Anchieta, um nome na história
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de junho de 1997
Eduardo Afonso Especial para a Folha 
Seu nome brilha de luz meridiana nas primeiras páginas da História Brasil. Seu nome ressoa hoje, em ecos de veneração e reconhecimento, em todos os recantos da Terra do Cruzeiro. Hoje é o 400º aniversário de sua santa morte.
José de Anchieta morreu no dia 9 de junho de 1597 na vila indígena de Reritiba, hoje cidade de Anchieta, na orla atlântica do Estado do Espírito Santo. Nos seus funerais, celebrado na cidade de Vitória - para onde foi transportado por três mil índios plangentes - já lhe foi atribuído o título honroso de Apóstolo do Brasil.
Foi, na verdade, o grande missionário cristianizador de nossos silvícolas. Tendo desembarcado na cidade de Salvador da Bahia, juntamente com o 2º Governador, Duarte da Costa, aqui trabalhou 44 anos sem esmorecimento, e com uma dedicação heróica.
Tendo nascido em Tenerife, a maior ilha do arquipélago das Canárias, nas costas atlânticas da África, aí fez seus primeiros estudos revelando de início aguda inteligência e prodigiosa memória. Seus pais de sangue espanhol, fervorosos cristãos, enviaram-no cedo, tinha 16 anos, para Portugal a fim de continuar seus estudos na já conceituada Universidade de Coimbra. Em três anos encheu os alforjes de cultura humanística revelando também acentuado pendor para a poesia. Sua origem canarina e seus maviosos versos latinos (a língua era obrigatória em Coimbra) mereceram-lhe da parte dos colegas o apelido de canarinho.
Seu trabalho em Salvador foi por três meses somente pois o padre Manuel de Nóbrega o quis em sua ajuda na Vila de São Vicente, no litoral paulista. Foi São Vicente o foco poderoso de sua irradiação apostólica. Aprendeu logo a língua tupi - o nhengatú mais a língua geral - pois sabia que com ela poderia entretecer-se eficazmente com os aborígenes. Escreveu a primeira gramática da Língua mais falada nas costas do Brasil. E a ensinava aos colonos e aos Irmãos Jesuítas, como ensinava também o Latim, o Espanhol e o Português. Não demorou muito em São Vicente. Os evangelizadores não fixam morada, mas peregrinam em busca de almas. E ele era, verdadeiramente, caminheiro audaz do Evangelho.
Eis que Nóbrega o escolheu, com mais de 12 companheiros, para subir a serra - o Caminho dos Índios que se chamou de então o Caminho do Padre José - hoje a conhecida Via Anchieta. Subiu a serra e foi fundar São Paulo, nos altos de Piratininga.
Aí, no Pátio do Colégio centralizou suas fadigas pela civilização e cristianização do Brasil. À imitação do Mestre de Nazaré fez-se tudo para todos. Era médico e enfermeiro, era alfaiate e sapateiro, era cozinheiro e pedreiro.
Foi, acima de tudo e sempre, professor. A despeito de todas as enormes dificuldades - podemos imaginá-las, era o Brasil de 1500 - jamais perdeu o ânimo e a serenidade. Em São Paulo - cidade com o nome do grande Apóstolo pois foi fundada no dia 25 de janeiro, festa do santo - viveu anos de heróica santidade, no sofrimento (veio doente para o Brasil), na mortificação, na humildade e num intenso amor de Deus e dos irmãos. Aí deu começo a leitura de seus célebres Autos - peça teatral à imitação de Gil Vicente a fim de alegrar e educar os indígenas e também os colonos. Depois os escreveu às dezenas e os fez representar ainda no Rio e no Espírito Santo e na Bahia.
Versos latinosSeu maior feito literário foi o Poema da Virgem - 6.000 versos latinos, à guiza de Virgílio e de Ovídio, em cumprimento de voto feito à Virgem caso ela o mantivesse casto na dolorosa permanência de Iperoig onde ficou três meses cativo dos ferozes Tamoios. Venceu as insistentes tentações das índias e escreveu nas areias brancas da praia a vida de Nossa Senhora. O poema é uma maravilhosa transbordância de sua cultura religiosa e humanística. Ainda hoje é obra de inteira e universal aceitação.
Até aí Anchieta era simples Irmão Jesuíta. Só foi ordenado sacerdote, dez anos depois que tinha chegado ao Brasil, em agosto de 1556. Ajudou Mem de Sá na Fundação do Rio de Janeiro e fechou os olhos de Estácio de Sá que morreu em seus braços. Foi por dez longos anos Provincial de todas as Missões do Brasil, de São Vicente até Pernambuco. Visitou-as várias vezes, não em avião veloz ou em confortáveis ônibus, mas no lonbo de cavalgaduras lerdas ou em frágeis embarcações.
Os derradeiros anos de sua vida passou-o na vila de Reritiba, doente mas dedicado em extremo aos indígenas, em suas urgentes e penosas exigências. Queria ser mártir e como não o conseguisse desejou morrer nas selvas buscando almas para Cristo.
José de Anchieta foi grande demais para ser esquecido pelos brasileiros. Nos 400 anos de sua morte a Terra de Vera Cruz celebra-o com amor e gratidão. E sua imagem há de se gravar indelével e luminosa em toas as mentes e corações. Ele, beato e brevemente santo, será do Brasil o sublime modelo e o forte protetor.Leia mais sobre José de Anchieta na Folha Turismo.


