''Anda na moda o que há de mais rastaquera em termos de produção''
Anda na moda o que há de mais rastaquera em termos de produção
Caros Amigos é representante de uma linhagem editorial que vem do Bondinho, Ex, Versus, Opinião, Movimento, O Pasquim; jornais independentes que tinham como substância editorial a discussão do Brasil. Onde Caros Amigos, em um tempo diferente, se diferencia da dita imprensa nanica?
O termo nanica, cunhado pelo craque João Antonio, não cabe no nosso caso ou qualquer outro caso hoje em dia. A chamada nanica, uma imprensa classificada à época, década de 60, como underground, marginal à mídia em geral, florescia nos EUA, na Europa, em razão de um movimento de rebeldia da juventude contra um establishment cultural em estado já de decomposição. No Brasil coincidiu com a ditadura militar, mas se manifestaria, suponho, mesmo em outra circunstância política. Hoje, não é a juventude que está propondo a atitude da rebeldia diante do establishment (global agora), mas uma vanguarda composta de senhores e senhoras cientistas, filósofos, sociólogos, jornalistas, escritores e, principalmente, no caso do Brasil, lavradores - os sem-terra, fenômeno social inédito.
Caros Amigos resgatou a entrevista com a cara do entrevistado. Aquela em que ele aparece com sua própria voz, sem que pareça estar recitando um texto editado pela própria publicação...
Acho que falta muito na imprensa, na mídia em geral, o testemunho, as pessoas dizerem tudo o que sabem e tudo o que pensam sobre o meio em que estão atuando. É preciso coragem e espírito cívico para isso, e a revista tem conseguido despertar nos entrevistados tais sentimentos por meio das entrevistas explosivas, que estão - sem cabotinismo - fazendo história.
A revista tem discutido bastante o Brasil e parece procurar nas vozes de seus entrevistados - Oded Gradjew, Caco Barcelos, Chico Buarque, Mangabeira Unger, Aloysio Biondi, Milton Santos, Baitista Vidal - um modelo de país fora dos conceitos de globalização.
Procuramos realmente discutir a falsa irreversibilidade da globalização, aliás está em discussão o próprio conceito, uma vez que - como já se disse - o que está sendo globalizado é o enriquecimento de uns poucos e a pauperização de muitos.
Como você acha que o Brasil deve se encaixar nesta tal deglobalização ?
O País precisa primeiro encaixar a sua população num estado de bem-estar social, o que pode e deve ser feito a partir de uma postura de soberania, usando uma palavra que fere os ouvidos dos neoliberais. Mas, para isso, é preciso que os que detêm os mecanismos de poder tenham grandeza, predicado que - conforme o lúcido Mangabeira Unger - esses brasileiros não possuem.
Nestes dois anos, o que a revista aprendeu com o leitor?
A revista aprendeu que existe um público, principalmente jovem, muitíssimo interessado nos problemas brasileiros. As cartas, e-mails e faxes que nos chegam de todos os Estados são, não apenas estimulantes, mas de alto significado. Trazem um grau de preocupação com a atual situação, uma vontade de saber mais e um senso crítico surpreendentes. Aprendemos também, pela correspondência dos leitores - e a maioria vem de estudantes e professores - que a universidade brasileira está completamente desmoralizada, o que é muito grave. Não existe nação que possa prescindir de centros de saber.
Dá para vislumbrar transformações no futuro da revista?
As transformações esperadas são o aumento do número de páginas, uma pequena reforma no aspecto gráfico e possíveis encartes, por exemplo do Le Monde Diplomatique (suplemento do diário francês Le Monde) versão em português, de uma publicação feita por jovens jornalistas e artistas gráficos chamada Emplasto Poroso e um Caros Amiguinhos, para crianças, de conteúdo original e muito brasileiro, longe das coisas Disney.
No caso dos segundos cadernos, qual é sua leitura do papel deles hoje. Como você vê a cobertura da imprensa na área cultural?
Os segundos cadernos sofrem da mesma dependência química que os demais cadernos diários. Isto é, a informação ligeira, superficial, quase tudo reprodução de releases sobre filmes, peças teatrais, espetáculos musicais, etc. Na grande entrevista desta nossa edição de Caros Amigos que está nas bancas, Pedro Cardoso, o ator e autor teatral, solta os cachorros nesse tipo de jornalismo preguiçoso e, no caso dele, pernicioso. Pedro (com certeza traduzindo a opinião da maioria de seu meio) fica furioso com a classificação de espetáculos por meio de bolinhas ou estrelinhas - é realmente possível destruir um trabalho de meses, às vezes anos de preparação, com um simples sinal gráfico.
Me parece que há uma banalização generalizada. Um Tiririca vale tanto quanto um Villa-Lobos, isso quando não vale mais. Por que a cultura brasileira merece tão pouco espaço e é tratada de maneira tão banal?
Não há mesmo prioridade para a cultura brasileira, vale o que está na moda e infelizmente anda na moda o que há de mais rastaqááuera em termos de produção artística, seja em qualquer terreno. Deve estar para acontecer alguma coisa, porque a mediocridade há de ter um limite e o País já atingiu o nível mais baixo de exercício da cidadania e espírito crítico, mídia à frente.
Não existe subserviência demais à indústria cultural americana? E o distanciamento absurdo de países latino-americanos, alguns até grudados geograficamente no Brasil?
Não chamaria de subserviência, mas de dominação econômica, que acaba por impor a dominação cultural. A pedra de toque da civilização ocidental é hoje o mercado. Tudo vem andando a reboque do mercado, o raciocínio das pessoas, desde jovens, vem sendo intoxicado por esse veneno que tanto pode intimidar um único indivíduo quanto toda uma nação. Quanto aos nossos vizinhos de língua espanhola, em termos econômicos se encontram, quase todos, na mesma situação de dependência, mas no terreno cultural me parecem menos subjugados, mais ciosos de suas riquezas artísticas e seus costumes.
Vamos para um caso muito comentado: o grampo nos telefonemas do presidente da República e a discussão sobre se é justa a publicação de informações colhidas dessa maneira.
Claro que se não é o jornalista que promove o grampo, é mais que legítimo, uma obrigação profissional, revelar o que foi gravado. Quanto à conduta do jornalista, ela se pauta pela ética e ele deve possuir a noção precisa do que seja ético. Esta noção vem de sua educação e consciência, não de manuais de redação ou de palavrório de políticos profissionais.
Caros Amigos está também na Internet. Essa via moderna de comunicação vem mesmo para democratizar a informação?
Como democracia implica na participação da maioria, ainda não se pode chamar de democrático o papel da Internet, já que a minoria é que possui os meios para utilizar a rede. Mas, sem dúvida, nunca houve melhor ferramenta para democratizar a informação.
Na discussão sobre o papel da Internet na veiculação de informações existem dois pólos fortes: um que acredita que a Internet está aí para democratizar a informação, outro teme que, ao contrário, a Internet possa determinar uma homogeneização do pensamento.
Sou dos que acreditam na primeira hipótese, pois considero impossível, mesmo projetando a força econômica dos superpoderosos do momento, um dia a humanidade chegar à homogeneização do pensamento. A inteligência humana jamais será homogênea. A informação mediata e imediata está contida nessa fantástica entidade, o que por si, só faz imaginar como está sendo e cada vez mais será importante o seu papel para a comunicação.





