Anatomia de um Crime
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de março de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoJames Stewart e Lee Remick, em Anatomia de um CrimeRealizado há 38 anos, Anatomy of a Murder ainda tem muito a ensinar a essas pálidas produções mais recentes que se apoiam nos escândalos por trás de um julgamento para segurar as platéias. Argumento astuto, atmosfera realista, direção exímia e interpretações de altíssimo nível extraídas de um elenco acima de qualquer suspeita são os elementos que fizeram deste drama de tribunal de cidade pequena um espetáculo de marcante personalidade. E o filme é uma dessas exceções que parecem ganhar vida própria apesar do confinamento imposto pelo vídeo. Ótimo em 1959, quando lançado nos cinemas, ainda hoje o filme se mantém inteiro mesmo em tela pequena, praticamente sem arranhões em seus 161 minutos.
Em Anatomia de um Crime, James Stewart é Paul Biegler, advogado que não dorme no ponto e vai à luta com unhas e dentes para defender o brutal tenente Frederick Manion (Ben Gazzara), acusado de matar o homem que violentou sua mulher, a ambígua e promíscua Laura (Lee Remick). Segurando com duas mãos a corda para o enforcamento está o promotor Claude Dancer (George C. Scott). Com estes ingredientes condimentados, o diretor Otto Preminger adicionou ainda a trilha sonora de Duke Ellington e fez um dos melhores e mais audaciosos filmes de tese - para os padrões morais dos anos 50 - sobre comportamento sexual, ética, verdade, justiça e a relação entre as palavras e os fatos.
Marca registrada Aqui, a direção de Preminger, como de resto na maioria dos seus filmes mais interessantes (Carmen Jones, O Homem do Braço de Ouro, Laura, Santa Joana, Tempestade Sobre Washington) , sugere uma sólida base teatral. E não poderia ser diferente: um dos integrantes do grupo de diretores alemães, austríacos e poloneses que de fato construíram parte expressiva do cinema americano, este vienense formado pelo teatro alemão de Max Rheinhardt sempre deu ênfase a dois elementos de cena que julgou fundamentais: o personagem e o diálogo. Ao diretor não interessa saber, por exemplo, quem é ou de onde vem o advogado vivido por James Stewart. É mais importante, porque conveniente para os propósitos de demonstração da tese, mostrar seus atos e atitudes no momento, abruptamente. Anatomia de um Crime é um filme com a marca registrada de seu realizador: um cinema do momento, do presente imediato, de certa forma contrário a qualquer tentativa psicológica.
Falando diretamente com franqueza e naturalidade sobre anticoncepcionais, calcinhas cor-de-rosa e estupro, James Stewart incomodou as platéias do fim da década de 50; e com sua interpretação destemida, sutil e espirituosa, acabou nominado para o Oscar da categoria. Aliás, este é um capítulo curioso sobre o filme. Foram sete as nominações, inclusive para melhor filme. E Anatomia de um Crime acabou não levando nenhum. O azar dos produtores e da Columbia foi encontrar pela frente a imbatível biga de Ben-Hur com seus 11 Oscars.
E ainda no capítulo bastidores, a malediscência hollywoodiana é capaz de jurar que o grande problema de casting foi a troca de Lana Turner, inicialmente escalada para viver a violentada, por Lee Remick, uma grande e injustiçada atriz a quem nunca foram dados os papéis que mereceu vida afora. Mas para se chegar a esta troca, houve antes uma outra, de bofetões , entre Lana e o diretor Preminger. A exuberância de Jayne Mansfield também foi cogitada, mas a atriz acabou carta fora do baralho.


