido justamente aquele significado, digamos, mágico. Pois prepare-se para justa e etimológica retomada do sentido original. ''As Duas Torres'', segundo capítulo da poderosa trilogia cinematográfica materializada pelo diretor Peter Jackson, devolve mágica genuína à tela grande. A partir de hoje, 365 cópias do filme chegam ao circuito brasileiro (veja a programação de cinema na página 2) para tirar o fôlego e encantar não apenas a extensa, fervorosa legião de tolkienmaníacos, mas também milhares de novos adeptos da seita, agregados a partir da estréia, há exatamente um ano, de ''A Sociedade do Anel''.
A rigor, ''The Two Towers'' não é uma sequela do primeiro filme, ''The Fellowship of the Ring''. É a continuação da mesma história épica, o combate titânico entre o bem e o mal no mítico e atemporal reino da Terra Média criado por John Ronald Reul Tolkien no século passado. E esta segunda parte até redimensiona e consagra as ambições do felizmente fanático Peter Jackson: a ação está ampliada, os personagens, mais numerosos, e as metas a atingir ainda mais espetaculares.
Afinadíssimo, o time comandado pelo diretor neozelandês não decepciona em nenhum momento e cumpre o que tinha prometido na primeira parte, visual e dramaticamente. ''As Duas Torres'' é um filme sobre criaturas fantásticas e os conflitos entre elas e suas respectivas forças, uma narrativa comandada por tão completo e satisfatório encantamento que é magicamente impossível não acreditar no que se vê. Aquilo que é fantástico e o que não é aparecem mixados com impressionante naturalidade, das montanhas da Nova Zelândia, onde ''O Senhor dos Anéis'' foi filmado, à impecável animação computadorizada que eleva a digitalização à categoria de arte.
Depois das últimas e trágicas atribulações ao final da primeira parte da trilogia, a Sociedade do Anel se desmembrou. O humano Aragorn (Viggo Mortensen, em interpretação que o coloca quase no topo da galeria dos heróis românticos do cinema), o anão Gimli (John Rhys-Davis) e o elfo Legolas (Orlando Bloom) saem em busca dos hobitts Merry e Pippin (Dominic Monaghan e Billy Boyd), que conseguiram fugir depois de capturados pelos Orcs. Para surpresa dos três, no caminho encontram o mago Gandalf (Ian McKellen), que reaparece muito vivo e ainda com maiores poderes. Em outra frente prosseguem os hobbits Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean Astin), firmes na disposição de levar o anel até o Monte do Destino e destruí-lo.
Eles têm que passar por Mordor, o lugar onde Sauron tenta dominar a Terra Média com o auxílio do mago Saruman (Christopher Lee). E ainda tentar ajudar Feramir, irmão de Boromir, com reino ameaçado pelo exército de Sauron. Durante a jornada, os três grupos vão encontrando novos personagens, entre eles um ecológico pastor de árvores vivas, os Ents; um atormentado Gollum, prodigioso ser digitalizado, de formas sinuosas e que também ambiciona o anel; o rei Theoden (Bernard Hill), soberano da terra dos homens, alguém enfeitiçado pelo mal, e sua bela sobrinha Éowyn (Miranda Otto), que vai disputar com a princesa Arwen (Liv Tyler) a afeição de Aragorn.
Diante de ''As Duas Torres'', parece muito claro que o espectador está no centro de uma das maiores façanhas da fantasia épica cinematográfica. A crítica americana Pauline Kael, já falecida, disse uma vez que qualquer diretor ''morre'' durante empreitada de magnitude semelhante e ressurge apenas como técnico. Miraculosamente, Peter Jackson não morreu. O realizador está vivo, bem e com certeza feliz, graças à disciplina que soube manter ao longo das filmagens que ao todo consumiram quase 300 dias e quase 300 milhões de dólares. Uma disciplina em especial como ser humano, que soube compreender que os assombrosos efeitos são de fato bons somente quando a serviço da narrativa e do aprofundamento das emoções. Esta disciplina é particularmente importante em ''As Duas Torres'' porque o filme é o meio da trilogia, e o segundo é sempre o mais difícil, correndo mais riscos que os demais.
Trabalhar matéria-prima tão desafiadora requeria um expert. E Peter Jackson não deixa de surpreender como guia seguro para quem é e para quem não é iniciado nas colossais tramas literárias de Tolkien. Ele compreende como nenhum outro diretor seu objeto de desejo e maneja com maestria as potencialidades da imagem como linguagem, proporcionando paralelamente a informação essencial e um ritmo quase sempre intenso e vertiginoso entre as três frentes da narrativa Aragorn, Frodo e a dupla Merry/Pippin.
O roteiro, salvo uma ou outra mínima concessão, trata com respeito o amplo painel de personagens, impedindo que o volume da ação asfixie sua existência. E há, afinal, a grande batalha que toma boa parte do terço derradeiro de ''As Duas Torres''. É um risco calculadamente assumido afirmar que as sequências lembram os combates dos grandes épicos de Kurosawa, ou a formação bélica proposta por Kubrick em ''Spartacus''. O confronto entre o exército de Theoden auxiliado por Aragorn, Legolas e Gimli contra 10 mil orcs durante tenebrosa noite chuvosa remete o espectador a algum lugar muito próximo à representação do inferno que todos tivemos um dia.
Agora é esperar com renovada impaciência por ''O Retorno do Rei'', previsto para lançamento no final de 2003.


