"Anatomia de uma Queda": um psicodrama em cartaz em Londrina
Filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes não é um panfleto e não tenta instruir, mas é ambíguo, misterioso e perverso
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de fevereiro de 2024
Filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes não é um panfleto e não tenta instruir, mas é ambíguo, misterioso e perverso
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

O título do psicodrama da cineasta francesa Justine Triet – Palma de Ouro em Cannes/23 com grandes chances de Oscar e em exibição em Londrina – deveria começar com “autópsia” em vez de “anatomia”, devido à abordagem forense à discórdia conjugal e à justiça criminal. A configuração: a queda fatal, em um chalé de esqui nos Alpes franceses, de um escritor deprimido e frustrado tem marcas de suicídio. A esposa do homem, ela uma autora de sucesso cujos livros incluem vislumbres autobiográficos, e o filho de 11 anos do casal (Milo Machado Graner), que tem problemas de visão, exibem uma dor convincente. A investigação oficial que se segue e as cenas combativas nos tribunais levantam dúvidas, no entanto, especialmente depois de surgir uma gravação secreta. Não há uma solução fácil para esta batalha de percepções; até o cão de estimação precisa de um álibi.

A escritora Sandra Voyter (a alemã Sandra Hüller, fantástica) é indiciada pelo assassinato do marido Samuel (Samuel Theis) depois que o corpo dele é encontrado fora da casa deles nos Alpes. Ela afirma sua inocência – mas à medida que o julgamento se desenrola, verdades dolorosas sobre o casamento são reveladas. Este ano, com este seu drama de tribunal “Anatomie d’Une Chute”, Justine Triet se tornou a terceira diretora mulher a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, seguindo os passos de Jane Campion e Julia Ducournau. Em contraste com os fluidos corporais do sueco “Triângulo da Tristeza” premiado em 22 , este é um filme até que bastante calmo – na camada da superfície, embora o vômito prove ser uma evidência importante no filme. Acidente, suicídio ou assassinato? A atriz Hüller dá credibilidade a todas as possibilidades ao mesmo tempo, interpretando Sandra como uma mulher frágil e afetuosa com o filho Daniel (Milo Machado Graner), mas isolada no relacionamento íntimo e tortuoso que tinha com o pai.
No centro de “Anatomia...” está a dissecação, não de uma morte, mas da desintegração de um casamento. E este não é um jogo com deduções a serem feitas. Os motivos tanto para o suicídio quanto para o assassinato emergem de antigos ressentimentos de gênero; ou como a culpa do pai no episódio em que Daniel quase perdeu a visão, ou por Sandra ter plagiado uma das ideias de Samuel e alcançado o sucesso na carreira literária pela qual ele estava desesperado à procura.
ELENCO FORTE
Com suas duas horas e meia de duração do filme, a ambigüidade poderia se tornar algo cansativa, mas graças a um roteiro perspicaz entregue e aproveitado por um elenco forte, incluindo a atuação carismática de Swann Arlaud como advogado de Sandra – além de uma performance que rouba a cena com Messi, o border collie como Snoop, o companheiro canino do garoto Daniel – Triet sabe como manter o ímpeto. No centro do filme está a dissecação não de uma morte, mas da desintegração de um casamento e das coisas imperdoáveis que podemos dizer um ao outro quando estamos mais vulneráveis.
Surpreendentemente emocionante para um filme desprovido de ação real, este drama familiar disfarçado de mistério de assassinato aborda tensões conjugais universais; é ao mesmo tempo enigmático e muito humano. Seu estilo é simples, mas sofisticado na maneira como Triet distribui informações. É tenso, às vezes até insuportável, mas também sutil, desfrutável e idiossincrático. Um drama de rara originalidade que questiona nossa percepção da verdade atraves da judicialização da vida privada de um casal.


